CARTA A DEUS

 

Querido Deus, estou aqui na espera de resolver meus tramites burocráticos pra poder ficar nas montanhas, perto dos arco-iris e das tempestades, estudando as diferentes qualidades de anjos.
A cidade dos homens, com sua fumaça e ferocidade, atrapalha minhas observações e atrapalha o crescimento normal das minhas asas. O Senhor sabe que meu sonho sempre foi voar como Peter Pan ou os Jetsons. A terra anda pesada e as pessoas caminham sem perceber pisando em diamantes. Será que se jogarmos a primeira Edição de Camões pelo chão, irão perceber?
Nada. Nem sequer reparam nos anjos incrustados nas paredes das Igrejas ou na pomba observadora. Quero ficar rico, senhor, o bastante pra ficar semanas vendo filmes de vampiros no telão do meu notebook. Hoje vim pelo ônibus lembrando quando eu acreditava no amor das mulheres e minha alma tentava achar a porta dos universos paralelos. Claro que agora sou quase um sábio, depois de quebrado escudo e espada. Aprendi lutar de mãos vazias. Jogaste duro comigo me deixando vulnerável; porém hoje vejo melhor que poucos espíritos estão acesos na escuridão. Poucos aprenderam dizer sim. Quase ninguém a amar. E como mente essa gente. Deveriam ler Garcia Marques. Sei, Senhor, que como poeta a extinção me ameaça. Daqui a pouco vão querer-me em museus. Então, protejei-me Senhor e acalmai meu coração que não etende como em terra tão farta e tão bela a estupidez não consegue enxergar que a riqueza está apenas em sorrir, amar, agradecer e caminhar. E que nada é sólido, fora o amor.
Tá ruim de convencer essa gente, Senhor.
Portanto, vos peço que guardai na terra aquilo que me deste e dai-me logo a absolvição.
Gosto de ver a arvore do céu crescendo.
Entristece ver a multidão de olhos abertos sem enxergar.

Marcelino Rodriguez

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