O Insone

Está invadido por insônia e madrugada. Anda em substantivos abstratos demais: saudade, desesperança, um certo amor incerto, inquietude. Quer mesmo um pouco de matéria, um outro tanto de palavras tocáveis: dorso, árvore, joelhos, pássaro, pele, mãos imensuráveis desafogando-o.

Sai de casa. Inverso. Reversivo, vai às ruas quando a maioria as deserta. Perscruta a cidade na busca de algo que lhe parecesse concreto. Está tão cego quanto a noite que o cerca. Não há lua visível. Não há escolha nas proximidades. Apenas as calçadas em abandono, uns transeuntes também abandonados. Pensa um pouco na violência que se derrama nas manchetes dos jornais. Sozinho aqui, alvo fácil. Dispensa logo o medo: está na cidade das câmaras. Nada a temer. Alguém o vê agora. Se não está seguro, está sendo visto, todo vago, todo permissivo com a tristeza.

Na solidão das esquinas algumas mulheres também insones comprometem-se aos desfazeres do amor. Tempo espúrio esta noite. Sem máscara, sem sorriso. Só breu no lugar do sangue. A alma exilou-se em algum passado mais ameno, mais manhã. Troca olhares, lembra-se que da ausência de dinheiro. Nestas noites, onde o amor é troca de moedas limita-se ao olhar, ainda gratuito, ainda receptáculo de alguma inocência. Logo a voz aguda da mulher destrói o pouco de inocência: “dez real o boquete, vai querê?”. Aquilo o atemoriza, cava um túmulo abaixo de seus pés: “dez real o boquete”, é como se lhe jogassem terra sobre o vidro do caixão. Sai correndo daquele mundo. Percebe-se vivo, ou morto de outra espécie, mas não daquele mundo. Foge. É seu destino, a fuga.

Volta para casa, o sol quase bate na janela. A boca seca, travosa, bebe um pouco de água. Talvez, durma. Invertido sempre. Não encontrou seus substantivos concretos. Ainda todo abstrato: infeliz, vazio, ausente. Dorme. O sol amarela a cama e vermelha seu rosto.

RUBENS DA CUNHA

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