quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

ACASO E PROBABILIDADES

 

Há pessoas que acreditam na fatalidade: cada um tem seu dia, sua hora de morrer. É uma maneira de ver o mundo. O acaso fica de fora. Alguém organiza nossa vida e morte, ninguém tem responsabilidade nisto.Tudo está pré determinado.
Mas há pessoas que, diferentemente, pensam nas probabilidades. Se o asfalto está molhado, se pessoa entra mal numa curva, se o outro carro ultrapassou onde não devia, se motorista tomou alcool, se está estressado ou enxerga mal, se é de noite ou, se passou um cachorro na estrada, se o automóvel não foi alinhado ou tem os pneus carecas, enfim, tudo isto aumenta a probabilidade de acidentes.
Estou convencido que nenhum acidente é fruto de fatalidade, mas de um conjunto de fatores que se agregam de repente. E as quase trezentas mortes na boite Kiss em Santa Maria, no Rio Grande do Sul são uma prova disto.
Qual o elemento aglutinador da tragédia? Onde o acaso entra nisto?
Se por acaso o rapaz da banda não tivesse soltado aquele rojão, nada disto teria acontecido. Todos os outro erros: uma porta só, isopor inflamável, alvará vencido, superlotação, falta de iluminação, seguranças, tudo isto não seria suficiente para detonar a tragédia.
Possivelmente o rapaz que soltou o rojão ja soltou rojões em outros shows e nada aconteceu. Aquela boite deve ter tido superlotação em outras oportunidades, e nem por isto. Os donos da casa noturna, descobre-se agora, tinham ficha criminal e seguiam sua vida normal.
Toda tragédia parte de uma série de transgressões, que se aglutinam em torno de um elemento disparador, que potencializa o desastre. O acaso é essa espécie de reagente químico que precipita a transformação do sistema.
Viver é a arte de controlar ou diminuir os acasos em nossa vida.

Affonso Romano de Sant’Anna

                                                                                    (Radio Metrópole, 31.01.2013)

domingo, 27 de janeiro de 2013

Após anulação, Biblioteca Nacional dá prêmio de poesia a Ana Martins Marques

 

O livro "Da Arte das Armadilhas" (Companhia das Letras), de Ana Martins Marques, foi escolhido na tarde desta quinta-feira (24) o vencedor na categoria poesia do Prêmio Biblioteca Nacional de Literatura.

A honraria tinha sido concedida em dezembro ao livro "Poesia 1930-62" (Cosac Naify), de Carlos Drummond de Andrade (1902-87), mas a Fundação Biblioteca Nacional (FBN) voltou atrás após analisar quatro recursos pela anulação do resultado.

 

A poeta mineira Ana Martins Marques

A poeta mineira Ana Martins Marques (Rodrigo Valente/Divulgação)

 

A instituição reconheceu que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora mediante autorização por escrito do autor, de modo que um autor já morto não poderia concorrer.

Após a anulação, os membros da comissão de avaliação --poetas Leila Miccolis, Carlito Azevedo e Francisco Orban-- reuniram-se novamente e o livro que obteve maior pontuação foi o de Ana. Publicado em 2011, "Da Arte das Armadilhas" é o segundo livro de Ana Martins Marques. O primeiro, "A Vida Submarina" (2009), saiu pela editora mineira Scriptum.

Nascida em 1977, em Belo Horizonte, onde mora, a autora é formada em letras e tem mestrado em literatura brasileira pela UFMG.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1220631-apos-anulacao-biblioteca-nacional-da-premio-de-poesia-a-ana-martins-marques.shtml

William Trevor: lições para uma literatura sentimental

 

Autor inédito no Brasil, Trevor assume o compromisso de celebrar a vida como ela é, em suas alegrias e tristezas, e dar voz ao cidadão comum.

