quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

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Há 35 anos, Brasil perdia a cantora Elis Regina



Elis Regina


No dia 19 de janeiro de 1982, apagava-se a luz de uma das maiores estrelas da música brasileira: Elis Regina.
Nascida em o Porto Alegre, em 17 de março de 1945, a primogênita do casal Romeu Costa e Ercy Carvalho Costa desde pequena mostrava seus dotes artísticos.
Aos sete anos iria se apresentar no programa do “Clube do Guri”, da Rádio Farroupilha, mas na hora recusou cantar. Sua estreia como cantora seria no mesmo espaço, mas somente em 1956.
Depois disso, Elis trabalhou no programa, fez aulas de piano e, em 1960, gravou seu primeiro registro fonográfico com as músicas “Dá Sorte” e “Sonhando”, pela Continental.
Foi na mesma gravadora que no ano seguinte a intérprete lançou seu primeiro disco de estúdio, “Viva a Brotolândia”. Com o LP, Elis foi alçada em uma grande festa ao posto de “Rainha do Disco”.
Nos anos seguintes vieram outros discos, como “Poema” (1962) e “O Bem do Amor” (1963), prêmios, apresentações e uma mudança para o Rio, onde trabalhou na TV, no programa “Noites de Gala” ao lado de nomes como Jorge Benjor e Wilson Simonal.
Sua projeção nacional ganhou maior força quando venceu o 1º Festival Nacional de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, com “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Morais. No mesmo ano, foi eleita Melhor Cantora de 1964 no prêmio Roquete Pinto, na TV Record, emissora onde tinha um programa semanal com o parceiro Jair Rodrigues.
Dali em diante vieram espetáculos nacionais e internacionais, outras grandes parcerias, como a com Tom Jobim e Baden Powell, e dezenas de álbuns lançados. A brasileira foi chamada de “nova Ella Fitzgerald” pela crítica europeia.
A cantora, com sua bela voz e grande presença de palco -sem esquecer do rodopiar de braços desengonçados-, passou por diversos estilos musicais, como a MPB, a bossa nova e o Samba, fazendo sucesso no Brasil e no mundo. Elis vendeu mais de 4 milhões de discos em seus 18 anos de carreira.
Apelidada de Pimentinha, por ter o gênio forte e ser muito competitiva, Elis sofreu também com a repressão da ditadura no país. Em uma crítica ao governo militar, chegou a dizer que o Brasil era “governado por gorilas”.
Por ter sido muito popular, acredita-se que isso a tenha afastado da prisão. Por outro lado, em um momento, foi obrigada por autoridades a cantar o hino nacional em um evento de militares.
A apresentação fez com que o cartunista Henfil, notório opositor do regime militar, publicasse uma charge no jornal O Pasquim “enterrando” a cantora, a qual chamou de Elis “Regente”.
Anos mais tarde, em 1979, lançaria a música “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc. A canção pedia “a volta do irmão do Henfil”, o sociólogo e ativista Hebert José de Sousa, o Betinho, na época exilado no México. O cartunista disse que quando ouviu a letra, percebeu que “a anistia ia sair”.
VIDA PESSOAL
Aos 22 anos de idade, a cantora se casou e viveu no Rio com o compositor e produtor musical Ronaldo Bôscoli, 16 anos mais velho do que ela. Com ele teve seu primeiro filho, João Marcelo.
Em 1972, após idas e vindas de um conturbado relacionamento, o casal se divorciou. Dois anos depois, uniu-se ao músico César Camargo Mariano, com quem mudou-se para São Paulo. Tiveram dois filhos, Pedro Mariano e Maria Rita. O casamento durou nove anos.
Elis Regina morreu em 19 de janeiro de 1982, após uma overdose de cocaína, potencializada pela mistura com bebidas alcoólicas.
POR ALBERTO NOGUEIRA - Colaborou EDGAR LOPES
http://acervofolha.blogfolha.uol.com.br/2017/01/19/ha-35-anos-brasil-perdia-a-cantora-elis-regina/

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

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81 anos de morte de Rudyard Kipling

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Mogli e seu criador Rudyard Kipling

Foi um dos escritores mais populares da Inglaterra, em prosa e poema, no final do século XIX e início do XX. O autor Henry James referiu: "Kipling me impressiona pessoalmente como o mais completo homem de gênio (o que difere de inteligência refinada) que eu jamais conheci.".
Foi laureado com o Nobel de Literatura de 1907, tornando-se o primeiro autor de língua inglesa a receber esse prêmio e, até hoje, o mais jovem a recebê-lo. Entre outras distinções, foi sondado em diversas ocasiões para receber a Láurea de Poeta Britânico e um título de Cavaleiro, as quais rejeitou. Ainda assim, Kipling tornou-se conhecido (nas palavras de George Orwell) como um "profeta do imperialismo britânico”. Muitos viam preconceito e militarismo em suas obras, e a controvérsia sobre esses temas em sua obra perdurou por muito tempo ainda no século XX. De acordo com o crítico Douglas Kerr: "Ele ainda é um autor que pode inspirar discordâncias apaixonadas e seu lugar na história da literatura e da cultura ainda está longe de ser definido. Mas à medida que a era dos impérios europeus retrocede, ele é reconhecido como um intérprete incomparável, ainda que controverso, de como o império era vivido. Isso, e um reconhecimento crescente de seus extraordinários talentos narrativos, faz dele uma força a ser respeitada". Seu poema "If" (Se) é símbolo dos Cadetes da Academia da Força Aérea.


Uma de suas obras o "Livro da Selva" foi adotado por Robert Baden-Powell, fundador do Escotismo como fundo de cena para as atividades com jovens de 7 à 11 anos, denominando os jovens dessa faixa etária como lobinhos.

Mogli (Mowgli no original) é uma personagem do conto O Livro da Selva de Rudyard Kipling. Mogli é uma criança selvagem que teria sido criado e alimentado por uma alcatéia de lobos. A história de Mogli é muito utilizada como referência às leis da sobrevivência no seio do Escotismo.

Leia mais em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rudyard_Kipling

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

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Cartas Literárias em Blocos - Stela Fonseca


Salvador, 22 de agosto de 1999

Amado, 
  

Caiu-me às mãos uma das "Cartas à Amiga Veneziana" de Rilke, aquela que você enviou-me, lembra-se? Com ela, uma agradável lembrança de você. Decidi, então, abrir o envelope onde guardo as cartas e poemas que trocamos. Muita coisa bonita, muita coisa boa, muito de nós dois. As cartas estão em ordem cronológica, sei que você está sorrindo, não compreende esta necessidade de organização -. Nelas estamos inteiros né, amado? Sempre dissemos o que nos ia na alma como naquela carta onde você registrou um momento especial da sua vida  "...sonhos que atravessados em minha garganta me roubam a voz, extraem de mim todos os silêncios e mostram a nitidez do nada, a estupidez de querer dizer algo quando nenhuma palavra pode expressar a sua plenitude. Mesmo assim eu escrevo esse monolito. Rainer Maria Rilke me observa do sofá. Bach sussurra sua toccata and fugue in D minor, no órgão de Otto Winter. Bach que fazia poesia com a música apenas e não com as palavras....".... Não cabem dentro de mim os alambrados, as espingardas...só sesmarias, pradarias, planícies que se perdem no horizonte sem divisões, como um todo e suas partes. Como a flor de lótus e a lama. Como a serpente e a flauta...". Sim, visitei, também as cartas que lhe enviei e nelas o registro dos momentos que dividi com você. Escolhi transcrever uma das que me parece importante lermos juntos neste momento. 
  
"Querido. Desde que li o seu poema que tento dizer alguma coisa, fazer-lhe um carinho, responder. Não estou conseguindo e então, pus-me a pensar porquê. Ele me emociona muito e fico numa atitude de reverência, creio que é porque ele retrata um momento tão seu, tão íntimo, tão especial que, mesmo sendo eu o motivo dessa explosão de vida e poesia, mesmo sendo eu a despertar-lhe todas essas sensações, fico sem  saber se devo tecer algum comentário, ou apenas prostar-me encantada. Sabe amado, você é uma pessoa  muito especial e eu fico muito feliz de poder compartilhar com você desse momento onde somos pássaros em vôo livre, voando além do sonho, misturando-nos  aos sons, cores e luzes desse espaço que a nossa vontade criou e para aonde podemos ir todas as vezes que quisermos juntos viver o sonho da parceria e do amor que se faz simples, que se faz sem perguntas, que não cobra respostas, que não tem medos, que não traz passado, que não pensa futuro, que se ilumina em prazer, sexualidade e sensualidade. O amor que simplesmente é”. 
  
Que nós, amado, possamos nos entregar à vida, à emoção, à explosão de ternura, ao carinho, ao dizer eu quero, eu preciso!. Os nossos momentos ficarão impressos em nossas vidas e quando eles forem apenas lembrança, que sejam as mais belas. Que este amor transforme os nossos medos e que nos deixe tão completos que não mais precisemos questionar a existência, apenas vivê-la na sua bela e grandiosa simplicidade. 
  
Estou guardando tudo que você enviou para mim, tudo que enviei para você, é muita poesia, a poesia que tornaremos a viver juntos, mesmo que seja ( e eu acho que será ) apenas para lembrar-nos entre sorrisos de cumplicidade e deleite, como foi significativo tudo isso que agora nos toma, que nos faz em felicidade e prazer. 
  
É isso meu amado, a esse sentimento estou receptiva e entregando-me sem questionar nada. Quero apenas vivê-lo intensamente, extrair dele toda a beleza, todo ensinamento, todo prazer, toda a alegria e toda a vida que nele estiver contida. Como nada nos acontece por acaso, estou certa que esse encontro servirá, entre outras coisas, para que eu conheça mais de mim mesma. 
  
Amado, na verdade o que quero lhe dizer é que tenho consciência de o que estamos vivendo agora é instantâneo e dele ficará impresso em nós dois, um instante imobilizado como numa fotografia, mas que conterá vida e história, e tudo que quero é que seja linda esta história, para que, um dia, ao olharmos a fotografia possamos descobrir que aquele momento ainda existe, naquilo que dele foi desdobramento." 
  
