Entrevista com Flavio Gimenez, autor do livro O Relógio das Águas




Flávio deu uma entrevista para Leila Míccolis e Mônica Banderas sobre seu livro O relógio das águas.
O livro está disponibilizado no portal Blocos



LM Flavio, quando você começou a escrever contos?

FG Comecei a escrever há alguns anos. Na verdade, enquanto estudava medicina na USP, participava de concursos da revista "Escrita", na maioria das vezes com poesias( isto há uns vinte e cinco anos atrás!). Comecei a escrever contos há cerca de 4 anos, quando entrei em contato com alguns sites de escritores, no caso, Anjos de Prata e  Usina de Letras.

LM Por quê contos?

FG Acho interessante o conto. A poesia tem de ser densa, temos de condensar muito em poucas palavras. O conto permite uma extensão maior das idéias, uma troca maior com o leitor, desafiando-o a cada parágrafo. Adoro contar histórias... Não poderia deixar de escrever o que vivo ou o que passa em minha cabeça e o conto, a crônica, são instrumentos poderosos de expressão.

LM Como você concilia a sua profissão com a literatura?

FG Na verdade, eu acho espaços dentro de minha profissão para escrever os contos. Eles são o meu respiro, minha fonte de inspiração. Na verdade, os contos são alguns baseados em fatos reais, outros em sonhos, até em conversas que eu tive com pacientes. Muitos deles surgem do nada, abrem caminho quando eu sento para pensar. Muitos destes contos apareceram enquanto eu trabalhava! Sinal de que há uma convivência mais do que pacífica entre as duas atividades.

LM A Medicina de alguma forma influiu em seu universo ficcional?
FG Com certeza. Meu trabalho no Hospital Universitário da USP como professor de Semiologia Médica me faz ensinar — e aprender — que a boa história faz o bom diagnóstico. Ensinando meus alunos a entrevistar os pacientes, aprendi a ver como uma boa história pode fazer a diferença. Contos como O Espelho, 
Sexta-Feira Treze, surgiram de relações conflitantes com o tema da finitude, que permeia nossa profissão toda. O tempo todo, somos confrontados com a inquietude, o sofrimento, a Morte. Afinal, a Vida é sonho!


LM Como é o seu processo criativo?
FG Os temas me perseguem. Acho interessante a proposta do site Anjos de Prata. Eles propõem um tema, eu respondo com um conto. Sinto que a partir do momento em que sou desafiado, passo a produzir a idéia que vai se tornar um conto. Situações do dia a dia me perseguem, paixões mal resolvidas que voltam à tona...O conto "O Segredo" foi baseado em uma notícia que eu li sobre uma japonesa que vivia dentro de um armário de um solteiro que vivia sozinho e que saía de noite para se alimentar das sobras dele. Outros aparecem de chofre, como "Samira" e saem quase prontos...

LM Por quê um livro digital e pela Blocos?

FG Meu sonho de escrever um livro me persegue há anos. Desde que comecei a escrever contos a coisa se tornou mais aguda e urgente. Na verdade, fui convidado a participar do Blocos e com muito júbilo aceitei mais este desafio! Quando vi o que o portal representa em termos de audiência e de visibilidade, resolvi escrever o livro para expor mais o meu trabalho. Afinal, o site é visitado por muitos países! Foi uma questão de amadurecimento pessoal e um aprendizado inigualável...

LM Você participou do processo de edição do e-book, passo a passo. Como foi este "acompanhamento de parto"?

FG O processo todo foi de uma riqueza fantástica. Tive a sua ajuda (de Leila) para revisar, reescrever, escrever de novo, bater a cabeça na parede, olhar para o teto e dizer "caramba, ficou melhor assim" e depois participar da escolha minuciosa das imagens. Ah, quisera que todo parto fosse assim, um parto nas águas da criatividade e do aprendizado! Nasce um filho bem apessoado!

LM Como você se sente em relação ao produto final?
FG Sinto um orgulho muito grande! Ser convidado a escrever no site foi uma honra e ter um livro lançado no site me traz a certeza de que outros virão ou de que pelo menos já saberei trilhar melhor o longo caminho que faz parte do universo criativo de um escritor. Saber que grande parte deste livro saiu de mim me espanta um pouco! Como pude fazer isto? O caminho foi bem trilhado!


MB As pessoas ainda têm a idéia de que médico é uma pessoa fria e calculista e que, se escrevesse um livro, seria apenas sobre medicina, portanto um livro científico. Como você vê a ruptura desta imagem tradicional?

FG Há médicos que escrevem sobre medicina. Eu mesmo escrevi capítulos de livros de medicina, dou aulas
( que adoro preparar), mas é outro astral, é outra maneira de pensar. Drauzio Varella escreve sobre temas médicos de uma forma que nos faz ler sem ficar tanto no racional. Não. O médico não é frio e insensível; nós médicos temos de ser objetivos em nossos diagnósticos e incisivos em nossos tratamentos. No entanto, isto jamais nos deve afastar de nossa humanidade, de nossa essência maior. A ruptura desta imagem é necessária, até porque aproxima o Homem do Médico. Aliás, isto é necessário e cada vez mais: O tradicional médico intocável, em seu pedestal inatingível está caindo por terra.


MB Qual o seu conto preferido deste livro e por quê?
FG Meu conto preferido no livro é "Apaixonado", porque baseado em fatos reais. Sempre fui apaixonado pelo que fiz e pelo que faço e neste conto, eu desafio até um cachorro enorme somente para ver a minha paixão respirar. Tenho paixão pela vida, pelo sol, pela luz e pelas pessoas...Se pudesse, viveria cinquenta mil anos só para poder agradecer o que tive por mais tempo.

MB Existe influência de algum escritor em sua obra?

FG Os autores latinos sempre me infuenciaram muito. Machado de Assis é um deles, Julio Cortázar, Jorge Luiz Borges, Gabriel Garcia Marques. Creio que há um "mix" de influências em minha obra, uma espécie de condensado de idéias de outros que me inspiram.

LM O que escrever significa para você?

FG Escrever significa respirar. É parte de minha alma que exponho nos textos, são meus sonhos adensados em letras. Escrever para mim é como saber mergulhar num lago azul e tirar das profundezas o aprendizado do mergulho, as jóias que repousam no fundo da gente e que tantas vezes esquecemos. Para mim escrever é viver, porque sem respirar não vivemos. Não é verdade?

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