 

William Trevor

 

“Usaria qualquer coisa para contar uma história, qualquer coisa que a fizesse funcionar”. É o que dizia William Trevor (1928- ) em entrevista ao The Guardian em setembro de 2009, vinte anos após um silêncio quase intransponível que o manteve à distância dos holofotes literários e midiáticos. Sua última entrevista significativa havia sido em 1989, quando uma impressionada repórter do Paris Review o interpelava acerca de sua extraordinária capacidade para criar diferentes personalidades em seus personagens, uma característica que, não se sabe se por falta de melhor definição ou por ser, de fato, o adjetivo mais certeiro, chamou simplesmente de “diabólica”. Dizia Mira Stout, a entrevistadora: “Como você pode saber tanto sobre como essas pessoas vivem? Parece com um ventríloquo que projeta sua voz em qualquer coisa”. A resposta foi ao mesmo tempo uma síntese de sua própria obra e de sua forma de trabalho: “Ora, parece-me que a única maneira de chegar lá é através da observação. Escritores registram tudo, lembram-se de pequenos detalhes. É uma forma de estar constantemente lembrando”.

Pode-se dizer que ler William Trevor é isso mesmo: um exercício do olhar. Ser leitor de seus livros é ser um pouco detetive, analista, ater-se às pequenas minúcias. É mirar através de uma lente de aumento a realidade cotidiana dos desafortunados, nua e crua. Wiliam Faulkner, o nobelizado de 1949, dizia que o elemento essencial para todo escritor é a observação. Outras duas categorias também figuram como fonte de inspiração e matéria-prima: imaginação e experiência. Em geral, uma delas será a mais desenvolvida, ocupando lugar de destaque na complexa genética literária que decidirá os rumos da prosa de cada autor. Tivesse conhecido William Trevor, certamente Faulkner seria impelido à criação de uma quarta categoria para aqueles que, dotados de criativa sensibilidade, ostentam a rara habilidade de equilibrar imaginação, experiência e observação.

Há um paralelo possível com outros escritores já consagrados no Olimpo da literatura, sobreviventes ao teste do tempo – como Anton Tcheckov. As ruas da Rússia czarista tomam a forma do Reino Unido contemporâneo que, passados cem anos, padece dos mesmos dilemas. A transposição dessas questões para outra cultura e outra época levanta uma questão importante: ao contrário do que apregoa nossa frenética era tecnicista, a história parece locomover-se emslow motion no que concerne aos valores humanos. Trevor assume o compromisso de celebrar a vida como ela é, em suas alegrias e tristezas, e dar voz ao cidadão comum. Por isso é, de fato, um contador de histórias. Seus personagens não corroboram o arquétipo do romance pós-moderno: o indivíduo atormentado por uma existência sem sentido que busca em seu próprio relato uma ressignificação para sua vida. Não. Para Wiliam Trevor os dilemas são produto da história. Ele afirma: “Minha ficção pode, vez ou outra, lançar luz sobre aspectos da condição humana, mas eu não o faço conscientemente: sou um contador de histórias”.

Mas em que momento a literatura contemporânea esqueceu-se dessas vozes para ater-se a imbróglios intelectuais sem fim? Não é que os personagens de Trevor sejam desprovidos de profundas preocupações existenciais. Eles estão, antes, preocupados com o emprego inexistente, com a visita iminente de um abusador sexual ao orfanato, com o que comer. Como a Rússia de Tcheckov, a Inglaterra de Dickens e o Brasil do século XXI.

Irlandês de nascimento, corpo e alma, o autor vive na Inglaterra desde 1954. Mas não trilharia desde cedo o caminho das letras. Seu primeiro romance veio apenas em 1964, aos trinta e seis anos de idade, após flertar com a carreira de escultor durante boa parte de sua juventude. Com o nascimento de seu primeiro filho e as dificuldades financeiras Trevor abandonou a escultura e arrumou trabalho escrevendo anúncios para empresas de publicidade, sempre prestes a ser mandado embora. “Eu era extremamente ruim”, diz. Foi nessa época que passou a escrever suas primeiras histórias, acompanhado de sua fiel máquina de escrever e doses cavalares de chá – para nunca mais parar.

