Gentilezas e verdades

 

 

Como um pequeno furacão, Mochi entra na sala escancarando a porta. Traz aquela adorável expressão de criança com raiva que só a inocência permite.
– O que foi, meu amor? – Pergunto, enquanto a ajudo a se livrar da carga de livros quase tão pesada quanto ela...
Foi o Yu, mamãe. Foi o Yu, ele me chamou de mentirosa. E eu não sou mentirosa! Não sou!! – responde a irada Mochi.
– Mas, como assim, filhinha?O Yuki é tão educado... tenho certeza de que ele jamais diria uma coisa dessas. Vai ver foi só um mal entendido... – afago seu rosto e a coloco sobre os meus joelhos – conta essa historia direitinho, vai, tenho certeza que ele não quis dizer isso...
Mas mãe, é isso mesmo que a senhora ouviu: men-ti-ro-sa! Eu?! – afogueada e agitando as mãos, ela começa a narrar os fatos.
– Foi assim. Hoje, lá na escola, a tia pediu para a gente fazer uma redação sobre nossas férias. Daí que a redação do Yu ficou muito boa, muito boa mesmo, e eu disse isso pra ele.

“ – Nossa, Yu, parabéns!”

– E sabe o que ele disse? – com os olhos imensos e meio sem ar, dispara:

“ – Obrigado, você é muito gentil!!”
– Vê se pode mamãe, me chamar de gentil, de gentil! – Por quê, mamãe, por quê? Eu nem fiz nada para ele...

– Mas filhinha, foi só isso? – pergunto, ainda sem atinar para o motivo da zanga.
– SÓ ISSO!? Você não ouviu, mamãe? Gentil!! Ele disse que eu fui gentil!! Ahhhhhhhh!!!! (e sai rodando pela sala com as mãos para o alto).
– Meu amor!! – trago seu corpo junto ao meu – Você por acaso sabe o que é gentil?

Sei sim, mamãe!! Eu fui lá olhar no dicionário, quer ver? - com um pulo se levanta e corre para o escritório, de onde traz o dicionário. E vem recitando:

“ – Gentil. 1 caráter ou qualidade do que é polido. 2 atitude gentil; cortesia, civilidade. Gentileza. 1 conjunto de formalidades, de palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras, civilidade, cortesia. 2 o fato e a maneira de observar essas formalidades.”

– Viu só? Viu só? Ele me chamou de mentirosa!! De mentirosa!! - continua a protestar minha pequena aprendiz da verdade, enquanto gotinhas de incompreensão brotam de seus olhos...

– Você entende mamãe? Você entende? Eu não falei aquilo só para ser educada ou para respeitar as boas maneiras: falei porque era verdade!! Então, porque ele me disse aquilo?

—Eu não sou gentil! Não sou!

E assim, enquanto a pobre menina que não quer ser chamada de gentil continua a soluçar, eu a abraço – forte!! Com o sorriso terno de quem foi tocada por um anjo.

P.S. Escrevi essa pequena história há algum tempo atrás, quando percebi que eu confundia o sentido da palavra gentil – em português – com o sentido da mesma palavra em japonês. Pois em japonês gentil/gentileza significa shinsetsu – e envolve em sua construção o conceito de pais, família com um sufixo de adjetivação que indica sinceridade, amabilidade, agudez.
Assim, imaginem que quando alguém falava algo como:
Fulana foi só gentil com ela”, “que nada, ela não acha isso não, aquilo lá foi só para ser gentil” – eu na verdade entendia a frase, agora sei, de forma completamente errada.

Infelizmente, depois disso, já não consigo sorrir tanto quando alguém faz algo só por gentileza e opto por continuar a confundir em meu cotidiano ‘gentil por cortesia' com ‘shinsetsu por amor a família'.

Lina Saheki

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