quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Rascunho de poeta da 1ª Guerra revela corte de versos polêmicos de poema

 

 

Foi encontrado um rascunho de um dos mais célebres poemas antibelicistas de Siegfried Sassoon (1886-1967), poeta e capitão do Exército britânico, revelando que os versos mais controvertidos foram cortados e outros foram suavizados antes de o poema ser publicado.

O manuscrito de "Atrocities" --que trata da matança brutal de prisioneiros alemães por soldados britânicos-- é acompanhado por uma carta inédita em que Sassoon fala do horror que sentiu ao descobrir que soldados de seu lado tinham cometido tais barbáries.

 

George Charles Beresford/Reprodução

O poeta e capitão do Exército britânico Siegfried Sassoon em foto de George Charles Beresford, em 1915

 

O poeta e capitão do Exército britânico Siegfried Sassoon em foto de George Charles Beresford, em 1915

A versão original do poema inclui as frases "vocês são hábeis assassinos" e "sorver o sangue deles em sonhos vampirescos", deletadas mais tarde.

Depois da descrição de prisioneiros "massacrados", na primeira estrofe, a segunda estrofe impressa prossegue: "Como você deu cabo deles...?". Mas, na versão inicial, Sassoon escreveu: "Como você os matou...?".

O editor de Sassoon hesitou em incluir "Atrocities" no livro de poemas de guerra "Counter-Attack", de 1918, e o poema foi publicado no ano seguinte em versão revista.

Na carta que acompanha o rascunho do poema, Sassoon expressa desespero pelo fato de "canadenses e australianos divulgarem suas façanhas como assassinos", acrescentando: "Sei de casos muito atrozes. Outro dia um oficial de um regimento escocês estava me presenteando com histórias de como seus homens colocavam bombas nos bolsos de prisioneiros e então os enfiavam em buracos de bomba cheios de água. Mas é claro que essas coisas não são atrocidades quando nós a fazemos. Mesmo assim, revelam o que é a guerra; algumas pessoas não conseguem impedir-se de ser assim quando estão lá fora."

Os materiais encontrados estão entre mais de 520 manuscritos de poemas e retratos de poetas colecionados ao longo de 40 anos por um estudioso literário, Roy Davids, e serão leiloados pela Bonhams, que descreve a coleção como a melhor coletânea de poesia jamais oferecida em leilão.

Entre os materiais de Sassoon há um caderno com quase 50 poemas ainda inéditos.

Datados em sua maioria da década de 1920, eles incluem "Companions" (Companheiros) ("O silêncio e a solidão são meus companheiros / Mas sou autodidata em estar só..."), "The Fear of Death" (O medo da morte) ("Corra como o vento para encontrá-la em sua mente / E você verá que já não se choca / Com a morte, a quem a vida supera em coragem com cada respiração...") e "Max Gate", lamentando a morte de Thomas Hardy, seu amigo.

TESOURO

Sassoon recebeu a Cruz Militar, mas os horrores que viveu o levaram a jogar sua medalha no rio Mersey e recusar-se a continuar prestando o serviço militar. Diagnosticado como traumatizado de guerra, deixou de ser submetido à corte marcial e foi internado para tratamento psiquiátrico no Hospital de Guerra Craiglockhart, em Edimburgo, de onde, em 1917, enviou a carta inédita a seu amigo C.K. Ogden, psicólogo e editor da "Cambridge Magazine", que publicava opiniões dissentes sobre a guerra.

A biógrafa de Sassoon, Jean Moorcroft Wilson, comentou: "Estes são materiais muito instigantes. Quero reescrever a biografia que fiz, e provavelmente conseguirei incluir alguns destes textos. São um tesouro."

 

Divulgação

O poeta e capitão do Exército britânico durante a 1ª Guerra Siegfried Sassoon em foto não datada

 

O poeta e capitão do Exército britânico durante a 1ª Guerra Siegfried Sassoon em foto não datada

 

A respeito do rascunho de "Atrocities", ela comentou: "A editora, Heinemann, não o deixou publicar o poema. Agora entendo ainda mais claramente por quê. Ogden era um dos poucos editores que ousavam publicar poemas contrários à guerra. A sede de sua revista foi depredada por pessoas que achavam que ele não era patriota. E havia censura, de certo modo. O editor deve ter imaginado que o texto não seria aceitável. A Heinemann provavelmente percebeu que teria que agir com cuidado."