O início de sua formação literária foi essencialmente através das ficções de mistério e histórias de detetive. Aos dez anos queria escrever thrillers, mas a ideia de se tornar um escritor ficou suspensa durante mais de duas décadas até o lançamento de The old boys. Antes disso Trevor havia publicado A standard of behavior, romance hoje renegado pelo próprio autor, escrito para aumentar a renda em um período de grande pobreza. Mas com a visibilidade de The old boys e as publicações seguintes finalmente pôde concentrar seus esforços exclusivamente naquilo que era sua verdadeira vocação: a escrita.

O recluso contador de histórias surpreende ao conduzir com maestria histórias que poderiam facilmente enveredar pelos caminhos do melodrama nas mãos de um escritor incauto. A narrativa tende a mostrar a que veio desde o início. Assim começa Death in summer: “Após o funeral, o intervalo que a tragédia trouxe toma uma diferente forma.” Dois capítulos mais tarde somos apresentados a Pettie, a amarga protagonista, e por meio da prosa límpida de Trevor já é possível identificar os desarranjos mentais que culminarão no evento central do romance.

Em 2012 foi um dos principais nomes na sempre acirrada disputa pelo Nobel de literatura. A casa de apostas Ladbrokes, reduto de jogadores que ano após ano apostam generosas quantias de dinheiro no nome dos possíveis ganhadores, tinha o nome de William Trevor alçado ao topo da lista, atrás apenas de Mo Yan, o contestado vencedor, e do superstar japonês Haruki Murakami. Vale ressaltar: o Nobel nunca revela quem são seus concorrentes, o que torna as possibilidades bastante amplas e um terceiro lugar ainda mais admirável.

Ainda que o público brasileiro não esteja familiarizado com seu nome, podemos encontrar edições em português para alguns de seus livros. Portugal possui algumas disponíveis, como A viagem de Felícia e Amor e verão (traduzidos do original por José Miguel Silva e Isabel Castro Silva, respectivamente). No estrangeiro, no entanto, Trevor já é figura respeitada há muitos anos. Tendo recebido inúmeros prêmios por seus romances, o autor faz maior sucesso justamente nas narrativas curtas – sendo considerado por muitos o maior contista vivo. Uma rápida busca no site Goodreads revelará o fato: os maiores escores de William Trevor são suas coletâneas, em especial After Rain, de 1996.

Quanto a nós, brasileiros, seguimos na expectativa por algum de seus trabalhos. E que a sua influência seja salutar para uma geração habituada a conflitos interiores e que almeja atacá-los em suas origens socioculturais mais profundas. Não importa o século e a localização geográfica do problema em questão. Importa registrar nas páginas da história os porquês e os comos de nossas falhas na tentativa de extirpá-los, e que a literatura seja capaz de denunciar a realidade sem pudores. Como dizia Walter Benjamin: todo documento de cultura é um documento de barbárie.

http://www.amalgama.blog.br/01/2013/william-trevor/

sábado, 26 de janeiro de 2013

Com fotos e televisores antigos, museu preserva a história da televisão

 

Quando a televisão surgiu no Brasil, em 1950, todos os programas eram exibidos ao vivo, porque não havia tecnologia para gravá-los. Diariamente, das 20h às 22h, um episódio da novela (que passava só duas vezes por semana) ou uma peça de teatro, por exemplo, eram encenados em frente às câmeras.

Por causa da dificuldade tecnológica, muito da memória desse período se perdeu. Um lugar, porém, reúne parte do que sobrou dessa história: o Museu da TV, localizado no bairro do Sumaré.

A atriz Vida Alves, que fez parte da equipe original da TV Tupi - a primeira emissora de televisão do Brasil, converteu sua casa na sede do museu. Ali, é possível ver fotos, figurinos, câmeras e aparelhos de televisão antigos. E, na memória, ela armazena histórias sobre a primeira transmissão do canal e sobre o primeiro beijo na boca exibido na televisão brasileira (do qual ela fez parte, com o ator Walter Foster).

Museu da TV
Ver em tamanho maior »

         Gabo Morales/Folhapress

JOGO DE CINTURA

No começo, Vida conta que não havia departamento de figurino. Cada ator vestia as próprias roupas ou arranjava as próprias fantasias. "Se fosse uma roupa de um personagem mais velho, levava da mãe. Se fosse mais velho ainda, levava da avó", ela lembra.