Que bela fotografia, amado! Estamos sorrindo. Tenho a impressão que sua boca toca o meu rosto, seus braços enlaçam-me num abraço. Não houve malefícios. Conforme combinamos, no próximo mês vamos lembrar de tudo isso entre risos e carinhos, aqueles que só são trocados entre amigos que se amam. 
  
Beijos e minha imensa ternura.

Stela  Fonseca



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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

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Poema de Pablo Neruda



O Mar

Um ser único, nem sangue.
Uma só caricia, morte ou rosa.
Vem o mar e junta as nossas vidas
e sozinho investe e reparte-se e canta
na noite no dia no homem na criatura.
A essência; fogo e frio; movimento.
                                              Pablo Neruda


Fonte: http://kafekultura.blogspot.com.br/2012/05/o-mar-de-pablo-neruda.html

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domingo, 15 de janeiro de 2017

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Morre aos 111 anos o linguista e dissidente que revolucionou o mandarim

Imagem de arquivo do ativista chinês Zhou Youguang em Pequim, China (Foto: Wang Zhao/AFP)


Zhou Youguang, pai da escrita latinizada do chinês agora universal, foi um feroz crítico do regime comunista.


O linguista e dissidente Zhou Youguang, pai do "pinyin" - a escrita latinizada do chinês agora universal - e feroz crítico do regime comunista, morreu aos 111 anos em Pequim, informou neste domingo a imprensa estatal chinesa.
Zhou morreu em sua casa no sábado, um dia depois de comemorar o seu 111º aniversário. "Ele sobreviveu a várias eras e iluminou as pessoas comuns", afirmava neste domingo o jornal Diário do Povo.
Ele é conhecido como o principal criador de um sistema de transcrição dos caracteres do mandarim chinês para alfabeto latino introduzido na década de 1950 na República Popular e que se impôs no mundo inteiro.
O "pinyin" desempenhou um papel crucial na difusão do mandarim e na redução do analfabetismo na China, e foi essencial para integrar a escrita chinesa às interfaces da informática.
Enviados para viver no campo durante a Revolução Cultural, Zhou Youguang se tornou após sua aposentadoria em um feroz crítico do regime comunista chinês.
"Francamente, não tenho nada de bom a dizer sobre Mao Tse-tung", reconheceu em entrevista à AFP em 2015, quando tinha 109 anos de idade, enquanto lamentava as décadas "perdidas" pelo país.
Zhou publicou uma dúzia de livros que foram submetidos a cortes significativos da censura chinesa.
Defendia com especial virulência a ideia de que as reformas econômicas introduzidas por Deng Xiaoping na década de 1980 eram inúteis sem mudança política.

http://g1.globo.com/mundo/noticia/morre-aos-111-anos-o-linguista-e-dissidente-chines-que-revolucionou-o-mandarim.ghtml

Morre o criador de 'O Exorcista'


William Peter Blatty morreu em decorrência de um tipo de câncer no sangue, aos 89 anos. Ele escreveu o livro que deu origem ao filme 'O Exorcista', pelo qual ganhou um Oscar de melhor roteiro adaptado em 1974.

William Peter Blatty, autor de "O exorcista", morreu aos 89 anos nesta quinta-feira (12), informou sua mulher, Julie, à agência de notícias Associated Press. Segundo ela, o escritor sofria de mieloma múltiplo, um tipo de câncer no sangue, e estava internado em um hospital em Bethesda, Maryland (EUA).
O diretor do filme, William Friedkin, também anunciou a morte do amigo. "William Peter Blatty, querido amigo e irmão que criou 'O exorcista' se foi ontem", escreveu Friedkin em seu perfil no Twitter.
O escritor nasceu no dia 7 de de janeiro de 1928, em Nova York, nos EUA. Ele ficou conhecido por ter escrito o livro "O Exorcista" e também escreveu o roteiro do filme lançado em 1973, que o deu o Oscar de roteiro adaptado.
Blatty ganhou ainda dois Globos de Ouro de melhor roteiro, com "O exorcista" e com "A Nona Configuração" (1980), que ele também dirigiu. Foi diretor também de "O exorcista III" (1990).

http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/william-peter-blatty-autor-de-o-exorcista-morre-aos-89-anos-diz-diretor.ghtml

sábado, 14 de janeiro de 2017

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O Horla - Guy de Maupassant (*)

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8 de maio. Que dia lindo! Passei a manhã toda deitado na relva, na frente de casa, sob o enorme plátano que a encobre toda. Gosto desta região, de viver aqui, pois aqui estão velhas recordações, aquelas raízes profundas e delicadas que prendem o homem ao solo onde seus antepassados nasceram e morreram, que o ligam às idéias e costumes do lugar e também, à comida às expressões locais, ao cheiro da terra do próprio ambiente. Adoro a casa onde cresci. Das janelas, vejo o Sena, correndo ao lado do jardim, no outro lado da estrada, quase atravessando minhas terras, o grandioso e extenso Sena, que vai a Rouen e a Havre, apinhado de barcos que passam para lá e para cá. Lá embaixo, à esquerda, está a grande cidade de Rouen, com seus telhados azuis e pontiagudas torres góticas. Estas últimas são incontáveis, largas ou estreitas, dominadas pela espiral da catedral e cheias de sinos que tocam no ar azul de belas manhãs, enviando até minha casa seu doce e distante tinido, canção de metal que a brisa impele em minha direção, ora forte, ora débil, conforme a intensidade do vento. Como a manhã estava agradável! Lá pelas onze horas, uma longa fila de barcos, puxados por um rebocador do tamanho de uma mosca, que mal conseguia resfolegar enquanto soltava espessa fumaça, passou em frente a meu portão. Depois de duas escunas inglesas, com a bandeira vermelha ondulando ao vento, passou um magnífico barco brasileiro de três mastros, todo branco, muito limpo e lustroso. Saudei-o, sem saber bem por quê, a não ser que a visão do navio deu-me grande prazer.

12 de maio. Tenho estado um pouco febril nos últimos dias e sinto-me doente, ou antes, desalentado. De onde vêm essas misteriosas influências que transformam a alegria em desânimo e a autoconfiança em acanhamento? Poder-se-ia quase dizer que o ar, o ar invisível, está cheio de forças incompreensíveis, cuja presença misteriosa temos de suportar. Acordo com a melhor disposição, sentindo vontade de cantar. Por quê? Desço até a beira da água e, de repente, depois de andar um pouco, volto para casa infeliz, como se uma desgraça estivesse esperando por mim. Por quê? Seria um calafrio que me passou pela pele e abalou meus nervos, deixando-me desanimado? Seria a forma das nuvens, a cor do céu ou dos objetos ao redor de mim tão inconstante, que perturbou meus pensamentos, quando passaram diante de meus olhos? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem querer, tudo o que manejamos sem sentir, tudo o que encontramos sem ver claramente, tem rápida, surpreendente e inexplicável influência sobre nós e nossos sentidos e, através destes, em nossas idéias e até em nosso coração. Como esse mistério do Invisível é profundo! Não podemos compreendê-lo com nossos sentidos miseráveis, olhos incapazes de perceber o que for muito grande ou muito pequeno, esteja muito perto ou muito longe: nem os habitantes de uma estrela, nem os de uma gota de água. Nem com ouvidos que nos enganam, pois transmitem-nos as vibrações do ar em notas sonoras. São fadas que realizam o milagre de mudar essas vibrações em sons e, por meio dessa metamorfose, fazem surgir a música que transforma o silencioso movimento da natureza... nem com o sentido do olfato, menos aguçado que o de um cão... nem com o sentido do paladar, que mal percebe a idade do vinho! Como seria bom se tivéssemos outros órgãos que realizassem outros milagres a nosso favor! Quantas coisas novas poderíamos descobrir a nossa volta!

16 de maio. Positivamente, estou doente! E estava tão bem no mês passado! Estou com febre, horrivelmente febril, ou melhor, em um estado de debilitação febril, que faz a alma sofrer tanto quanto o corpo. Tenho, continuamente, a horrível sensação de perigo iminente, o receio de alguma futura desgraça ou da morte próxima. Pressentimento que é, sem dúvida, o acesso de uma doença ainda desconhecida, que germina na carne e no sangue. 

17 de maio. Acabo de consultar o médico, pois não conseguia mais dormir. Ele disse que o pulso estava rápido, os olhos, dilatados, os nervos, à flor da pele, mas que não encontrou sintomas alarmantes. Devo tomar algumas duchas e brometo de potássio. 

25 de maio. Nenhuma mudança! Meu estado é realmente estranho. Quando a noite se aproxima, sou invadido por uma incompreensível sensação de intranquilidade, como se a noite escondesse alguma catástrofe ameaçadora. Janto às pressas e então procuro ler, mas não compreendo as palavras e mal distingo as letras. Caminho de um lado para outro da sala, acabrunhado por uma sensação confusa de medo irresistível, medo do sono e medo da cama.Lá pelas dez horas subo ao quarto. Assim que entro dou duas voltas à chave e ponho a tranca na porta. Tenho medo... de quê? Até a pouco, não tinha medo de nada... Abro os armários e olho embaixo da cama. Escuto... o quê? Não é estranho que uma simples sensação de mal-estar, a má circulação, talvez a irritação de um filamento nervoso, uma ligeira congestão, um pequeno distúrbio no imperfeito e delicado funcionamento de nosso mecanismo vivo, possa transformar o mais despreocupado dos homens em melancólico e em covarde o mais valente? Vou para a cama e espero o sono como um homem que espera o carrasco. Com medo, espero sua chegada, o coração bate e as pernas tremem e todo o corpo tem calafrios debaixo do calor das cobertas, até que adormeço de repente, como alguém que mergulhasse em uma poça de água estagnada a fim de afogar-se. Não o sinto vir como antigamente, este traiçoeiro sono que está perto de mim, vigiando-me e que vai agarrar-me pela cabeça, fechar meus olhos e aniquilar-me. Durmo... bastante tempo... talvez duas ou três horas... Então um sonho... não... um pesadelo apossa-se de mim. Sinto que estou na cama, dormindo... Sinto e sei disso... e sinto também que alguém se aproxima, olha-me, toca-me, sobe em minha cama, ajoelha-se sobre meu peito, toma meu pescoço entre as mãos e o aperta... aperta com toda a força a fim de estrangular-me. Luto, dominado por aquela terrível sensação de impotência que nos paralisa durante os sonhos. Tento gritar... mas não consigo. Quero mover-me... não consigo. Faço os mais violentos esforços, respiro fundo, para tentar virar-me e derrubar essa criatura que está me esmagando, me sufocando... não consigo! E, então, acordo de repente, tremendo e banhado em suor. Acendo uma vela e descubro que estou sozinho. Depois dessa crise, que acontece todas as noites, finalmente caio no sono e durmo em paz até de manhã. 

