terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Concursos literários, poesia e prosa de Rubens da Cunha

 

A Casa do Sol

 

Casa do Sol. Fim de tarde. O sol entra pelas janelas, delicado, como que se despedindo, toca as paredes, os móveis, os quadros, os pequenos e grandes objetos que um dia foram tocados por Hilda Hilst. Faz três dias que estou aqui, ficarei mais três, ambientando-me, abrindo livros, buscando pistas, estabelecendo um contato físico com esta Casa. Há anos leio e estudo Hilda Hilst, fiz de sua obra uma companheira diária, a Casa do Sol era pra mim uma personagem, uma ficção que se estendia por seus textos. “Se és poeta, entendes, Casa é ilha”, talvez por isso sempre considerei essa Casa um distanciamento, um espaço longínquo que se presentificava na sua escrita aterradora e sublime. Era uma casa em que a rotina era outra, não haveria por aqui vazamentos, entupimentos, pequenos reparos, cuidados que toda casa precisa. A Casa do Sol seria apenas o lugar onde o texto de Hilda Hilst se solarizava para poder solarizar seus leitores.

Pela primeira vez entrei no mundo que Hilda criou em torno de si: “a minha Casa é guardiã do meu corpo e protetora de todas as minhas ardências e transmuta em palavra paixão e veemência”. Uma casa construída longe da cidade, erguida para ser cenário de seus novos caminhos literários: Hilda, que sempre foi tão urbana, veio exilar-se, ou aproximar-se ainda mais da literatura num lugar ausente de qualquer urbano. Hoje não mais, que a cidade avizinha-se da Casa do Sol.

Chegar aqui é conviver com os arcos no pátio interno, com a figueira que, reza a lenda, realiza desejos: “e entre o pátio e a figueira converso e passeio com meus cães”, convive-se com os cães também. Alguns deles ainda estão por aqui, outros, “não os mesmos, outros, de igual destino, loucos, tristes” vieram depois que Hilda foi, mas também apossados do espírito da casa. Chegar aqui é sentar-se neste banco, acarinhar a mesa onde escrevo esse texto sobre a poeta que um dia me fez parar de escrever. Estar aqui é perceber os elefantes e budas de porcelana e, sobre a lareira, um altar repleto de santos católicos. Na biblioteca também se chocam filosofia, esoterismo, teologia, literatura, ciência: “os livros são criaturas, cada página um ano de vida, cada leitura um pouco de alegria”, escreveu anos antes de vir para a Casa. Estar aqui é tatear as dobras de “mistério nunca desvendado” e o “todo corajoso de poesia” que permeiam cada canto. É ver as fotografias pelas paredes, muitas delas estão os amigos que por anos frequentaram a casa, acompanharam de perto a rotina solar de Hilda Hilst: “meus amigos sabem de tudo o que eu sei.” São estes amigos que hoje mantém a casa viva e vivendo cada vez mais, tombada pelo patrimônio municipal, aberta a pesquisadores, artistas, pessoas que vem aqui residir por alguns dias nesse lugar onde Hilda residiu por mais de quarenta anos, e que se tornou um dos lugares mais míticos e instigantes da recente literatura brasileira.

Rubens da Cunha

 

Concursos Literários

 

Regulamento do I Concurso de Minicontos Autores S/A: Prazo: 20/3

 

Literatura

 

Poesia

 

Enciclopédia Virtual Blocos de Poesia Contemporânea Brasileira: Juliana Meira

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Rogel Samuel, Rio de Janeiro, Mário de Andrade e Blocos

 

O HAMLET DE KOZINTSEV

 

 

 

Minha encomenda do DVD levou um ano para chegar. O filme é de 1964, foi lançado na primavera de 64, no fim da era Stalin e da nossa ditadura militar. Mas durante cerca de dez anos Grigori Kozintsev já vinha trabalhando nele.