Os cenários também eram improvisados. Vida relata que para fazer uma cena em um lago cercado de plantas, os funcionários recolheram galhos pelas ruas próximas à emissora e os organizaram ao redor da banheira de borracha usada pelos filhos pequenos da atriz.

PARA CRIANÇAS

Não demorou para alguém pensar em fazer programas para crianças. A autora Tatiana Belinky e o seu marido, o médico Júlio Gouveia, conseguiram do amigo Monteiro Lobato autorização para adaptar para a televisão as aventuras da turma do Sítio do Picapau Amarelo, que foram ao ar pela primeira vez em 1951.

Outros programas para o público infantil foram criados e a programação foi ampliada para começar às 18h. Vida Alves foi a idealizadora de um desses programas, chamado "Ciranda Cirandinha". "Era parecido com o 'Chaves'", diz a atriz. Nele, um grupo de crianças brincava a na rua e interagia com os adultos que passavam por ali.

MUSEU

Histórias como estas estão preservadas no acervo do museu, que foi montado com doações de atores e outros profissionais veteranos da televisão. As inúmeras fotos em exposição trazem rostos conhecidos até hoje, de atores e atrizes como Suzana Vieira, Regina Duarte, Tarcísio Meira e do apresentador Cid Moreira.

Quem visita o museu também pode ver peças do figurino usado por Alves na novela "Sua Vida Me Pertence" (1951), a primeira câmera de televisão do Brasil, prêmios e troféus do rádio e da televisão e conhecer a dona da casa, que ao final das visitas monitoradas faz uma pequena palestra.

CIDADE DA TV

Parte do acervo reunido pelo museu está em exposição na Cidade da TV, que fica na Cidade da Criança, em São Bernardo do Campo.

Além de apresentar a história da televisão desde os tempos em que era preto e branco, a atração também tem uma tela interativa --que reage aos passos dos visitantes que caminham sobre ela-- e o uniforme vestido pelo Capitão 7, estrela de um programa que foi ao ar de 1954 a 1966 na TV Record.

PARA CONFERIR
Museu da Televisão
QUANDO: A partir de 18/2. Visitas devem ser agendadas pelo telefone 0/xx/11/3872-7743 ou por e-mail protv.museudatv@gmail.com e acontecem de segunda à sexta, das 10h às 18h.
ONDE: r. Vargem do Cedro, 140 - Sumaré - São Paulo / SP
QUANTO: R$ 5

Cidade da TV
QUANDO: de terça a domingo, das 9h às 17h
ONDE: Cidade da Criança - Rua Tasman, 301 - São Bernardo do Campo
QUANTO:de R$ 5 a R$ 10

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/1218580-com-fotos-e-televisores-antigos-museu-preserva-a-historia-da-televisao.shtml

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Brasil tem 15 filmes na 42ª edição do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam

 

Com um total de 15 títulos em diversas mostras, o cinema brasileiro terá uma expressiva participação na 42ª edição do Festival Internacional de Cinema de  Rotterdam, na Holanda, que começa na próxima quarta-feira (23) e vai até o dia 3  de fevereiro. O destaque é o filme Eles Voltam, do diretor pernambucano  Marcelo Lordello, que em sua estreia internacional concorre ao prêmio Hivos  Tiger, o principal da parte competitiva do festival. No último Festival de Brasília, Eles Voltam ganhou os prêmios de melhor longa de ficção, melhor  atriz e melhor atriz coadjuvante.

O filme conta a história de duas crianças que, por brigarem constantemente durante uma viagem à praia, são deixados na beira da estrada pelos próprios pais. Eles voltam é mais uma produção pernambucana a participar da mostra competitiva do festival da cidade holandesa, depois de Baixio das Bestas, premiada com o Hivos Tiger em 2007, e de O Som ao Redor, em 2012.