2 de junho. Meu estado de saúde piorou. O que está acontecendo comigo? O brometo não está adiantando de nada e as duchas não produzem resultado. As vezes, a fim de ficar bem cansado, embora já esteja bastante fatigado, vou dar um passeio na floresta de Roumare. Costumava pensar que o ar fresco, leve e suave, impregnado do cheiro de ervas e folhas, instilaria sangue novo em minhas veias e daria nova energia a meu coração. Enveredava por uma larga estrada de caça e então seguia na direção de La Bouille, por uma estreita trilha entre duas fileiras de árvores de uma altura descomunal, que formavam um espesso teto de um verde quase negro entre o céu e eu. Um repentino arrepio percorreu-me a espinha, não de frio, mas um estranho arrepio de agonia. Apressei o passo, apreensivo por estar sozinho na floresta, estupidamente amedrontado sem razão, por causa da completa solidão. De repente pareceu-me estar sendo seguido, que havia alguém nos meus calcanhares, perto, bem perto de mim, próximo o bastante para tocar-me. Voltei-me precipitadamente, mas estava só. Nada vi atrás de mim, exceto a larga trilha reta, vazia, cercada de altas árvores, horrivelmente vazia; à minha frente também se estendia a perder de vista, parecendo sempre a mesma, terrível. Fechei os olhos. Por quê? Comecei a rodar como pião, bem depressa. Quase caí e abri os olhos: as árvores dançavam ao meu redor e a terra girava. Fui obrigado a sentar-me. E, então, que idéia estranha! Não sabia de mais nada. Saí para a direita e voltei à avenida que me conduzira ao centro da floresta. Passei uma noite horrível. Vou partir por algumas semanas, pois sem dúvida uma viagem me fará bem.

2 de julho. Voltei, completamente curado e ainda fiz ótima viagem. Fui ao Mont-Saint-Michel, que ainda não conhecia.Que vista, quando se chega a Avranches como eu, quase no fim do dia! A cidade está sobre uma colina e fui conduzido ao jardim público, nos limites da cidade. Dei um grito de assombro! Uma enorme baía estendia-se diante de mim, até onde os olhos alcançavam, entre duas colinas que a neblina impedia de serem vistas. No meio dessa imensa baía, sob um claro céu dourado, erguia-se uma estranha colina, sombria e pontiaguda, no meio da areia. O sol acabara de se pôr e, no horizonte ainda flamejante, aparecia o contorno do fantástico rochedo com um fantástico monumento em seu cume.Quando raiou o dia, fui para lá. Como na noite anterior, a maré estava baixa e vi diante de mim a admirável abadia, cada vez mais próxima. Depois de andar algumas horas, alcancei a enorme massa de rochas sobre a qual se localiza a cidadezinha, dominada pela grande igreja. Depois de subir a rua íngreme e estreita, entrei no mais admirável edifício gótico já construído para Deus na terra, grande como uma cidade, cheio de salas de teto baixo que parecem enterradas sob abóbadas e de grandiosas galerias sustidas por delicadas colunas. Entrei nessa gigantesca jóia de granito, leve como renda, coberta de torres, com esguios campanários de escadas em caracol, que erguem as estranhas cabeças eriçadas de quimeras, de demônios, de animais fantásticos, com flores monstruosas, para o céu azul durante o dia e negro à noite, e são ligados por arcos finamente entalhados. Quando cheguei ao ponto mais alto da abadia, disse ao monge que me acompanhava: Padre, como devem ser felizes aqui! Ao que respondeu: - Venta muito, monsieur ! Começamos a conversar, enquanto assistíamos à subida da maré, que corria pela areia, e parecia cobri-la com uma couraça de aço. O monge contou-me histórias, todas as velhas histórias do lugar, lendas, nada mais que lendas.Uma delas impressionou-me bastante. Os camponeses, aqueles que fazem parte do lugar, dizem que à noite podem-se ouvir vozes nas areias e depois duas cabras balindo, uma com voz forte, a outra com voz fraca. As pessoas incrédulas afirmam que é apenas o grito das aves do mar, que às vezes parecem balidos e, outras, lamentos humanos. Todavia, pescadores que se atrasaram para voltar juram ter encontrado um velho pastor vagando, entre uma maré e outra, pelas areias ao redor da cidadezinha. Traz a cabeça totalmente coberta por um manto e é seguido por um bode com cara de homem e uma cabra com cara de mulher, ambos com longos cabelos brancos, falando sem parar e discutindo em uma língua desconhecida. Calam-se de repente e começam a balir a plenos pulmões. - Acredita nisso? - perguntei ao monge. - Não sei ao certo - retrucou. Continuei: - Se existem outras criaturas na terra além de nós, como ainda não as conhecemos e por que vocês ainda não as viram? Como é que eu ainda não as vi? Respondeu: - Será que vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe aqui, aí está o vento, a maior força que existe na natureza, que derruba homens e edifícios, destrói penhascos e joga grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que assobia, que suspira, que....... já o viu? Pode vê-lo? Apesar disso, no entanto, ele existe! Calei-me diante desse raciocínio tão simples. Aquele homem era um filósofo ou, talvez, um tolo. Não saberia dizer qual, exatamente, por isso fiquei quieto. O que dissera, eu já havia pensado muitas vezes.

3 de julho. Dormi mal. Certamente há alguma influência febril aqui, pois meu cocheiro está sofrendo exatamente como eu. Ontem, quando voltei para casa, notei que estava muito pálido e lhe perguntei: - O que tem, Jean? - Não consigo repousar, e as noites devoram meus dias. Desde que partiu, monsieur, parece que estou enfeitiçado. Entretanto, os outros criados estão todos bem. Estou com muito medo de ter outro ataque.


4 de julho. Estou de novo doente, pois meu antigo pesadelo voltou. A noite passada, senti alguém se inclinando sobre mim e sugando minha vida por entre meus lábios. Sim, estava sugando-a de minha garganta, como uma sanguessuga. Depois, levantou-se, saciado, e acordei, tão cansado, esmagado e fraco que não conseguia mover-me. Se isso continuar por mais alguns dias, viajarei novamente.

5 de julho. Será que estou louco? O que aconteceu a noite passada é tão estranho que perco a cabeça só de pensar! Trancara a porta, como faço todas as noites, e, tendo sede, bebi meio copo de água, notando, por acaso, que a garrafa de água estava cheia até o gargalo. Fui para a cama e passei por um de meus sonhos terríveis, do qual acordei cerca de duas horas depois, com um choque ainda maior. Imagine um homem adormecido sendo assassinado e que acorda com uma faca no pulmão e cuja respiração está arquejante, coberto de sangue, que não consegue mais respirar, está quase morrendo e não compreende... aí está. Tendo recuperado os sentidos, senti sede novamente, por isso acendi uma vela e fui até a mesa onde estava a garrafa de água. Ergui-a e virei-a sobre o copo, mas nada saiu. Estava vazia! Completamente vazia! A princípio não consegui entender absolutamente nada. Mas, de repente, tive uma sensação tão horrível que precisei sentar-me, ou melhor, caí numa cadeira! Saltei da cadeira e olhei à volta, sentei-me de novo, tomado de espanto e medo, em frente à garrafa de cristal. Encarava-a, tentando adivinhar, e minhas mãos tremiam. Alguém bebera a água, mas quem? Eu? Eu, sem dúvida. Só poderia ter sido eu. Nesse caso era sonâmbulo. Vivia, sem saber, a misteriosa vida dupla que nos faz pensar que talvez existam duas criaturas dentro de nós ou que um ser estranho, incompreensível e invisível, anima nosso corpo cativo que o obedece como a nós e mais do que a nós, quando nossa alma está entorpecida. Quem entenderá minha terrível agonia? Quem entenderá a emoção de um homem, são de espírito, completamente acordado, cheio de bom senso, que procura através do cristal de uma jarra um pouco de água que desapareceu enquanto dormia? Fiquei nessa posição, até o dia surgir, sem me arriscar a voltar para a cama. 

6 de julho. Estou ficando louco. Mais uma vez todo o conteúdo da jarra de água foi tomado durante a noite... ou melhor, eu o bebi! Mas será que sou eu? Sou eu? Quem poderia ser? Quem? Oh, meu Deus! Estou ficando louco? Quem me salvará? 

10 de julho. Acabo de passar por surpreendentes experiências. Decididamente, estou louco! Todavia... A 6 de julho, antes de ir para a cama, coloquei vinho, leite, água, pão e morangos sobre a mesa. Alguém bebeu, eu bebi, toda a água e um pouquinho do leite, mas o vinho, o pão e os morangos não foram tocados. Em 7 de julho, repeti a mesma experiência, com os mesmos resultados, e em 8 de julho não deixei água nem leite, e nada foi tocado. Por fim, 9 de julho, deixei sobre a mesa apenas água e leite, tomando o cuidado de envolver os frascos em musselina branca e de amarrar as tampas. Esfreguei os lábios, a barba e as mãos com grafita e me deitei. Um sono irresistível se apossou de mim, seguido de um terrível despertar. Não me movera, não havia marcas de grafita nos lençóis. Corri até a mesa. A musselina ao redor dos frascos estava intacta. Desamarrei as tampas, tremendo de medo. Toda a água fora bebida, assim como o leite! Meu Deus! Preciso partir imediatamente para Paris.

