Educação sentimental

 

Magrittepintura de Magritte

Naquele ano de 1973, a história registrou a morte de Pequeno. Morreu sem que se soubesse bem a causa. Umas dores surgiram do nada, intensificaram-se e o levaram. Dona Rosa chorou a perda do marido, alimentando o hábito milenar. Suponho tenha sido também o hábito o que a levou à cova, a fazer companhia ao marido, meses após a morte deste. Os filhos do casal sofreram, a ponto de um deles, a Mirinha, intentar contra a própria vida, pretendendo atirar-se no buraco onde jazia sua progenitora.
– Não faça isso, Mirinha – aconselhavam-na os mais lúcidos – Tem a vida pela frente. Filhos a cuidar. Marido. Enfim, uma vida.
Cedeu às súplicas e não se matou. Atitude acertada, pois logo estava às voltas com Sinézio, seu marido, que se enrabichou por uma menina da Rua do Campo. O desejo de matar rapidamente tomou outra feição e outro rumo. Mirinha deu a andar armada de faca.
– Vou retalhar aquela vagabunda!
Mas não é este o rumo que quero dar a esta história. Triângulo amoroso em romance é motivo vulgar. Vamos à morte de Pequeno.
Pequeno morreu, é fato. Otaviano fez-lhe o caixão. Seis tábuas compradas na venda de seu João Celi, mais tecido roxo para forrar o caixão pelo lado de fora, cambraia branca para a parte interna, pregos duas e meia por dez, alças, uns emblemas prateados: crucifixos, estrelas, anjos e... Basta! Morre com luxo quem pode. As coisas estão pela hora da morte. E mais essa de certidão de óbito! A cachaça, sim, é necessária.
O enterro foi marcado para o dia seguinte, pela manhã.
Uma dúzia de alunos estaria em aula nesse turno. Como é de se supor, todos os alunos, em sinal de respeito e para prestar exéquias ao morto, deviam estar presentes no cemitério.
Mas deixe estar que um dos alunos, o Hércules, justamente nesse dia resolveu ficar em casa e dormir até mais tarde. Ou teria ele fugido de uma lição que não estudou? Quem sabe não era dia de sabatina.
Pensassem o que quisessem, o fato é que ele não compareceu nem à aula nem ao enterro.
Com a professora Beatriz dia de sabatina era qualquer dia. E a enterro todos eram obrigados a estar presentes. Será possível que todos não sabiam disso?
A falta de Hércules foi visível. Bastou a professora percorrer as carteiras com os olhos e logo percebeu o faltante. Caderneta à mão, iniciou a chamada.
Ficou registrada a falta do senhor Hércules.
Pulemos o resto do dia: a liberação dos alunos mais cedo para irem ao enterro, as lágrimas e os ais pungentes de Mirinha, que, neste ponto, queria se matar. Coisa do passado. Pulemos até os pensamentos que a professora Beatriz dedicou a seu pupilo. Ele era já um rapaz, claro, e se dava muito bem com a professora. Mas o que ela não podia mesmo era deixar de dar o exemplo. Além do mais, ele merece o castigo, se só anda com a Neirinha para cima e para baixo, metidos nos becos. Lambisgoia oferecida. Ele bem poderia dedicar seu tempo ao estudo.
Moço bonito... A professora o considera muito. Mas, como já foi dito, a falta é imperdoável. Ele que a aguardasse amanhã. Como os amanhãs no tempo literário não obedecem a calendário, eis que aquele tão esperado amanhã se tornou um presente. Dolorido para o rapaz.
Bem cedinho, como não era do costume da professora, ela chegou à escola. Mas no caminho não teve pressa. Deu bons dias simpáticos aos madrugadores. Conjecturou de si para si que Aldeia da Purificação era um atraso e que continuaria um atraso, tão pouco havia progredido a cidade.
– Cidade! Hum! – questionou o status do lugar. – Isto aqui não passa mesmo de uma aldeia, velha desde sua origem, parada no tempo colonial. Onde já se viu coisa parecida: meninos fazendo necessidades e limpando-se com folhas de mato e tocos de pau. Um atraso. Nem água encanada, nem luz elétrica. Diabo de lugar!
Zangou-se a professora, mas logo desfez o cenho contrariado e acalmou as ideias. “Mas o clima é bom. A água é natural, da fonte. Todos me consideram e
respeitam. Aqui eu sou “a professora”. O título tem peso. Uma inteligência considerável. A palavra final. A mão que educa. Estou acima. Posso olhá-los de cima. Pobres miseráveis. Ignorantes de pai e mãe, e avós maternos e paternos, e de toda a ancestralidade. Calma, Beatriz. Calma”.
– Bom dia, dona Flor. Como vai senhor Dudu? Melhorzinho do furúnculo?
– Bom dia, senhor Bernardo. Não me esqueci do corte de tecido. Ontem mesmo pedi a meu marido que fosse pegar, mas parece que ele não me ouviu. Não, não se preocupe, o José Fernandes é bom menino, só precisa estudar mais, decorar as perguntas. Ontem mesmo foi necessário dar-lhe seis bolos. Imagine o senhor que o ano finda e não conseguiu decorar o que é o rio Amazonas...
– Pode bater professora, pode bater. Aumente os bolo para doze...
Até logo, senhor Bernardo.
Vê-se que os pensamentos da professora eram e são fortes, impõem-se até mesmo sobre a mão deste pobre contador de histórias. Não era minha intenção expor esses detalhes, há pouco o disse, mas o que é um escrevinhador senão um títere na mão das personagens? Saliento que a professora Beatriz existe na carne e no osso, e na feição melancólica que lhe baixa quando se dirige a...
