LENDA CUNHÃ-MORÉ


                

A grã bokarra do Deus-Bruxo Pã se abriu, e dela siu o que se pediu: uma nuvem de pássaros de plumas vistosas, araras e aves-do-paraíso, além de tucanos azuis e amarelos.
                 A lua minguante, como se fora cheia, dispensava lantejoulas. Partiu pro setestrelo uma igara, deixando atrás de si uma esteira de espuma.
                 Os guerreiros chegavam depois e pediam a Tupã a vitória sobre os brankos."Grande Caiman que estás no céu, queremos vencer os tabaíba". Se esses brankos morassem bem, não vinham pra nossa terra brigar, falou Chefe.
                 "Grande Caiman, adocicai nossas frechas". Vitória Cunhã-Moré, na certa.
                 A história do Brazil curvou-se diante dos fatos. Os Cunhã-Moré erçao e sam mais poderosos.
                 "Comeremos breve carna branka. De seus dentes faremos colares, de seus ossos faremos frautas", assim falou Chefe. "Haverá cauim".
                 As luzes-do-ceu-que-piscam brilhavam coloridas sobre tribo, aquela noite. Era preciso expulsar brankos que chegaram em igaras grandes pela casa da Yara. Brankos falavam língua de capiora, eram maus e fizeram suas tabas esquisitas perto do tribo. Era preciso matar, a não ser que a Yara os levasse de volta em suas igaras antes que o céu ficasse todo-escuro.
                 Tupã nos ensinava piedade, bondade e esses melados à tribo. Curumi aprendia a respeitar a natureza, não ser egoísta nem malvado e só matar bicho pra comer, senão Curupira renegava. Mas branko matava por matar, não ia ninguém chorar por eles. E pra que saíram de suas tabas pra tomar selva de tribo: Não tinham família? Brankos estavam pedindo castigo.
                 Deus-Bruxo Pã tinha uma bokarra muito misteriosa. Diziam que podia engolir a selva toda, e só der o céu de fora, se quisesse.

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                 Jamais saberemos a verdadeira história dos bravos Cunhã-More. Pouco se conhece sobre esta tribo, provavelmente exterminada ainda no século XVI. Ao que tudo indica, porém, a expedição a que se refere a lenda foi levada a cabo com êxito, não havendo sobreviventes brankos naquela ocasião.

Walter Cabral de Moura

Do livro: Livro dos Silêncios, Ed. autor, 2000, Recife/PE

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