quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pipoca na manteiga

 

Quando passo pelo local onde se erguia a loja, fico cheia de passado. Daí, falo comigo: largue o passado no passado, dele, hoje, apenas os brechós se alimentam. Sorrio diante da bobagem do pensamento.
Eis que a lembrança de um perfume distante surpreende meu olfato. Olfato também tem memória. Cheiro de pipoca na manteiga...era o aroma da Sears, sua marca registrada.
Tudo o que se queria, por lá se encontrava, ou bem à vista ou meio às escondidas. Minhas visitas eram como as de um garimpeiro, busca que busca, mexe e remexe... assim eu sempre saía com uma sacolinha, mesmo que apenas comprasse um batom ou um par de meias coloridas.
O setor mais gostado, na verdade a minha paixão, era o dos casacos. Na época, São Paulo inda se fazia muito fria e as cores, os modelos, os tecidos eram lindos, aqueciam o corpo, a alma. Poucos deles eu trouxe para casa, outros tantos trago no que me resta de memória.
Talvez as raras oportunidades de adquirir um bem de maior valor, contribuíssem para o aumento do magnetismo local. A dificuldade, ou a impossibilidade, muitas vezes, infla a tendência, redobra o desejo.
Hoje, nem o perfume requintado do Iguatemi, nem suas vitrinas milionárias preenchem a ausência das araras da antiga loja, tampouco me trazem de volta o brilho dos olhos e a alegria de comprinhas à toa, as que me permitiam levar do lugar um pouco do encantamento.
Quanto ao aroma, no Iguatemi: Armani, Givanchi, Dior e tantos outros bailam pelo ar.
Do cheirinho de pipoca, hum...somente uma amanteigada lembrança.

Maria da Graça Almeida

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

SEU MOÇO, TUTANO, MEU NEGRO

 

Aonde vai: Que saiba, estará alforria
   Onde está? Que caiba, a fantasia
Abolido de todos os espaços
   Que aí sapuca o desfile
Pra encher o coração
   Quando pouco for o bastante
Quando muito é pouco
   De sermos o mesmo que é
Que a bem dito, salva a dor
                  Com arte
          Minh'Alma pede palma
                 Encarte
           Café, cana, tudo pelo ourinho
                 Descarte
A ideia que o comprou
   Pra que não posta seja a venda
Que o suor da raça transformou
   Se para trás ficou moendas em moinhos
Nexo, por meio, dos fins coloniais;
   Qual libertas, que será também
Agregados em tempos ainda tão bestiais
   Vem zumbido à memória
De história e alvoroço
   É seu moço, tutano, meu negro
O que fica, que se espalha
                 Valha
A bica derramada
                 Calha
A pedra com a mão
                 Talha.

          José Carlos dos Santos Ignácio
Do livro: Verde, amarelo, claros, Massao Ohno Editor, 1987, SP

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Rubens da Cunha e Rogel Samuel: boas leituras em Blocos!

 

NATURAL NÃO NATURAL

 

Sartre dizia que “escrever não é viver, nem tampouco se afastar da vida para contemplar, num mundo em repouso, as essências platônicas e o arquétipo da beleza, nem deixar-se lacerar, como se se tratasse de espadas, por palavras desconhecidas, incompreendidas, vindas de trás de nós: é exercer um ofício. Um ofício que exige um aprendizado, um trabalho continuado, consciência profissional e senso de responsabilidade”. Esse pensamento de Sartre retira do ato de escrever, sobretudo literatura, qualquer glamourização romântica da inspiração, qualquer superioridade que alguns pensam haver no ato de escrever.

Claro, é preciso contextualizar o texto de Sartre, escrito logo após a Segunda Guerra, não fazia sentido para o filósofo um mundo em que o escritor fosse um sofredor romântico, ou um autoexilado existencial, ou um sujeito captador das belezas etéreas advindas da inspiração. O escritor tinha que ser ativo, participante, ou, nas palavras de Sartre, engajado. Sua escrita devia estar anexa ao tempo em que vivia e não num passado mítico, ou nas alturas metafísicas do sentimento, das coisas do espírito. O escritor não poderia se colocar acima ou afora da realidade cortante que perpassava o mundo naquela década, sempre tendo como foco a liberdade, pois, para o próprio Sartre, a literatura é o exercício da liberdade.

Tratar a escrita como ofício, como trabalho contínuo, talvez seja a melhor parte desse pensamento de Sartre, pois desmonta um pouco o mito do escritor inspirado, do escritor xamânico, recebedor do mistério da arte. Talvez isso funcione para alguns, mas mesmo esses possuem um esforço laborativo por trás.

Quando falamos em inspiração, nos colocamos, muitas vezes, dentro desse terreno pantanoso do talento, do “dom natural”, algo atribuído pela “natureza” do indivíduo que ele pode desenvolver ou não. Outro artista revolucionário, o dramaturgo Bertolt Brecht dizia que não há nada natural, pois a “natureza” serviu, e serve, para explicar e justificar uma série de atrocidades, sobretudo no que tange às etnias e às classes sociais: era natural que negros fossem escravizados, é natural que pobres sejam explorados pelo capitalismo, é natural que o mundo seja controlado por homens brancos e heterossexuais, enfim, a ideia de natureza justificou muita coisa perniciosa. E continua justificando, pois ao se deixar a coisa no campo do “é natural”, a possibilidade de mudar, de enfrentar o problema fica mais difícil.

Quando Sartre clama pelo senso de responsabilidade dos escritores, ele deseja, justamente, que a ideia natural de “inspiração” não atrapalhe a consciência do escritor, não o torne um ser suscetível a ideias vindas das musas, mas que ele atue sobre seu tempo, escreva com responsabilidade e empenho, que faça da sua escrita um instrumento real de transformação das insensibilidades, das injustiças, das coisas todas que atrapalham a vida humana e que não têm nada de natural.