Paris, 12 de julho. Devo ter perdido a cabeça nos últimos dias. Devo ser joguete de minha imaginação exacerbada, a menos que seja realmente sonâmbulo ou que tenha estado sob o poder daquelas influências até agora sem explicação, chamadas sugestões. Em todo caso, meu estado mental chegava às raias da loucura, e vinte e quatro horas em Paris bastaram para restaurar meu equilíbrio. Ontem, depois de resolver alguns negócios e fazer algumas visitas que instilaram em minha alma ar novo e revigorante, terminei a noite no Théâtre-Français. Estava sendo apresentada uma peça de Alexandre Dumas, filho, e sua imaginação ativa e poderosa completou minha cura. É certo que a solidão é perigosa para as mentes ativas. Precisamos de homens que saibam pensar e conversar. Quando ficamos sozinhos por muito tempo, povoamos o espaço com fantasmas.Pelos bulevares, voltei ao hotel muito bem-humorado. No meio dos empurrões da multidão, pensava, não sem uma ponta de ironia, em meus terrores e conjeturas da semana anterior, porque acreditara (sim, acreditara) que uma criatura invisível vivia debaixo de meu teto. Como nosso cérebro é fraco, como se assusta à toa e é induzido a erro por um pequeno fato incompreensível!Em vez de dizer apenas: "Não entendo porque não conheço a causa", imaginamos imediatamente mistérios terríveis e forças sobrenaturais. 

14 de julho. Festa da República. Passeei pelas ruas, entusiasmado com os fogos e as bandeiras, como uma criança. Ainda assim, é tolice ficar alegre em data marcada, obedecendo a um decreto do governo. O populacho é um imbecil rebanho de carneiros, de uma paciência estúpida ou com uma revolta feroz.Digam-lhe: "Divirtam-se", e o povo se diverte. Digam-lhe: "Vão lutar com o vizinho", e o povo vai e luta. Digam-lhe: "Votem pelo imperador", e o povo vota pelo imperador. Então digam-lhe: "Votem pela República". e o povo vota pela República. Os que dirigem o povo também são estúpidos, só que, ao invés de obedecer aos homens, obedecem aos princípios que só podem ser estúpidos, estéreis e falsos, pela simples razão de serem princípios, isto é, idéias consideradas como certas e imutáveis, neste mundo, onde não se tem certeza de nada, já que a luz é uma ilusão, já que o barulho é uma ilusão. 

16 de julho. Ontem vi uma coisa que me deixou muito preocupado. Jantava em casa de minha prima, Mme. Sable, cujo marido é coronel no 76° Batalhão de Caçadores, em Limoges. Estavam lá duas jovens, uma delas casada com um médico, Dr. Parent, especialista em doenças nervosas e que dá muita atenção às notáveis manifestações causadas pela influência do hipnotismo e da sugestão. Contou-nos com alguns detalhes os maravilhosos resultados obtidos por cientistas ingleses e médicos da escola de Nancy, e os fatos que expôs pareceram-me tão estranhos que me declarei completamente incrédulo. - Estamos prestes a descobrir um dos mais importantes segredos da natureza, isto é, um dos mais importantes segredos nesta terra, pois certamente existem outros, de outra espécie de importância, lá em cima, nas estrelas - disse ele. - Desde que o homem começou a pensar, desde que conseguiu expressar e anotar os pensamentos, tem-se sentido próximo a um mistério inacessível a seus sentidos incompletos e imperfeitos. Procura, então, suprir a ineficiência dos sentidos por meio do intelecto. Enquanto o intelecto manteve-se em um estágio rudimentar, as aparições dos espíritos invisíveis assumiam formas comuns, embora assustadoras. Daí surgiu a crença popular no sobrenatural, as lendas das almas penadas, fadas, gnomos, fantasmas, posso mesmo dizer, a lenda de Deus, pois nossa concepção do artífice-criador, seja qual for a religião que no-la transmitiu, é certamente a mais vulgar, estúpida e inacreditável invenção que já saiu do cérebro amedrontado dos seres humanos. Nada é mais verdadeiro do que o dito de Voltaire: "Deus criou o homem à Sua imagem, mas o homem pagou-lhe na mesma moeda". Entretanto - continuou o Dr. Parent -, há cerca de um século, os homens parecem pressentir algo novo. Mesmer e outros conduziram-nos a uma trilha inesperada e, principalmente nos últimos dois ou três anos, conseguimos resultados realmente surpreendentes.Minha prima, também muito incrédula, sorriu, e o Dr. Parent disse-lhe: - Gostaria que eu tentasse fazê-la dormir, madame? - Sim, certamente. Ela sentou-se em uma poltrona, e ele começou a olhá-la fixamente, como se quisesse encantá-la. Comecei a sentir-me pouco à vontade, com o coração batendo e uma sensação sufocante na garganta. Vi os olhos de Mme. Sable tornarem-se pesados, a boca crispar-se e o peito arfar. Em dez minutos estava dormindo. - Fique atrás dela - disse-me o médico. Sentei-me atrás dela. Pôs um cartão de visitas entre as mãos dela e lhe disse: - Isto é um espelho. O que vê nele? Ela respondeu: - Vejo meu primo. - O que ele está fazendo? - Torcendo o bigode.- E agora? - Está tirando uma fotografia do bolso. - Fotografia de quem? - Dele mesmo. Era verdade. A fotografia fora-me entregue no hotel aquela noite. - Como é a foto? - Ele está em pé, com o chapéu na mão. Enxergava, pois, naquele cartão, naquele pedaço de papelão branco, como se olhasse através de um espelho. As jovens ficaram assustadas e exclamaram: - Chega! Já chega! Mas o médico ordenou a Mme. Sable: - Levante-se amanhã às oito horas, vá visitar seu primo no hotel e peça-lhe cinco mil francos emprestados que seu marido está precisando e que exigirá da senhora quando partir para a próxima viagem. Depois disso, o médico acordou-a. Na volta ao hotel, fui meditando sobre essa curiosa sessão. Enchia-me de dúvidas, não quanto à absoluta e sincera boa-fé de minha prima, pois a conhecia como a uma irmã desde criança, mas quanto a um possível truque da parte do médico. Não teria, talvez, um espelho escondido na mão, mostrando à jovem adormecida, ao mesmo tempo que mostrou o cartão? Os mágicos fazem coisas desse tipo.Cheguei ao hotel e fui para a cama. Esta manhã, mais ou menos às oito e meia, o criado de quarto acordou-me e disse-me:Mme. Sable pede para vê-lo imediatamente, monsieur. - Vesti-me às pressas e fui recebê-la.Sentou-se um tanto preocupada, de olhos baixos e, sem erguer o véu do chapéu, disse-me: -Caro primo, vim pedir-lhe um grande favor. - Que favor, minha prima? - Não quero pedir-lhe, mas tenho de fazê-lo. Preciso urgentemente de cinco mil francos. - O quê? Você? - Sim, eu, ou melhor, meu marido pediu-me para consegui-los. Fiquei tão atônito que gaguejava as respostas. Perguntava-me se ela não estaria zombando de mim, juntamente com o Dr. Parent, se tudo não seria apenas uma bem ensaiada farsa. Olhando-a atentamente, entretanto, todas as minhas dúvidas desapareceram. Estava trêmula de desgosto, pois essa atitude lhe era penosa, e percebi que a garganta lhe travava os soluços. Sabia que era muito rica, por isso continuei: - Como? Seu marido não tem cinco mil francos à disposição? Vamos, pense. Tem certeza de que ele a encarregou de consegui-los? Hesitou alguns segundos, como se fizesse grande esforço de memória e respondeu: - Sim... sim, tenho certeza. - Ele lhe escreveu? Hesitou novamente e refletiu. Percebi a tortura de seus pensamentos. Não sabia. Sabia apenas que tinha de conseguir comigo cinco mil francos emprestados para seu marido. Assim, mentiu: - Sim, escreveu-me. - Rogo-lhe que me diga quando ele o fez. Não falou sobre isso ontem. - Recebi a carta hoje pela manhã. - Pode mostrá-la para mim? - Não... não... continha assuntos íntimos... coisas muito pessoais... Queimei-a. - Então seu marido está endividado? Hesitou mais uma vez e murmurou: - Não sei. Disse-lhe sem cerimônia: - No momento não posso dispor de cinco mil francos, cara prima.Deu um grito, como se estivesse sentindo alguma dor e disse: - Oh, suplico-lhe, rogo-lhe que os consiga para mim... Parecia perturbada e juntava as mãos como a implorar-me! Sua voz mudou de tom. Chorava e gaguejava, inquieta e dominada pela ordem irresistível que recebera. - Por favor, imploro-lhe... se soubesse o que estou sofrendo... preciso do dinheiro hoje. Fiquei com pena: - Você terá daqui a pouco, juro. - Obrigada, obrigada. Agradeço-lhe muito.- Lembra-se do que aconteceu em sua casa ontem à noite? - continuei. - Sim. - Lembra-se de que o Dr. Parent fez você dormir? - Sim. - Muito bem então. Mandou que viesse procurar-me esta manhã e pedisse cinco mil francos emprestados. Neste momento, você está obedecendo a essa sugestão. Refletiu por alguns momentos e respondeu: - Mas é como se meu marido precisasse deles... Durante uma hora tentei convencê-la, sem conseguir. Quando se foi, procurei o médico. Estava de saída, ouviu-me com um sorriso e disse: - Acredita, agora? - Sim, não tenho outra saída. - Vamos à casa de sua prima. Ela já estava meio adormecida em uma espreguiçadeira, vencida pelo cansaço. O médico tomou-lhe o pulso, observou-a por algum tempo, com a mão erguida em frente aos olhos dela. Sob a irresistível influência de sua força magnética, fechou os olhos. Quando adormeceu, o médico disse: - Seu marido não precisa mais dos cinco mil francos. Deve, portanto, esquecer que os pediu emprestado a seu primo e, se ele tocar no assunto, não entenderá de que se trata. Acordou-a. Peguei a carteira e disse: - Aqui está o que me pediu esta manhã, cara prima. Ficou tão surpresa, que não me atrevi a insistir. Contudo, tentei fazê-la lembrar-se do que acontecera. Negou energicamente, achando que me divertia às suas custas e, no fim, quase perdeu a paciência. Pronto! Acabo de chegar e não consegui almoçar, pois essa experiência deixou-me completamente abalado.