O caderno de Sassoon é "prova de sua busca incansável por um tema", disse a biógrafa. "Ele encontrou um tema maravilhoso na Primeira Guerra Mundial. Terminada a guerra, tornou-se um poeta em busca de um assunto."

Wilson descreveu o poema sobre a morte de Hardy como "muito comovente", dizendo: "Sassoon foi ajudar Florence Hardy, a viúva, quando Hardy morreu, porque era íntimo do escritor. Eu imaginava que ele tivesse escrito algo sobre a morte de Hardy, e aqui está."

Roy Davids, 70 anos, é ex-leiloeiro e marchand; dirigiu o departamento de manuscritos da Sotheby's por muitos anos. Ele comentou sobre o rascunho de "Atrocities": "Quando primeiro li este poema, mal pude acreditar que era um oficial inglês dizendo essas coisas sobre seu próprio lado. Não surpreende que não tenham querido publicar. É claro que fazia parte daquela coisa toda de fazer resistência aos generais. Eles sabiam que não poderiam executá-lo, então o mandaram ao hospício."

A coleção de Davids se lê como um manual de A a Z de literatura inglesa, abrangendo Tennyson, Ted Hughes e T.S. Eliot. É tão grande que o leilão da Bonhams terá lugar em dois dias, 10 de abril e 8 de maio.

Desmond Clarke, presidente da Sociedade de Livros de Poesia, falou que haverá grande interesse no material oferecido no leilão. "'Atrocities' é uma crítica intransigente aos colegas soldados de Sassoon. Deveria ser leitura obrigatória para todos os cadetes de [a academia militar] Sandhurst."

 

VISÃO DE CRUELDADE

 

O texto publicado de "Atrocities"

 

Você me contou, em seu momento de jactância bêbada

De como massacrou prisioneiros, certa época. Era bom!

Com certeza não sentiu pena ao vê-los

Pacientes, acovardados e assustados, como prisioneiros devem ficar.

Como deu cabo deles? Vamos lá, não seja tímido:

Você sabe que eu adoro ouvir sobre como morrem alemães

Lá embaixo, em trincheiras. "Camaradas!", eles berram,

E então gritam como arminhos quando as bombas começam a voar.

E você? Conheço sua ficha. Você se declarou doente

Quando as ordens pareceram perigosas; e depois, com truques e mentiras

Deu um jeito de ser mandado para casa. E aqui está,

Ainda contando vantagem e bebendo todas num bar.

 

O original, em inglês

 

You told me, in your drunken-boasting mood,

How once you butchered prisoners. That was good!

I'm sure you felt no pity while they stood

Patient and cowed and scared, as prisoners should.

How did you do them in? Come, don't be shy:

You know I love to hear how Germans die,

Downstairs in dug-outs. "Camerad!" they cry;

Then squeal like stoats when bombs begin to fly.

And you? I know your record. You went sick

When orders looked unwholesome: then, with trick

And lie, you wangled home. And here you are,

Still talking big and boozing in a bar.

 

Tradução de CLARA ALLAIN.

 

DALYA ALBERGE
DO "GUARDIAN"

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1227464-rascunho-de-poeta-da-1-guerra-revela-corte-de-versos-polemicos-de-poema.shtml

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Alex Sens Fuziy vence Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura

 

Jovem escritor foi premiado na categoria jovem escritor com R$ 7 mil

 

 (Reprodução / Facebook)

Entusiasmo é o que não falta a Alex Sens Fuziy, de 24 anos, que acaba de receber o Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura na categoria jovem escritor. Ele receberá bolsa mensal de R$ 7 mil para desenvolver o romance 'O frágil toque dos mutilados'. Francisco Maciel venceu na categoria contos, com o livro 'Não adianta morrer'; o paranaense Otto Leopoldo Winck ganhou o prêmio de poesia, com 'Desacordes'; e o romancista mineiro Rui Mourão foi contemplado pelo conjunto de sua obra.

Nascido em Florianópolis, Alex mora em Lavras, no Sul do estado. Para ele, o prêmio representa atravessar um imenso portão de luz. “O que se desdobra e avança por detrás dele só o tempo e as páginas do livro dirão”, afirma. Revisor, tradutor e autor de dois volumes de contos já publicados, 'Exdrúxulas' e 'Trincada', o catarinense participou de sete coletâneas. Também colabora com sites e com as revistas 'Germina', 'Cronópios' e 'Releitura'.