Em outras seções do festival, mais cinco filmes brasileiros fazem em Rotterdam sua estreia mundial. São eles A Floresta de Jonathas, de Sérgio Andrade; Avanti Poppolo, de Michael Wahrmann; Morro dos Prazeres, de Maria Augusta Ramos; O Rio nos Pertence, de Ricardo Pretti e O Uivo da Gaita, de Bruno Safadi.

Integram ainda a participação brasileira deste ano em Rotterdam cinco curta metragens, filmes já exibidos em outra mostras internacionais e produções feitas originalmente para outras mídias, como a internet e a TV.

O Festival de Rotterdam é um dos 77 eventos contemplados em 2013 pelo Programa de Apoio à Participação de Filmes Brasileiros em Festivais Internacionais, da Agência Nacional de Cinema (Ancine). O programa, que acaba de ser renovado por meio de portaria da agência, viabilizou em 2012 a presença de 85 filmes brasileiros – 38 longas, 22 curtas e 25 médias-metragens – em 43
festivais realizados em 21 países.

Lançado pela Ancine em 2006, o programa auxilia com serviços e recursos financeiros os filmes brasileiros oficialmente selecionados para festivais estrangeiros. São quatro tipos diferentes de apoios, compreendendo desde a concessão de cópia legendada ao envio da cópia e ao apoio financeiro para a promoção do filme.

Segundo a Ancine, os valores do apoio diferem em função da categoria do evento para o qual o filme foi selecionado, mas o mínimo é de R$ 4.200. O requerente deve solicitar o apoio com pelo menos 30 dias de antecedência em relação à data do festival. No caso do Festival de Rotterdam, cinco filmes foram beneficiados pelo programa de apoio da Ancine.

http://www.brasilcultura.com.br/audio-visual/brasil-tem-15-filmes-na-42%C2%AA-edicao-do-festival-internacional-de-cinema-de-rotterdam/

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

História da Bienal da UNE aponta poder de mobilização de estudantes e artistas

 

Criar um espaço para o diálogo entre o movimento estudantil e o movimento cultural. Foi com esse intuito que a União Nacional dos Estudantes (UNE) fundou, em 1999, um evento que atraísse estudantes que não estavam articulados na rede formal do movimento estudantil, composta por Centros e Diretórios Acadêmicos (CAs, DAs e DCEs). A iniciativa não era nova e se inspirava no Centro Popular de Cultura (CPC), fundado pela UNE em 1961 e fechado peladitadura militar três anos depois. Mesmo curta, a experiência deixou como legado um exemplo da força da mobilização conjunta de artistas e estudantes, fazendo correr pelo país os anseios por reformas estruturais.

“O CPC demontrou o poder da união entre as forças mobilizadoras que emanam da cultura e dos estudantes. Nessa época, vários artistas se aproximaram das demandas apresentadas pelo movimento estudantil”, aponta Maria das Neves, diretora de cultura da UNE. Pelo CPC, passaram figuras como o teatrólogo Gianfrancesco Guarnieri, que produziu a peça Eles não usam black-tie; o escritor Ferreira Gullar, autor de diversas poesias e crônicas; e os cineastasJoaquim Pedro de Andrade, de Marcos Faria, Cacá Diegues, Miguel Borges e Leon Hirszman, que produziram o filme Cinco Vezes Favela.

No espaço de tempo que separou o fim do CPC e a criação Bienal da UNE, o vínculo entre estudantes e artistas nunca foi totalmente suspenso, se vinculando através do apoio à cultura popular e das campanhas pelo direito à meia-entrada. Entretanto, é partir da Bienal que a UNE retoma seu objetivo de revelar ao Brasil manifestações artísticas inovadores e vinculadas com os processos políticos e sociais em curso no país. O evento é hoje um espaço propício para a
iniciação artística. “Os artistas que se apresentam ganham experiência para se participarem em outros eventos deste porte e têm a oportunidade de estabelecer contatos promissores. Alguns seguem carreira, outros não. Há bandas universitárias que se apresentaram em outras edições e já fazem sucesso em seus estados”, diz Maria das Neves.