19 de julho. As pessoas a quem contei essa aventura riram-se de mim. Não sei mais o que pensar. Diz o sábio: "Pode ser!" 

21 de julho. Jantei em Bougival e passei a noite em um baile de barqueiros. Decididamente, tudo depende do local e do ambiente. Seria muita tolice acreditar no sobrenatural quando se está na Île de la Grenouilliére... mas, e no Mont-Saint-Michel?... e na Índia? Somos terrivelmente influenciados pelo que nos rodeia. Na semana que vem, voltarei para casa.30 de julho. Voltei ontem para casa. Tudo vai bem. 

2 de agosto. Nada de novo. O tempo está esplêndido e passo os dias a olhar o Sena. 

4 de agosto. Desavenças entre os criados. Alegam que à noite os copos são quebrados nos armários. O criado acusa o cozinheiro, que acusa a costureira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado? Só alguém muito esperto poderia dizer. 

6 de agosto. Desta vez não estou louco. Eu vi... eu vi... não posso mais duvidar... eu o vi! As duas horas, em pleno sol, passeava entre as roseiras... entre as rosas de outono que começam a cair. Quando parei para olhar um géant de bataille, com três rosas esplêndidas, vi perfeitamente a haste de uma das rosas perto de mim inclinar-se, como se uma mão invisível a forçasse a quebrar-se, como se estivesse sendo colhida! Então, a flor ergueu-se, seguindo a curva que a mão teria feito ao levá-la até a boca e permaneceu suspensa no ar, sozinha e imóvel, terrível mancha vermelha, quase diante de meus olhos. Em desespero, corri para agarrá-la. Nada achei, ela desaparecera! Fiquei com muita raiva de mim mesmo, pois um homem sério e razoável não deveria ter tais alucinações. Mas seria uma alucinação? Voltei-me para olhar a haste e encontrei-a imediatamente, na roseira, quebrada de pouco, entre duas rosas que continuavam no galho. Voltei para casa, bastante perturbado, pois estou certo agora, como certo estou da alternância entre o dia e a noite, de que existe perto de mim uma criatura invisível, que vive a leite e água, pode tocar objetos, pegá-los e mudá-los de lugar, sendo, portanto, dotado de natureza material, embora seja imperceptível a nossos sentidos. Vive como eu, debaixo de meu teto... 

7 de agosto. Dormi tranqüilamente. Ele bebeu a água da garrafa, mas não perturbou meu sono. Pergunto a mim mesmo se não estarei louco. Agora mesmo, passeando ao sol à beira do rio, tive dúvidas quanto a minha sanidade. Não dúvidas vagas como as que tive ultimamente, mas dúvidas absolutas e precisas. Já vi gente louca e conheci alguns loucos que são inteligentes, lúcidos, até mesmo perspicazes em tudo, exceto em um ponto. Falavam pronta, clara e profundamente sobre todos os assuntos, até que, de repente, a mente ia de encontro aos escolhos de sua loucura, partia-se ali e se dispersava e debatia naquele mar furioso e terrível, cheio de ondas agitadas, de neblina e pés-de-vento, que se chama Loucura. Com certeza eu deveria pensar que estava louco, completamente louco, se não estivesse consciente, não conhecesse perfeitamente meu estado, não o analisasse com a mais completa lucidez. De fato, devo ser apenas um homem racional, sofrendo uma alucinação. Deve ter surgido em minha mente algum distúrbio desconhecido, um dentre aqueles que os fisiólogos modernos tentam observar e confirmar. Esse distúrbio deve ter causado profunda brecha na minha mente e na seqüência lógica das idéias. Fenômenos semelhantes acontecem nos sonhos que nos levam a imaginar coisas irreais, sem nos causar surpresa, porque o aparelho de verificação, nosso órgão de controle está adormecido, enquanto a faculdade da imaginação está acordada e ativa. Não é possível que uma das imperceptíveis unidades do teclado cerebral tenha ficado paralisada em mim? Alguns homens perdem a lembrança de nomes próprios, de verbos ou números, os simplesmente de datas, como conseqüência de algum acidente. A localização de todas as variações de pensamento já está estabelecida atualmente. Por que, então, seria surpreendente se minha faculdade de controlar a irrealidade de algumas alucinações estivesse temporariamente adormecida? Pensava em tudo isso, enquanto andava pela beira da água. O sol brilhava intensamente sobre o rio e tornava a terra agradável, enchendo-me de amor pela vida, pelas andorinhas cuja agilidade sempre encanta meus olhos, pelas plantas à beira do rio, de cujas folhas o farfalhar é um prazer aos ouvidos. Aos poucos, entretanto, uma indefinível sensação de mal-estar se apossava de mim. Parecia que uma força desconhecida estava me entorpecendo e detendo, impedindo-me de seguir adiante e chamando-me de volta. Senti aquele penoso desejo de voltar que nos oprime quando deixamos um doente querido em casa e somos tomados por um pressentimento de que piorou. Assim, voltei contra a minha vontade, certo de que encontraria alguma má noticia à espera, talvez uma carta ou telegrama. Não havia nada, e fiquei mais surpreso e inquieto do que se tivesse tido outra visão fantástica. 

8 de agosto. Ontem, passei uma noite horrível. Não se mostra mais, porém, sinto-o perto de mim vigiando-me, olhando-me, penetrando-me, dominando-me, e mais temível quando se oculta dessa forma do que se manifestasse sua presença constante e invisível através de fenômenos sobrenaturais. Entretanto, consegui dormir..

10 de agosto. Nada, mas estou com medo. O que acontecerá amanhã? 

11 de agosto. Nada ainda. Não consigo ficar em casa com este medo pairando sobre mim e estes pensamentos na cabeça. Vou embora. 

12 de agosto. Dez horas da noite. O dia todo tentei partir e não consegui. Gostaria de realizar este simples e fácil ato de liberdade - sair -, entrar em meu carro e partir para Rouen... e não consigo. Por que razão? 

13 de agosto. Quando somos atacados por certas doenças, todas as molas de nosso corpo parecem estar quebradas, todas as nossas energias, destruídas, todos os nossos músculos, relaxados. Nossos ossos amolecem como carne, e o sangue vira água. Estou tendo essas sensações em minha existência moral de modo estranho e angustioso. Não tenho mais força, coragem, autocontrole, nem mesmo o poder de exercer minha vontade. Não tenho mais vontade de nada, mas alguém a tem por mim e eu lhe obedeço. 

14 de agosto. Estou perdido. Alguém possui minha alma e a domina. Alguém ordena todos os meus atos, todos os meus movimentos, todos os meus pensamentos. Não sou mais nada, exceto espectador escravizado e amedrontado de tudo o que faço. Quero sair, não posso. Ele não quer, e assim permaneço, trêmulo e perplexo, na poltrona onde ele me mantém sentado. Desejo apenas levantar-me e me animar, mas não posso! Estou preso à cadeira, e esta adere ao chão de tal maneira que não existe força capaz de mover-nos. De repente, sinto que devo, preciso ir ao fundo do quintal colher morangos e comê-los, e lá vou eu. Colho os morangos e como-os! Meu Deus! Meus Deus! Deus existe? Se existe, libertai-me! Salvai-me! Socorrei-me! Perdão! Piedade! Misericórdia! Salvai-me! Quanto sofrimento! Que tormento! Que horror! 

15 de agosto. Então era desse modo que minha pobre prima se encontrava, e era controlada, quando veio pedir-me os cinco mil francos emprestados. Estava sob o poder de uma estranha vontade que entrara dentro dela, como outra alma, como outra alma parasita e dominadora. Será que o mundo está para acabar? Mas quem é ele, este ser invisível que me governa? Este ser irreconhecível, este pirata de raça sobrenatural? Existem, então, seres invisíveis! Por que não se manifestaram desde o começo do mundo, precisamente como fazem comigo? Nunca li nada parecido com o que acontece em minha casa. Oh, se pudesse deixá-la, se pudesse ir embora, fugir e nunca mais voltar! Estaria salvo, mas não posso.

16 de agosto. Hoje consegui escapar por duas horas, como um prisioneiro que, por acaso, encontra a porta da masmorra aberta. De repente, senti que estava livre e que ele estava muito longe; assim, dei ordens para atrelar os cavalos o mais depressa possível e partir para Rouen. Como é agradável conseguir dizer a um homem que nos obedece: - Vá... a Rouen! Mandei parar em frente à biblioteca e pedi que me emprestassem o tratado do Dr. Hermann Herestauss sobre os habitantes desconhecidos do mundo antigo e moderno. Ao voltar para o coche, pretendia dizer: "Para a estação!", em vez disso gritei... não disse, gritei, tão alto que os passantes voltaram-se: - Para casa! - e caí para trás, na almofada do carro, tomado de angústia. Ele voltara a me encontrar e retomara a posse de mim. 