– Eu o proíbo de contar! Proíbo-o!
Bem se vê que a professora Beatriz não é dessas que se deixam conduzir, e...
– Conte os fatos na pele, na casca, da porta para fora de casa. Que tem o povo de saber da poeira sob o tapete?
Ora, ora, ora, que ideias são essas, senhora? Tudo bem, pulemos o que não deve ser dito. Títere, hum...
Os primeiros alunos começaram a chegar. Uns vinham correndo, brincando de triscou pegou. E chegavam suados. A professora fazia uma cara de nojo ao ver os meninos. “Mas que porcos!”. Outros vinham na leseira, conversando com árvores e lagartos. Paulo Afonso é este que acabou de chegar, veio a cavalo, pois o Bebe-Água, onde morava, é longe. Quando o pai o colocou na Escola Ruy Barbosa, o rapazinho não sabia o que era um “A”. Logo era o mais sabido. Decorava tudo direitinho, não comia uma vírgula. Bebeu o rio Amazonas desde a sua nascente, nos Andes, até onde desagua, no Atlântico. Era o orgulho da professora. Menino esforçado. Vinha montado a cavalo, fizesse sol ou chuva. Não faltava.
A professora, e logo todos do lugar, tinha-o como bom exemplo. Criou fama, pronto. Os patos e perus que seu Antônio, seu pai, presenteava a
professora, ajudavam no progresso do menino. Jajá recepcionou Paulo Afonso assim que a professora Beatriz o apresentou à turma.
– Vou quebrar sua cara lá fora!
– Senhor Wellington, vá ao quadro negro e escreva a palavra “nucleinarsenovanolformiocoestriquinolglicosfosforado” cinquenta vezes.
E lá se ia Jajá passar toda a manhã enrolando no quadro negro.
Mas a professora, no quadro que nos interessa, chegou à escola e esperou os alunos na porta, barrando a entrada, pois só poderiam entrar depois que eles lhe dessem beijinhos.
Novidade, isso. E o povo pensando que a professora Beatriz era má. Má nada! Tão carinhosa com os alunos. Imagine: beijinhos no rosto. Até Jajá, que a odiava tanto, ficou feliz com o beijo e não lavou o rosto aquele dia. Passava a mão, como se para sentir os lábios macios e úmidos da querida professora Beatriz. Fez coisas erradas pensando nela. Descobriu que quanto mais pecaminoso o ato, mais prazeroso ele fica.
Hércules surgiu na rua da escola. Nesse momento o coração da professora deu um...
– Não diga! Não diga! Eu o proíbo!
Diabo! E eu lá sei fazer história de silêncio! Desse jeito é melhor não contar nada. Bem, só nos resta irmos aos fatos, pois fatos são só fatos...
O rapaz chegou e logo se surpreendeu ao ver a professora com o braço esquerdo cruzando a porta.
– Bom dia, professora. Posso entrar?
Ela nem lhe disse nada, simplesmente suspirou fundo, ofertou-lhe o rosto para ser beijado, e em seguida beijou as faces do mocinho.
Preferiria que Beatriz fosse uma Ema, uma Ana, uma Luísa; mas não, é Beatriz, Beatriz, Beatriz. Esse negócio de triângulo amoroso ser motivo vulgar é coisa dela.
– Só o estava esperando. Vamos entrar.
Entraram. A professora fechou a porta. E começou sua aula.
– Como todos sabem, senhor Pequeno faleceu ontem. Em sinal de respeito, encerramos as atividades escolares mais cedo e fomos lhe prestar as últimas homenagens. Todos estávamos presentes. Todos.
Todos, exceto o senhor, senhor Hércules.
Cruz credo! Eu é que não queria estar no lugar do rapazinho. A professora virou outra. Aquela doçura que há pouco se desmanchava com os alunos, virou o Diabo. Fuzilava o rapaz com os olhos e lhe apontava o dedo duro.
– Venha até aqui!
O rapaz levantou-se da carteira e caminhou até a mestra. Ela abriu a gaveta de sua carteira e de dentro retirou a palmatória pesada. A palmatória especial, feita de pau-ferro.
– Dê-me sua mão.
O rapaz lha estendeu e aguardou, tremendo (esse “lha” é um lapso, resquício do tempo colonial).
A professora segurou firme a mão do rapaz e, erguendo a palmatória, desceu-a uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes na mão esquerda, que ardia.
– Agora me mostre a outra.
O rapaz mantinha a mão direita atrás das costas, fechada, represando a dor que a outra estava sentindo. Bem poderia, naquela predisposição,
socar a professora. Ora, mas que ideia avançada. Quem sabe num futuro próximo... Desarmou-a e estendeu-lha. A professora retomou a contagem:
– E sete, e oito e nove, e dez, e onze, e doze. Uma dúzia! Uma dúzia, para o senhor aprender a nunca mais faltar a enterro de ninguém.
Ouviu? Então, por que o senhor faltou ao enterro de senhor Pequeno?
– Foi pai... pai que não deixou. Minha família não se... minha família não se dá com a dele.
– Está bem. Agora pode ir se sentar.
Não vai chorar não, rapaz?
– Vá se ferrar, seu porra!
Vê? A professora está certa. Não respeitam mais ninguém... nem colegas, nem professores, nem mesmo quem lhes bota no mundo... São esses novos, velhos tempos...
A professora, depois desse episódio, ela se...
– Não se atreva! Eu o proíbo!

Flamarion Silva

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