A partir de agora, Alex só pensa em terminar o romance. De acordo com ele, iniciativas como a do governo de Minas de premiar jovens autores são indispensáveis e merecem elogio. “Isso demonstra atenção e apreço por essa miríade de escritores talentosos em busca de reconhecimento, tão necessário”, diz.

Francisco Maciel participa de concursos literários desde os 12 anos. Já venceu alguns, como o promovido pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, que premiou a novela Na beira do rio, ainda inédita. O autor, que integrou antologias como 'Literatura e afrodescendência no Brasil' (Editora UFMG), diz que o Prêmio Minas chegou na hora certa. “Já estava me sentindo um inconfidente condenado à morte literária, pronto para o grande exílio nas luas de Saturno”, diz.

O fluminense Maciel é jornalista e trabalha na revista 'Pesca & Mar', editada pelo Sindicato dos Armadores de Pesca do Estado do Rio de Janeiro. O livro 'Não adianta morrer' lhe deu o novo prêmio. Seus contos se passam no limite, na fronteira. “É um fio de navalha entre a vida, a morte, o sonho, a realidade e a ficção”, afirma Francisco Maciel.

http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/arte-e-livros/2013/02/12/noticia_arte_e_livros,140353/alex-sens-fuziy-vence-premio-governo-minas-gerais-de-literatura.shtml

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

UM POETA SE FOI, A LUZ APAGA

 

A morte de Lêdo Ivo me abala. Tantos textos em tantos anos que li, estava acostumado com a sua existência. Durante a vida temos companheiros de leituras prediletas.

Ele era para mim um daqueles poetas que o Brasil dispunha dignos de um Prêmio Nobel. Foi especialmente para mim que ao longo da vida o imitei. Na sua VÃ FEITIÇARIA eu sinto que para tê-la temos de inventá-la, a vida, a flor, o amor. É só no invento, na magia que a felicidade se nos vem com sua bênção, com o seu orvalho, a sua aurora. Se não soubermos inventar, a alegria seca, a flor não medra, o mundo é vão. Só a flor inventada, e por isso inexistente, pode ser autêntica testemunha da nossa ressurreição diária, da respiração da nossa aventura.  Porque todo amor é Narciso solitário à beira de seu lago em busca de si mesmo. Porque sem amor o mundo acaba, mesmo vivo, num sarcófago. Temos de ter o espelho mágico do viver, do ver, do encontrar, do imaginar, e de lá, de dentro do espelho, revelar a flor que nos constrói. É no espelho, é só no espelho, que a vida vive e é ali reinventada, e é de lá que ela sai de seu sarcófago para florir a sua floração e acender as suas luzes. Ai, amor, quão tênue é seu existir, quão vago o seu abraço inexistente! Mundo espelhar, mundo invertido num espelho, mundo vão, ilusório, fictício, fátuo. É desse galpão escuro do segredo que tiramos os sortilégios das palavras, das navalhas, das pratas, das asas do viver. Vivemos por um triz, no fio dessas lâminas aladas, equilibrando-nos no existir de tais teias de aranhas inexistentes. A vida eu a tenho de inventar com as palavras, com meus tristes dragões vencidos pela minha mágica. Se não os inventar, tudo vai sumir num instante, de súbito. Porque sou pó, sou pó mortal, sujeito à injúria do nada, tenho de colher essas flores fictícias e cobrir-me dessas rosas falsas, de coroar-me de flores invisíveis, flores eternas, flor só encontrável nessa flora efêmera, sonho de sonho que é como a vida se escoa em vãs lembranças, e onde a minha rosa eterna morre porque é eterna, morre porque o mundo morre, morre porque o mundo é vão.

 

A VÃ FEITIÇARIA

 

Lêdo Ivo

 

Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho
que a torna testemunha desta aurora.
Invento o espelho e, mais que o espelho, o amor
onde eu me vejo, vivo, num sarcófago.
E a vida, este galpão de sortilégios,
deixa que eu a invente com palavras
que são dragões vencidos pela mágica.
E não me espanta que eu, sendo mortal,
sujeito à injúria de tornar-me em pó,
crie uma rosa eterna como as rosas
inexistentes nesta flora efêmera.
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se
em vãs lembranças. Minha rosa morre
por ser eterna, sendo o mundo vão.

Rogel Samuel