17 de agosto. Ah, que noite! Que noite! E contudo parece-me que devia alegrar-me. Li até a uma da manhã! Herestauss, doutor em Filosofia e Teogonia, escreveu a história da manifestação todos esses seres invisíveis que pairam em volta dos homens ou com quem os homens sonham. Descreve sua origem, domínio, poder, mas nenhum se assemelha ao que me assedia. Pode-se dizer que, desde que começou a pensar, o homem pressente um novo ser, mais forte, seu sucessor neste novo mundo e que, sentindo sua presença e não conseguindo prever a natureza desse mestre, criou toda uma raça de seres ocultos, de vagos fantasmas, nascidos do medo.Depois de ler até a uma da manhã, sentei-me à janela aberta, a fim de refrescar a fronte e os pensamentos, no ar calmo da noite agradável e quente. Como teria apreciado semelhante noite em outros tempos! Não havia lua, mas as estrelas lançavam sua luz no céu escuro. Quem habita esses mundos? Que formas, que seres vivos, que animais existem lá em cima? O que sabem os pensadores naqueles mundos distantes que não sabemos? O que podem fazer, e nós não? O que vêem que não conhecemos? Será que um deles, algum dia, atravessando o espaço, aparecerá na Terra para conquistá-la, exatamente como os escandinavos cruzaram o mar a fim de conquistar nações mais fracas do que eles? Somos tão fracos, tão indefesos, tão ignorantes, tão pequenos, nós que vivemos nesta partícula de lama que gira em uma gota de água! Adormeci assim, sonhando no fresco ar da noite, e depois de dormir cerca de três quartos de hora abri os olhos sem me mexer, acordado por não sei que confusa e estranha sensação. A princípio não vi nada, mas de repente tive a impressão de que uma página do livro que ficara aberto sobre a mesa virou-se sozinha. Nenhuma aragem passara pela janela, por isso, surpreso, esperei. Depois de uns quatro minutos, eu vi, eu vi, sim, vi com meus próprios olhos, outra página levantar-se e cair sobre as outras, como se um dedo a tivesse virado. A poltrona estava vazia, parecia vazia, mas sabia que ele estava lá. Sentado em meu lugar e lendo. Com um pulo, o pulo furioso de um animal selvagem enraivecido, que salta sobre o domador, atravessei a sala para agarrá-lo, estrangulá-lo, matá-lo! Porém, antes que pudesse alcançá-la, a cadeira virou-se como se alguém tivesse fugido de mim... a mesa balançou, a lâmpada caiu e se apagou e a janela fechou-se, como se um ladrão tivesse sido surpreendido e fugido noite afora, fechando-a atrás de si. Então ele fugira. Tivera medo, medo de mim! Mas... mas... amanhã... ou mais tarde... algum dia... conseguirei agarrá-lo e esmagá-lo contra o chão! Às vezes os cães não mordem e estraçalham o dono? 

18 de agosto. Estive pensando o dia todo. Sim, vou obedecer-lhe, seguir seus impulsos, realizar seus desejos, mostrar-me humilde, submisso, covarde. Ele é o mais forte, mas há de chegar a hora... 

19 de agosto. Eu sei... eu sei... eu sei tudo! Acabei de ler o seguinte, na Revue du Monde Scientifique: "Curiosa noticia chega-nos do Rio de Janeiro. Loucura, uma epidemia de loucura, comparável à loucura contagiosa que atacou a população da Europa, na Idade Média, está, neste momento, grassando na província de São Paulo. Os habitantes, aterrorizados, abandonam suas casas, dizendo que estão sendo perseguidos, possuídos, dominados como gado humano por seres invisíveis, mas tangíveis, uma espécie de vampiro, que se alimenta da vida deles enquanto estão dormindo, e que, além disso, bebe água e leite, sem aparentemente tocar nenhum outro alimento. "O professor Pedro Henrique, acompanhado por vários médicos, foi à província de São Paulo, a fim de estudar a origem e as manifestações dessa surpreendente loucura, no local, e propor ao imperador as medidas que lhe pareçam mais cabíveis para fazer com que a população recupere a razão." Ah! ah! lembro-me agora daquele belo navio brasileiro de três mastros que passou em frente às minhas janelas, subindo o Sena no dia 8 de maio passado! Achei que parecia tão formoso, tão branco e brilhante! Aquele Ente estava a bordo, vindo de lá, onde sua raça se originou. E me viu! Viu minha casa, também branca, e saltou do navio para terra. Oh, céu misericordioso! Agora sei, posso adivinhar. O reino do homem acabou, e ele chegou. Ele, que era temido pelo homem primitivo, ele, que padres preocupados exorcizavam, que feiticeiras evocavam em noites escuras, sem tê-lo visto aparecer, a quem a imaginação dos senhores provisórios do mundo emprestavam todas as monstruosas ou graciosas formas de gnomos, espíritos, gênios, fadas e almas familiares. Depois dos conceitos imprecisos baseados no medo primitivo, homens mais sensíveis anteviram-no mais claramente. Mesmer o pressentiu, e, há dez anos, médicos descobriram, com precisão, a natureza de sua força, antes mesmo que ele a exercesse. Divertiram-se com essa nova arma do Senhor, o domínio de uma vontade misteriosa sobre a alma humana que se tornara escrava. Chamaram-no de magnetismo, hipnotismo, sugestão... sei lá! Vejo-os divertindo-se, como crianças imprudentes, com essa força terrível! Ai de nós! Ai dos homens! Ele chegou, o... o... como se chama... o... Imagino que está gritando seu nome e não consigo ouvi-lo... o... sim... está gritando... estou ouvindo... Não consigo... Ele o repete... o... Horla... ou,... o Horla... ele chegou! Ah! O abutre devorou a pomba, o lobo devorou o cordeiro, o leão devorou o búfalo de chifres pontiagudos. O homem matou o leão com a flecha, com a espada, com a pólvora. Mas o Horla fará do homem o que fizemos do cavalo e do boi: objeto, escravo e alimento, só porque é sua vontade. Ai de nós! Contudo, às vezes, o animal revolta-se e mata o homem que o subjugou. Eu também gostaria de... serei capaz de... mas preciso conhecê-lo, tocá-lo, vê-lo! Os cientistas afirmam que os olhos dos animais, sendo diferentes dos nossos, não distinguem os objetos da mesma forma que nós. E meus olhos não conseguem distinguir esse recém-chegado que me oprime.Por quê? Agora me lembro das palavras do monge do Mont-Saint-Michel: "Será que vemos a centésima milionésima parte do que existe? Veja, lá está o vento, a maior força da natureza, que derruba homens e edifícios, desenraiza árvores, faz o mar erguer-se como montanhas de água, destrói penhascos e joga grandes navios contra as ondas. O vento que mata, que assobia, que suspira, que ruge... já o viu? Consegue vê-lo? Contudo, ele existe". E continuei a pensar: "Meus olhos são tão fracos, tão imperfeitos, que nem mesmo distinguem corpos sólidos, se estes forem transparentes como o vidro! Se não houver um papel prateado atrás de um vidro em meu caminho, colidirei com ele, da mesma forma que um pássaro, voando para dentro de uma sala, bate a cabeça contra a vidraça". Existem mil coisas que enganam o homem e o induzem ao erro. Por que haveria de ser surpreendente o fato de não conseguir perceber um corpo desconhecido que a luz consegue atravessar? Um novo ser! Por que não? Com certeza estava destinado a vir! Por que deveríamos ser os últimos? Não o distinguimos mais do que todos os outros criados antes de nós! Isso acontece porque sua natureza é mais perfeita, tem o corpo mais apurado e mais bem acabado que o nosso, tão fraco, de construção tão desajeitada, atravancado de órgãos que estão sempre cansados, sempre tenso como um mecanismo muito complicado, que vive como planta e como animal, nutrindo-se com dificuldade de ar, ervas e carne, máquina animal vitima de doenças, má-formação, decadência; arquejante, mal-regulado, simples e extravagante, originalmente malfeito, obra ao mesmo tempo grosseira e delicada, esboço irregular de uma criatura que poderia tornar-se inteligente e grandiosa. Somos apenas alguns, tão poucos neste mundo, da ostra ao homem. Por que não poderia haver mais um, uma vez passada a época que separa as sucessivas aparições de todas as espécies diferentes? Por que não mais um? Por que não, também, outras árvores com flores imensas e esplêndidas, perfumando regiões inteiras? Por que não outros elementos além do fogo, ar, terra e água? Existem quatro, só quatro, amas-secas de seres diferentes! Que pena! Por que não existem quarenta, quatrocentos, quatro mil? Como tudo é pobre, mesquinho e miserável! Produzido de má vontade, construído irregularmente, inabilmente feito! Ah, o elefante e o hipopótamo, que graça! E o camelo, que elegância! Mas a borboleta, dirão, uma flor voadora? Sonho com uma tão grande como cem universos, com asas cuja forma, beleza, e movimentos não consigo nem mesmo exprimir. Porém a vejo... esvoaça de uma estrela a outra, refrescando-as e perfumando-as com a aragem leve e harmoniosa de seu vôo! E as pessoas lá em cima olham-na quando passa em um êxtase de prazer! O que está acontecendo comigo? É ele, o Horla, que me persegue e que me faz pensar essas tolices! Está dentro de mim, está se transformando em minha alma. Pretendo matá-lo! 

19 de agosto. Vou matá-lo. Eu o vi! Ontem, sentei-me à mesa e fingi escrever com bastante atenção. Sabia muito bem que viria rondar-me, bem perto de mim, tão perto que, talvez, conseguisse, tocá-lo, agarrá-lo. E então... então eu conseguiria a força do desespero. Teria as mãos, os joelhos, o peito, a fronte, os dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, mordê-lo, fazê-lo em pedaços. E o aguardava com todos os sentidos alerta. Acendera as duas lâmpadas e as oito velas de cera sobre a lareira, como se com toda essa luz pudesse descobri-lo. À minha frente, estava a cama, a velha cama de colunas de carvalho; à direita, a lareira; à esquerda, a porta, fechada cuidadosamente, depois que a deixei aberta algum tempo, a fim de atraí-lo; atrás de mim, estava o guarda-roupa, muito alto, com o espelho diante do qual fazia a barba e me vestia todos os dias e no qual costumava ver-me de relance, da cabeça aos pés, toda vez que passava diante dele. Fingia estar escrevendo a fim de enganá-lo, pois ele também me vigiava e, de repente, senti... tinha certeza de que estava lendo por cima de meu ombro, que estava lá, roçando minha orelha.Levantei-me com as mãos estendidas e virei-me tão depressa que quase caí. Quê! Bem? Estava claro como se fosse o meio-dia, mas não conseguia ver meu reflexo no espelho! Estava vazio, claro, profundo, cheio de luz! Só que minha imagem não estava refletida nele... E eu, eu estava na frente do espelho! Examinei o grande e claro espelho, de cima a baixo, olhei-o com olhos vacilantes. Não ousei aproximar-me, não me arrisquei a fazer um movimento sequer, sentindo que ele estava ali, mas que novamente me escapara, ele cujo corpo imperceptível absorvera meu reflexo. Como eu estava amedrontado! E então, subitamente, comecei a ver-me através de uma névoa no fundo do espelho, uma névoa que parecia um lençol de água. Parecia-me que a água escorria mais clara a todo momento. Era como o fim de um eclipse. O que quer que ocultasse minha imagem não parecia possuir contornos definidos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando aos poucos. Afinal, consegui distinguir meu reflexo completamente, como acontece todos os dias quando me olho no espelho. Eu o vira! O horror dessa visão ficou comigo e, mesmo agora, faz-me tremer.

