JÁ, MARFIZA CRUEL, ME NÃO MALTRATA

    Já, Marfiza cruel, me não maltrata
    saber que usas comigo de cautelas,
    que inda te espero ver, por causa delas,
    arrependida de ter sido ingrata.

    Com o tempo, que tudo desbarata,
    teus olhos deixarão de ser estrelas;
    verás murchar no rosto as faces belas,
    e as tranças de ouro converter-se em prata.

    Pois se sabes que a tua formosura
    por força há de sofrer da idade os danos,
    por que me negas hoje esta ventura?

    Guarda para seu tempo os desenganos,
    gozemo-nos agora, enquanto dura,
    já que dura tão pouco a flor dos anos.

                                                                    Basílio da Gama

    Do livro: "Livro dos Sonetos", LP&M Editores, 1996, RS

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