a jovem Y.

 

 

Quando a jovem Y. perdeu a terceira criança, ainda no ventre, o velho W., seu dono, lhe disse que não teria quem cuidasse dela quando estivesse velha demais para trabalhar. o velho W. tinha muitos filhos, de modo que não se preocupava com o futuro. a jovem Y. desesperou-se e implorou ao velho W. que lhe fizesse outra criança. e ele fez, mas a criança, embora tenha nascido, era uma menina tão mirrada e doente que o velho W. disse à jovem Y., que, de seu útero doente, jamais nasceria um filho que crescesse o suficiente para ver o crepúsculo do dia. e sentindo-se desobrigado em relação à mãe e filha, mandou-as embora.
a jovem Y. andou por muito tempo em busca de trabalho, mas nada tendo conseguido, pediu abrigo à senhora O., a puta mais antiga da província de N., e na casa da senhora O., a jovem Y. ficou, oferecendo seu corpo de porcelana em troca de comida e teto. os homens da província de N. gostavam de se deitar com a jovem Y., porque, além de bonita, chilreava como passarinho. tamanha popularidade entre os homens da província de N., rendeu à jovem Y. três meninos robustos, os quais foram criados com leite, carne e mel. quando os meninos se tornaram rapazes, a jovem Y. mandou-os estudar na capital, não sem antes, porém, fazê-los prometer que retornariam um dia para buscá-la.
no entanto, os três filhos robustos da jovem Y. jamais retornaram, e ela, cujo corpo de porcelana já não mais atraia os homens da província de N., refletiu que, de seu útero doente, o único fruto sadio, ainda que mirrado, fora morto a troco do sustento de outros três.
quando a velha, muito velha Y., deu cabo da própria vida, ninguém sentiu sua falta.
estava velha demais para trabalhar.

Mariza Lourenço

 

Do livro: Dedo de moça - uma antologia das escritoras suicidas, Editora Terracota, São Paulo, 2009

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