20 de agosto. Como poderia matá-lo, se não consegui agarrá-lo? Veneno? Mas ele me veria misturá-lo à água, e então teria nosso veneno algum efeito em seu corpo impalpável? Não... não há dúvida sobre isso... Então... então... 

21 de agosto. Chamei um ferreiro de Rouen e encomendei venezianas de ferro para meu quarto, iguais às que alguns hotéis de Paris têm no andar térreo, para impedir a entrada de ladrões, e ele também vai fazer-me uma porta de ferro. Estou parecendo covarde, mas não me importo! 

10 de setembro. Rouen, Hotel Continental. Está feito... está feito... mas será que está morto? O que vi deixou-me a mente completamente abalada. Bem, ontem, depois que o serralheiro colocou as venezianas e a porta de ferro, deixei tudo aberto até a meia-noite, embora estivesse esfriando. De repente, senti que ele estava lá, e uma alegria, uma louca alegria apossou-se de mim. Levantei-me silenciosamente e andei algum tempo de um lado para outro, para que ele não suspeitasse de nada. Tirei as botas e calcei os chinelos despreocupadamente, fechei as venezianas de ferro, fui até a porta, tranquei-a rapidamente com um cadeado e guardei a chave no bolso. Percebi de súbito que ele se movia nervosamente a minha volta, que, por sua vez, estava amedrontado e ordenava-me que o deixasse sair. Quase lhe obedeci. Em vez disso, entretanto, com as costas contra a porta, abri-a apenas o suficiente para poder sair de costas e, como sou muito alto toquei a esquadria com a cabeça. Estava certo de que ele não tinha conseguido escapar e deixei-o fechado sozinho, completamente sozinho. Que felicidade! Conseguira prendê-lo. Então corri para baixo, para a sala de visitas que ficava embaixo do meu quarto. Peguei os dois lampiões e despejei todo o querosene no tapete, na mobília, em toda parte. Toquei fogo e fugi, depois de trancar cuidadosamente a porta. Escondi-me no fundo do quintal, em uma moita de louros. Como parecia demorar! Tudo estava escuro, silencioso, imóvel, sem a mais leve brisa, sem uma estrela, somente camadas de nuvens, que não se podia ver, mas que pesavam, oh, como pesavam, em minha alma. Fiquei esperando, olhando para a casa. Como demorava! Começava a pensar que o fogo se apagara sozinho, ou que ele o extinguira, quando uma das janelas do andar térreo cedeu sob a violência das chamas e uma longa, suave, acariciante e rubra língua de fogo subiu pela parede branca e envolveu-a até o telhado. O clarão atingiu as árvores, os galhos e as folhas, e um arrepio de medo também os invadiu! Os pássaros acordaram, um cachorro começou a uivar, e pareceu-me que o dia estava nascendo! Quase imediatamente, duas outras janelas se arrebentaram e vi que toda a parte de baixo da casa era apenas uma fornalha incandescente. Um grito, horrível, estridente, de partir o coração, um grito de mulher, soou dentro da noite, e duas janelas do sótão se abriram! Esquecera-me dos criados! Vi os rostos apavorados e os braços agitando-se freneticamente. Tomado de pavor, comecei a correr para a cidade, gritando: - Socorro! Socorro! Fogo! Fogo! Encontrei algumas pessoas que já vinham correndo e voltei com elas. Nessas alturas, a casa não era mais que uma horrível e imponente pira funerária, monstruosa pira funerária que iluminava tudo, pira funerária onde homens ardiam, e ele também estava sendo queimado. Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla! De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto. Morto? Talvez?... Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos? E se ele não estivesse morto?... Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura? Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência! Não... não... sem dúvida... não está morto... Então... então... acho que terei de me matar!...


Guy de Maupassant (*)

(*) O autor é considerado "o pai do conto fantástico"

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

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Soneto de Antônio Diniz da Costa e Silva



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    Soneto

    Da bela mãe perdido Amor errava
    Pelos campos que corta o Tejo brando,
    E a todos quantos via suspirando
    Sem descanso por ela procurava.

    Os farpões lhe caíam da áurea aljava; 
    Mas ele de arco e setas não curando,
    Mil glórias prometia, soluçando,
    A quem à deusa o leve, que buscava.

    Quando Jónia que ali seu gado pasce, 
    Enxugando-lhe as lágrimas que chora,
    A Vénus lhe mostrar, se of'rece:

    Mas Amor  dando um voo à linda face 
    Beijando-a lhe tornou: "Gentil pastora,
    Quem os teus olhos vê, Vénus esquece".
                                                                 

    Antonio Diniz da Costa e Silva 
    Enviado por: Belvedere


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

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Ivana Mihanovich entrevistada por Leila Míccolis


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Acho que Ivana Mihanovich pertence à nova geração de tarólogas; já vai longe o tempo em que as lâminas do tarô eram usadas apenas para fins divinatórios. A autora fala da vida, e de uma vida mais luminosa para todos nós em seu livro: Tarot Luminar - Refletindo sob as luzes dos Arcanos Maiores. Um livro de muita reflexão. Leila Míccolis
LM - Ivana Mihanovich. Com esse sobrenome estrangeiro, a primeira pergunta só pode ser: você brasileira?
Ivana - Sou filha de pais argentinos, nascida em São Paulo, capital. Minha primeira língua foi o espanhol, então sou meio brasileira, meio portenha. É por isso, inclusive, que o livro se chama Tarot Luminar e não Tarô Luminar, que seria a grafia correta em português. Em espanhol se diz "tarot" e eu até consegui engolir a grafia correta nos textos, mas no título não deu; preferi manter em espanhol.
LM - Quando e por quê surgiu o tarô em sua vida?
Ivana - Minha mãe tinha uma coleção de baralhos, alguns tarôs incluídos. Aos onze anos, por brincadeira, olhei todos, mas comecei a usar as cartas do baralho comum mesmo, como oráculo. Tirava a sorte pras minhas amigas, aquela coisa de querer saber se o fulano gosta de você, se vai te pedir em namoro...rs. Anos mais tarde, em 1989, resolvi aprender astrologia, onde eu trabalhava como secretária, na escola Girassol, do Maurice Jacoel. Lá havia também o curso de tarô do Valderson de Souza e eu me interessei meio no embalo, sem nem saber bem de que se tratava. Aí me encantei, não pela ideia de ver o futuro, mas sim de ver a mim mesma mais profundamente. No fundo, o tarô, pra mim, entrou feito o Louco: de repente, ao sabor do que chamamos de acaso e de um jeito bem lúdico... rs.
LM - Por quê você resolveu fazer este livro?  Afinal, Tarot Luminar não é um manual de tarot apenas, é bem mais do que isso. Você pode me falar sobre esta diferença?
Ivana - Aprendi com o Valderson de Souza que há ciclos na vida, que se alternam entre aprendizado, compartilhamento, ensino, aprendizado de novo etc. Quando percebi que estudava o tarô há mais de vinte anos, pensei que talvez fosse hora de partilhar o que aprendi. Além disso, vi que a maioria das pessoas que me procuravam só queriam a abordagem divinatória e essa não é, realmente, a minha linha, porque eu não vejo a menor vantagem (ou graça) em pensar que o que vai acontecer está, assim, fechado e lacrado nas estrelas... rs. Então resolvi escrever de que forma entendo o uso do tarô na vida, porque penso que desenvolver ferramentas para enxergar a si mesmo com mais clareza e para se entender com o que nos move subliminarmente, é bem mais importante e inteligente do que depositar na mão de um vidente a esperança de que algo bom esteja predeterminado. Eu não discuto se é possível prever o futuro, porque esse debate teria que incluir Einstein e a Quarta Dimensão, a Física Quântica e por aí vai, e eu não me aprofundei mais nessa pesquisa sobre a possibilidade do futuro poder ser previsto, porque isso não me é especialmente interessante.
O que eu acho é que há sempre o tremendo risco de que, ao ouvir uma previsão, o cliente fique predisposto a isso, ou seja induzido a isso. No caso de ouvir "Você vai se casar com um escocês" ou coisa do gênero, não há grande problema, talvez. Mas caso a pessoa ouça "Você vai abortar todos os filhos que engendrar", bem, jamais saberemos a verdade por trás do que vier a ocorrer. Quando eu tinha dezesseis anos, uma quiromante me disse que eu seria viúva aos trinta e dois anos. Juro que só esqueci daquilo ao completar trinta e três...rs. E mesmo que eu tivesse enviuvado nessa idade, de que isso teria me servido? Portanto, diria que eu revejo o presente, em vez de prever o futuro... rs.
O que eu, sim, realmente sei, é que é possível construir um caminho pessoal mais pacífico, mais realizador e mesmo mais feliz, desde que a gente conheça melhor nossa luz e nossa sombra, aprenda a fazer acordos com uma e com outra e também a ter mais coragem para ser quem e o que efetivamente somos. Escrevi o livro para tentar demonstrar como o tarô serve para devolver o que chamo de autonomia ideológica e também de guia lúdico para viajar para dentro de mim mesma e, então, espero que ele sirva como sugestão a quem o lê para fazer o mesmo.
LM - E a diferença não está só no modo com que você nos apresenta seu tarô, mas também na maneira de divulgá-lo. Tarot Luminar é comercializado pela Ag book. Para você, quais as vantagens proporcionadas por esse circuito via web?

