Sobre poesia, lixo e inocência

 

A poesia sempre teve um olhar muito intenso sobre as injustiças sociais tão entranhadas na alma da Terra de Vera Cruz.
No dia 27 de Dezembro de 1947, Manoel Bandeira escreveu: "Vi ontem um bicho / na imundície do pátio / catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma coisa, / não examinava nem cheirava: / engolia com voracidade. / O bicho não era um cão, / não era um gato, / não era um rato. / O bicho, meu Deus, era um homem".
Este poema hoje é um clássico, não só por sua evidente força literária, mas por sua constante e trágica atualidade. O que poderia ser a descrição poética de uma cena pontual, vista pelo poeta no Rio de Janeiro, dois dias depois do Natal, há 57 anos, sempre foi, mesmo antes da existência do poema, o retrato diário de milhares de habitantes deste nosso "gigante deitado em berço esplêndido".
Nas últimas décadas, o personagem de Bandeira alargou-se, não é mais um homem, é toda a família fuçando restos de comida, de roupa, do que for útil para o momento.
As mazelas sociais do Brasil são frutos de análises, estudos, poemas, filmes, promessas, mas nunca houve realmente uma solução prática para nossa estrutura social excludente. Nem acredito que possa haver. Somos uma nação destinada ao avesso. O exemplo mais claro disso é a atividade de catadores de lixo. O que poderia ser algo ecologicamente responsável, estruturalmente organizado, torna-se mais uma válvula de escape para desempregados, mais uma atividade vestida com as malhas da informalidade.
Os catadores espalham-se pela cidade das mais diversas formas. Já há entre eles uma divisão de classes. Os mais ricos andam com algo entre o jipe e o trator, estranho, barulhento. Um veículo normalmente construído com peças velhas, enferrujadas, cuja cabine de madeira o faz parecer um carrinho de brinquedo gigante. Contrasta com o luzimento agressivo dos carros importados. Numa espécie de classe média alta, estão os que possuem carroça com cavalo. A tristeza dos cavalos é impiedosa com os sensíveis. Mais abaixo, estão aqueles que puxam o papelão com bicicleta. A pessoa e a bicicleta muito magros, puxando uma quantidade absurda de papel, plásticos, embalagens. Por fim, aqueles que não tem motor, nem cavalo, nem bicicleta.
Aqueles que tem apenas as pernas e os braços. Cada vez que vejo um destes, lembro-me dos versos finais do poema "Pequenos Coletores de Papel", de Perce Polegatto: "Eles mesmos puxam a carreta / Eles são seus próprios animais". Acompanhando os catadores de todas as classes, vão os cães e as crianças: graciosamente escudados pela inocência.

Rubens da Cunha

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