Nós o assistimos no Brasil, logo que saiu, afinal ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza. Eu me lembro bem que ainda estava na Faculdade, na FNFi, pois Dr. Cleonice Berardinelli o comentou em sala de aula, salientando a dança quase mecânica de Ofélia.

O filme só foi possível porque reuniu alguns dos gênios daquele tempo, como Pasternak e Shostakovich.

A música de Shostakovich vale o filme, é uma obra belíssima, composta especialmente para a obra, ainda que alguns especialistas encontram ali semelhanças com suas duas sinfonias.

Kozintsev disse que o filme não teria sido possível sem aquela música, que desempenhou um papel crucial neste filme, música que se balança entre solenidade e ansiedade.

Kozintsev criou um Hamlet que diz “não a toda sorte de mentiras” como ele disse para um repórter.

Alguns atores ali não são russos. Kozintsev teve dificuldade em escolher o elenco, enfrentou alguns problemas. Mas a principal dificuldade foi a escolha do próprio príncipe, vivido por Smoktunovsky, que era um ator de teatro. Seu desempenho foi notável, mas discreto e tradicional, como queria o diretor, sem afetação.

A fotografia, em preto e branco, exerce um papel decisivo: O mar e o castelo de Elsinore aparecem no início e no fim do mesmo modo. O mar insinua o transitório do mundo da política, o mar, com suas ondas regulares, em diagonal. O castelo é a sede do poder e é o próprio poder. A sobra do castelo ameaça como o fantasma do pai.

Um crítico russo observou que frequentemente Hamlet fala em monólogo porque está absolutamente sozinho. O diretor preferiu solilóquios e silêncios. Por exemplo, no “ser ou não ser” o ator não abre a boca. Só pensa.

O castelo de Elsinore na realidade parece uma prisão, e em todos os lados aparecem guardas pesadamente armados. Por isso as cenas de liberdade estão do lado de fora, e é fora do castelo que o Príncipe morre, no fim. E há cenas em que o príncipe abre portas sucessivas.

Há uma grande quantidade de velhas com cara de morte, como as que aparecem sempre de preto com bandeiras negras. E a intriga palaciana aparece atrás de portas e cortinas.

Aquele relógio que se vê e se ouve algumas vezes com os bonecos do rei, da rainha, do soldado e da morte, aqueles sons de sino, o vento, as ondas, as sonoridades do tempo.

O filme foi visto no fim das ditaduras militares lá e cá, mas não é datado: não são as ditaduras somente que nos parecem cruéis, a própria vida é incompreensível.

Por isso, o sentido daquelas sombras que acompanham o filme inteiro.

No final, a sombra do corpo morto do príncipe ao ser carregado e passar pela ponte do castelo decide tudo.

Ao passar, observamos um garoto que brinca após o cortejo.

E o mar. O mar recomeçando tudo.A sombra do castelo de Elsinore sobre o mar é revolucionária, como que diz: tudo passa. A sombra do castelo se projeta sobre o mar como a sombra do mal.

O filme é raro. Quem quiser ter uma ideia do que representa, assista a versão original em russo no nosso blog: http://arquivoprecioso.blogspot.com.br/

Obs: ODVD de que falo está legendado em inglês, e é difícil de acompanhar. Mas é uma obra-prima que não se pode deixar de curtir. A qualidade desta versão na Internet está melhor do que a do DVD. O DVD, inclusive, cortou alguns segundos do filme, no fim.

ROGEL SAMUEL

 

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Frases da semana (homenageando o aniversário do Rio de Janeiro)

 "O Rio de Janeiro continua lindo!" - Gilberto Gil

"Rio de Janeiro não é apenas Maracanã e Ipanema. É também Caxias, Japeri e Saquarema..." - Leila Míccolis

 

Falecimento de Mário de Andrade (1945, São Paulo/SP)     poesia prosa

Falecimento de Caio Fernando Abreu (1996, POA/RS), Belvedere

 

Poesia

Temática saudade: Mara Senna