Uma escritora retratando a força e a inteligência da mulher.

Isabel Allende e seu livro Retrato em sépia

Isabel Allende fala a Antonio Júnior de Retrato em Sépia, fechando a trilogia iniciada por A Casa dos Espíritos e A Filha da Fortuna
Isabel Allende passou três dias em Barcelona onde acertou detalhes com sua agente Carmem Barcellos - a mesma de Gabriel García Marquez, Jorge Amado e tantos outros - e a editora Plaza & Janés para o lançamento depois do verão europeu de seu novo livro, Retratos em Sépia. Acompanhada de seu marido, o advogado norte-americano Willie Gordon, Allende recebeu muitos jornalistas, sempre sorridente, talvez satisfeita com o êxito de A Filha da Fortuna, que não deixa a lista dos mais vendidos em todo o mundo desde o seu lançamento, e somente em Espanha já está na l2ª edição. É uma mulher atraente e cheia de energia. Bastante morena, conta que veio do sol da Itália, onde foi nomeada "A Mulher do Ano". A autora chilena de A Casa dos Espíritos, que a tornou popular, vive em San Francisco, Califórnia, há doze anos, e em seu novo livro faz uma viagem de regresso ao seu país de origem.
AJ - Eliza Sommers, a protagonista de sua última novela editada, A Filha da Fortuna, deixava Valparaíso, no Chile, para iniciar uma nova vida na Califórnia. Sua nova protagonista, faz o caminho inverso...
IA - Ela se chama Aurora del Valle, é a neta de Eliza Sommers e Tao Chi´en. Aos 5 anos vai viver no Chile para ser criada pela avô, Paulina del Valle. É uma segunda parte de A Filha da Fortuna, com personagens que reaparecem e outros novos, mas pode se ler como um livro independente.
AJ - Retratos em Sépia fecha uma trilogia, iniciada por A Casa dos Espíritos, a novela de 82 que revelou seu talento, e A Filha da Fortuna. Aurora é também uma mulher de caráter forte como habitualmente gosta de mostrar?
IA - Não é o ponto central. É uma mulher jovem, de olho no passado, que trata de descobrir o que passou durante os seus primeiros cinco anos de vida, motivo de freqüentes pesadelos. Terminará sabendo o que passou, porém no caminho enfrentará um péssimo casamento e renunciará a ser a "boa menina" que sua avô gostaria que fosse.
AJ - Ela é uma fotógrafa. Por quê?
IA - A partir de 1870, com a substituição da placa pela película fotográfica, os fotógrafos puderam começar a captar cenas em movimento, gerando duas tendências: quem entendia a fotografia como uma arte parecida a pintura e quem optou por sua vertente documental. Nesta evolução, muitas mulheres tiveram papel importante, sobretudo nos EUA. Era um campo de criação e trabalho novo, e diferente da pintura, não estava restrito somente aos homens. Resolvi colocar Aurora del Valle como uma dessas pioneiras da fotografia, que entende a sensibilidade do fotógrafo com a realidade.
AJ - Mesmo narrada entre 1870 e 1910, Retrato em Sépia ano deixa de aludir ao golpe de Estado de Augusto Pinochet, que teve em seu tio Salvador Alende a vítima mais emblemática. Estes anos englobavam um período muito importante da história do Chile, que incluem a guerra do Pacífico e a revolução de 1879. É um período histórico que guarda muitas semelhanças com o da ditadura.
AJ - Foi difícil o trabalho de documentação para situar a novela num contexto histórico determinado?
IA - Não. Aproveitei o trabalho de documentação que havia feito para A Filha da Fortuna, completando com a ajuda em Chile de meu padrasto, que proporcionou-me dados importantes da situação do país no final do século XIX.
AJ - Além do nascimento da fotografia no Chile, o que mais você mostra no seu relato?
IA - Tento mostrar o que passa em um país quando existe um poder com impunidade. Basta que se dê as condições para que a selvajaria da gente brote.
Antonio JúniorDe Barcelona

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