Ivana - A primeira vantagem que vejo é o fato de poder mudar algo a qualquer momento e isso passar a valer instantaneamente, assim que eu faço o upload novamente. Fiz esse livro totalmente sozinha: texto, foto da capa, fotos internas, índice, diagramação etc. Não tive revisor e estou muito longe de escrever gramaticalmente de forma impecável. Portanto, evidente que ele tem erros diversos que eu, por mais que tenha me concentrado, não dei conta de cobrir completamente. Então, essa facilidade de mudança ou correção é interessante. Além disso, a internet faz parte da vida, hoje. A agilidade da compra on line favorece grande parte das pessoas que não tem tempo de bater perna atrás do que deseja. Comprar pela internet e receber a versão impressa em casa é uma mão na roda, eu acho. E também há pessoas que realmente gostam da versão ebook, embora eu não seja uma delas..rs.
LM  - Você pode narrar algum fato interessante ou marcante nas suas leituras de tarô?
Ivana - Olha, é complicado, porque qualquer coisa que eu conte o cliente vai se identificar e acaba sendo antiético, mesmo sem dar nome aos bois. O que eu posso comentar é que, muitas vezes, a pessoa escuta o que eu digo, diz que não é nada disso, aí resolve me contar a vida, como quem quer me mostrar onde errei, e só então começa a perceber que está me contando exatamente tudo o que eu acabei de falar... rs. Pior é quando a pessoa pergunta algo do tipo: Devo casar ou comprar uma bicicleta? E o tarô responde: "O que é casar, pra você?", ou, "O que é uma bicicleta, pra você?"...rs. As pessoas querem um oráculo prêt-à-porter e o tarô é um sábio, um xamã, um guru. Ele nos ensina a pensar, não a procurar respostas prontas.
LM - Há cartas mais pesadas no tarô: a morte ou a torre. Como interpretá-las?
Ivana - Difícil ser concisa, em especial falando sobre esses dois arcanos, mas vamos ver:
O arcano XIII, chamado de "A Morte", é a carta da transformação e da aceitação da dor e dos finais. Ela pode aparecer como momento de mudança, de necessidade de cortar o que já não serve mais, ou pode aparecer para falar de que é hora de aceitar o fim. Não só da vida, mas de tudo: de um trabalho, de um amor, de uma amizade, de uma fase etc.
O fato intransponível é que tudo o que é terreno tem fim. A priori, o ser essencial é eterno, como a arte é eterna porque é fruto do espírito, por exemplo, mas o que é material é finito "e fim de papo", como eu a vejo dizer. O mundo está infantilizado demais, temeroso demais, apegado demais, ao mesmo tempo em que as vidas tornam-se cada vez mais vazias de significado. A Morte do tarô estala o dedo e diz: "Hello?! Você não vai durar para sempre. Caia na real e viva; viva genuinamente".
A Torre é mais dura de encarar, acho. Eu digo que ela é dual, como O Enforcado e A Morte, porque há a Torre cujo entendimento fica muito além da nossa capacidade de compreensão, como as coisas trágicas que acontecem (aparentemente) sem razão de ser e sobre as quais ninguém que seja sério pode se dar ao luxo de pretender saber explicar, embora milhares o tentem...rs. Essa faz parte dos mistérios. Mas há outra Torre, a que fala dos raios que nos detonam de repente, num susto, e a lição mais difícil é o entendimento de quão encerrado está você, quão estreita ficou a sua mente, e, mais importante, de quanta questão você fez de não enxergar a formação da tempestade que desencadearia o raio. Porque a ideia é que um raio não cai assim, do nada. Há sinais, antes da tormenta. Há o vento e o cheiro do vento, a cor da luz, o canto de pássaros que se escondem etc. Mas se a gente fica surdo e cego; se chega a pensar que já sabe tudo o que precisava saber; se a gente grava em fogo sobre pedra nossa tábua de mandamentos, sem brecha nenhuma para reavaliação, sem espaço para a humildade de saber que ninguém sabe tudo, bem, o tal mistério abre o alçapão e o raio cai, como um lembrete, desestruturando todo esse nosso esquema certinho e fechado.
LM - Em um momento você diz que, "no Mundo o herói realmente entende que tem abelhas e moscas dentro de si, em igual proporção". Este enfoque é bem diverso da maioria dos tarólogos, que percebem o Mundo como uma carta de plena realização, em todos os sentidos. Você se baseou em algum método para construir a sua prática?
Ivana - Minhas conclusões são calcadas nas minhas reflexões e meditações sobre os arcanos. Sempre repito que o livro fala sobre o meu tarô. O único método que posso dizer que empreguei foi o de permitir que a mente viajasse tendo como pontos de partida os atributos básicos de cada Arcano Maior (com os quais a maioria dos tarólogos concorda), sem perdê-los de vista, mas ampliando a visão, como quem os vê de cima. Entender que temos abelhas e moscas é acolher com alegria o ser imperfeito que somos, é celebrá-lo, na verdade. É isso que eu vejo no arcano XXI, O Mundo. É finalmente entender que não existe o ser sem sombra, porque luz e sombra são faces da mesma coisa, são interdependentes. O ser do Mundo é o ser que não apenas aceita que tem sombras, mas rejubila-se por ser quem é e por aqui estar.
LM - Por quê Tarot Luminar?
Ivana - Porque acho que há escuridão demais no mundo, hoje. Há fumaça demais nos confundindo, há pouca visibilidade. O mundo atual tem coisas demais acontecendo por trás de véus e há muita dificuldade para enxergar a realidade por baixo dos panos. A mídia nos manipula, a tv nos programa incessantemente, a propaganda é veículo disso também. Já não se sabe mais em qual jornalista acreditar, tacha-se pejorativamente de "teoria de conspiração" qualquer documentário ou pesquisa séria que desvenda barbaridades por trás do aparente. As pessoas estão perdendo cada vez mais rapidamente a capacidade de refletir, questionar e concluir com independência, com a tal autonomia ideológica que citei antes. Meu enfoque do tarô, através do exercício lúdico de refletir sobre os conceitos dos arcanos, tem por humilde objetivo reacender a luz, ajudar a resgatar esse pensamento isento, capaz de perceber e decodificar o que recebe de informação, ao invés de apenas engolir e em seguida papagaiar as toneladas de sofismas que despejam sobre nós diariamente.
LM - Que sugestão você daria para quem joga amadoramente tarô ou quem está começando a trilhar este caminho?
Ivana - É um tremendo clichê, eu sei, mas é verdade: as respostas estão dentro de nós e transparecem em muitas coisas (simplesmente ouvindo o que está acima do discurso do ego, ou observando-nos na interação com o outro, nas escolhas que fazemos, na forma como adaptamos ou descartamos o que recebemos do clã, etc.). Porém, para a maioria de nós, hoje, está longe de ser algo fácil de fazer, porque fomos nos desligando da sensibilidade que nos permite percebê-las. Caminhos como o do tarô são como amplificadores, caixas de som ou fones de ouvido... rs. Eles não trazem as respostas prontas, mas clareiam o som da mente e nos ajudam a distinguir as genuínas das insidiosas. Por isso, minha sugestão é de que você trilhe esse caminho, que se torne íntimo do baralho, caso, intuitivamente, sinta essa atração, mas que não se prenda a ele como única verdade. Uma boa leitura de tarô, a meu ver, pede mais do que apenas os atributos dos arcanos. Abra-se ao coração do Louco e amplie as fontes desse tipo de conhecimento, xerete os diversos caminhos que refazem a conexão consigo mesmo e com a intuição. Isso é o que realmente enriquece qualquer forma ou caminho, o tarô incluído.
LM - Sendo o tarô uma linguagem universal, o quê, para você, ele ensina a todas as pessoas em todos os tempos?
Ivana - Acho que o fundamental de qualquer pesquisa que busca levar-nos a saber mais sobre quem somos, seja o tarô, a astrologia, o I Ching, a psicanálise etc., é o reconhecimento de que cada um de nós importa, particularmente; cada um de nós tem valor, é um ser único e especial, capaz de criar, produzir e realizar coisas interessantes e benéficas para si e para os outros.
Há gente demais hoje em dia falando em cuidar do meio ambiente, em evoluir espiritualmente e coisas do gênero, mas percebo que em muitos casos é só um discurso do ego, é só um blablablá, porque a mídia bombardeia essas ideias e muitos preferem apenas seguir um rebanho e não seguir um caminho. Mas evoluir demanda uma vida toda e independe de ser carnívoro, de beber álcool, de ser sexualmente casto ou de fazer caridade. Tudo isso pode fazer parte do caminho para alguns de nós, claro, mas evoluir, para mim, é, antes, saber mais profundamente quem sou e o que realmente me move; ser capaz de manobrar impulsos sombrios, de reconhecer erros e, acima de tudo, de me identificar com o outro, de lembrar que eu não sou, não sou realmente, nem melhor, nem pior que o outro. Compreender as dificuldades que todos enfrentamos e reconhecer que somos humanos, falíveis e que quem já não falha em "xis" área não é porque é melhor que quem ainda o faz, mas é apenas alguém que conseguiu enraizar um aprendizado.
Aprender não é apenas ouvir uma lição com os ouvidos do ego e então pretender que nunca mais erraremos. Aprender é quando finalmente acontece um alinhamento entre corpo, mente e espírito, e aquela lição deixa de ser uma lição e torna-se um princípio ou guia que simplesmente passamos a seguir, naturalmente. E penso que o que essas reflexões nos ensinam é a discernir as ilusões para que, adiante, seja possível fincar o pé na realidade. Realidade é um conceito muito complexo, claro, mas, aqui, coloco no sentido de jornada pessoal, ou seja: fincar o pé na própria realidade e parar de vagar aos ventos de realidades alheias.