Rubens da Cunha

Leia mais textos de Rubens da Cunha em: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/colunistas/rcunha/rcindex.htm

(imagem retirada do site: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/planeta-urgente/como-o-islamismo-ajuda-a-reconstruir-clima-do-passado/

 

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A paisagem além da vidraça

Depois de reler um livro antigo fiquei disponível para minhas leituras de Natal, meus poetas de Ano Novo: como tecer um texto novo sem consultá-los? Como não reler Fernando Pessoa?

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !

Depois de reler um livro antigo fiquei disponível para minhas leituras de Natal, meus poetas de antigos Natais:

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Natal festa em família dos “lares aconchegados”. Natal onde ressurgem os “sentimentos passados”, de infância, de criança, de união.

Pessoa é tão atual quanto o desfazer-se dos lares, dos laços familiares, a solidão pós-moderna. Pessoa fala por nós: a família é coisa distante, afastada, é um sentimento passado.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

Afinal o texto se opõe ao mundo: como a família lhe parece verdadeira, ou seja, como ela é real, como ela não se apaga. O sentimento profundo vem das profundezas do subconsciente, da mãe primordial inarredável, só em sonho presente nessa solidão natalina – “estou só e sonho saudade” – saudade só no solipsismo desse sopro desses “SS” – uma respiração do poema e seu suspiro profundo, materno: “coração oposto ao mundo” é o seu conflito e isolamento, o poeta não está “nos lares aconchegados”.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Mas a paisagem também lhe é desconhecida, apesar de “branca de graça”. “Branca de graça” soa nesses “AA” invernais, a paisagem é branca porque não há nada nela, porque afinal ela-mesma nem existe, e por isso é tão cheia de graça, tão pura, tão limpa, tão infantil, pois o lar não o teve nem nunca o terá.

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

                              Rogel Samuel

Leia mais textos de Rogel Samuel em: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/colunistas/rsamuel/rsindex.htm

Imagem retirada do site: http://tercodoshomensdecaico.blogspot.com.br/2011_12_01_archive.html

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  Falecimento de Gregório de Mattos (1695, Recife/PE)

domingo, 25 de novembro de 2012

Presos que lerem Dostoiévski terão pena reduzida em comarca de SC

 

Projeto da Vara Criminal de Joaçaba prevê redução de quatro dias da pena. Proposta consiste na distribuição e leitura dos livros pelos apenados.

 

Detentos voluntários receberam um exemplar do livro, acompanhado de um dicionário (Foto: TJSC/Divulgação)

Detentos voluntários receberam um exemplar do livro,
acompanhado de um dicionário
(Foto: TJSC/Divulgação)

Um projeto da Vara Criminal de Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina, prevê a redução de até quatro dias na pena de detentos que lerem obras clássicas, de autores como Fiódor Dostoiévski. A proposta, chamada 'Reeducação do Imaginário', é coordenada pelo juiz Márcio Umberto Bragaglia e iniciou na manhã desta sexta-feira (23). 

De acordo com o Tribunal de Justiça (TJ) do estado, a proposta consiste na distribuição dos livros aos apenados da comarca. Posteriormente, magistrado e assessores vão realizar entrevistas. "Os participantes que demonstrarem compreensão do conteúdo, respeitada a capacidade intelectual de cada apenado, poderão ser beneficiados com a remição de quatro dias de suas respectivas penas", explica o TJ.

Apenados receberam o livro na sexta-feira (23), em Joaçaba (Foto: TJSC/Divulgação)

Apenados receberam o livro na sexta-feira (23),
em Joaçaba (Foto: TJSC/Divulgação)

“O projeto visa a reeducação do imaginário dos apenados pela leitura de obras que apresentam experiências humanas sobre a responsabilidade pessoal, a percepção da imortalidade da alma, a superação das situações difíceis pela busca de um sentido na vida, os valores morais e religiosos tradicionais e a redenção pelo arrependimento sincero e pela melhora progressiva da personalidade, o que a educação pela leitura dos clássicos fomenta”, explicou o juiz Bragaglia.

O primeiro módulo prevê a leitura de 'Crime e Castigo', de Fiódor Dostoiévski. No segundo módulo, os apenados devem ler 'O Coração das Trevas', de Joseph Konrad. Depois, estão previstas obras de autores como William Shakespeare, Charles Dickens, Walter Scott, Camilo Castelo Branco, entre outros. Os livros serão adquiridos em edições de bolso, com verbas de transação penal destinadas ao Conselho da Comunidade.
Na manhã de sexta (24), os participantes do projeto, todos apenados voluntários do Presídio Regional de Joaçaba, receberam uma edição de 'Crime e Castigo', acompanhada de um dicionário de bolso. As avaliações estão previstas para ocorrer após 30 dias. Ainda conforme o TJ, o projeto tem o apoio do Ministério Público de Santa Catarina.

http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2012/11/presos-que-lerem-dostoievski-terao-pena-reduzida-em-comarca-de-sc.html

Domingo, Kosby, Rogel, Gonçalves e Blocos!

 

Nascimento de Zé Rodrix (1947, Rio de Janeiro), Adilson Luiz Gonçalves

Informações culturais

MinC cria colegiado voltado a políticas públicas de fomento à cultura do segmento

Literatura

Poesia

Temática terceira idade: Ana Laura Kosby

Prosa

Coluna quinzenal de Rogel Samuel

Teatro

VIII Festival Brasília de Cultura Popular e II Festival Brasileiro de Teatro de Terreiro