Poder mobilizador

A Bienal parte de um entendimento de que o movimento estudantil deve mobilizar um rede mais diversificada. “A falta de interesse em participar de uma passeata não significa falta de engajamento ou descompromisso político. Há muitos estudantes que não estão dispostos a participar de manifestações ou integrar os CAs, mas organizam periodicamente uma roda de samba que reúne um grupo fixo de pessoas. A linguagem cultural tem um poder contagiante. Muitas vezes, um discurso oral não choca tanto quanto uma música ou uma peça de teatro”, explica Maria das Neves.

A história do evento deixa em evidência o poder de mobilização da cultura.
Chegando a sua 8ª edição, a Bienal já mobiliza um público maior que o Congresso da UNE. Estima-se que 10 mil pessoas circularão diariamente pelas atividades da programação.

Nesse processo de mobilização contínua, a Bienal contou com o reforço do Circuito Universitário de Cultura e Arte (CUCA), fundado pela UNE em 2001. Segundo Maria das Neves, a iniciativa teve como objetivo proporcionar um fórum permanente para o debate cultural e um espaço para a criação artística dos estudantes. Em 2002, o CUCA foi contemplado no Programa Pontos de Cultura, lançado pelo então ministro da Cultura, Gilberto Gil. A partir de então, o circuto se desenvolve, criando ramificações em vários estados e promvendo um diálogo cultural entre estudantes e socidade.

A Bienal da UNE já passou por lugares conhecidos pela sua efervescência cultural, tais como a Lapa e o Pelourinho. Ao todo, cinco cidades já sediaram o evento, algumas delas mais de uma vez: Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Olinda e São Paulo. Nos seus 14 anos, a Bienal proporcionou o encontro de estudantes e novos artistas com renomados personagens do cenário artístico do Brasil. Gilberto Gil, Oscar Niemeyer, Ariano Suassuna, Augusto Boal, Ziraldo, Jorge
Mautner, Alceu Valença, Marcelo D2, Martinho da Vila, Lenine e Naná Vasconcelos são alguns dos nomes que trocaram experiências com os participantes das edições passadas.

Ao longo de sua história, o evento buscou ainda aliar o debate cultural às questões sociais e políticas da formação do povo brasileiro e da identidade nacional. Enquanto neste ano está em foco os processos migratórios do povo nordestino, em outros momentos já foram discutidas, por exemplo, a relação entre o Brasil e a África e a integração latino-americana.

http://www.brasilcultura.com.br/sociologia/historia-da-bienal-da-une-aponta-poder-de-mobilizacao-de-estudantes-e-artistas/

domingo, 20 de janeiro de 2013

EM HOMENAGEM A WALMOR CHAGAS

 

 

O Suicida

 

O sucídio
Não é algo pessoal.
todo suicida
nos leva
ao nosso funeral.

 

O suicida
Não é só cruel consigo.
É cruel, como cruel
só sabe ser
o melhor amigo.

 

O suicida
é aquele que pensa
matar seu corpo a sós.
Mas seu eu se enforca
num cordão de muitos nós.

 

O suicida
não se mata em nossas costas
Mata-se em nossa frente
usando seu próprio corpo
dentro de nossa mente,

 

O suicida
não é o operário.
É o próprio industrial em greve.
É o patrão
que vai aonde
o operário não se atreve.

 

Todo homem é mortal.
Mas alguns, mais que outros,
Fazem da morte
Um ritual.

 

O suicida, por exemplo
É um vivo accidental.
E o general
que se equivocou de inimigo
e cravou a sua espada
na raiz do proprio umbigo.
Mais que o espectador
que saiu no entreato
o suicida
é um ator
que questionou o teatro.

 

O suicida
é um retratista
que às claras se revela.
Ao expor seu negativo
queima o retrato
e se vela.

 

O suicida, enfim, ‘
é um poeta perverso
e original
que interrompeu seu poema
antes do ponto final.

                              

                                       Affonso Romano Santanna

 
(EM HOMENAGEM A WALMOR CHAGAS ESSE POEMA ANTIGO( Poesia Reunida, vol.2 p.45)