PRÊMIOS E AGRURAS

 

Não é nada fácil ganhar prêmios literários. Concorrem a eles centenas, às vezes milhares de escritores e escrevinhadores. Seriam necessários dezenas de julgadores. Ou alguns anos, para que os três (quase sempre são apenas três) leitores lessem tudo. Assim, não há tempo para a leitura de todas as obras inscritas. Resultado: terminam ganhando os mais íntimos da sorte. Claro que a maioria não está incluída nesse rol. Suas obras não chegam a participar do jogo. São jogadas ao lixo antes do início do jogo. Uma seleção prévia - a leitura de um parágrafo, de duas ou três frases, versos - é o suficiente para que o julgador tenha idéia do valor da obra inteira. Mas não quero me alongar nessa história de leituras e sortes. Seria uma novela sem fim. Vou, pois, passar à fase seguinte do concurso: o recebimento dos prêmios. Para tanto, tenho a contar quatro historiazinhas das quais fui protagonista ou participante.
Primeira história: em 1990 participei do "XXII Concurso Nacional de Literatura", categoria romance, promovido pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Inscrevi o livro A Última Noite de Helena. Uma tarde, enfastiado de processos, crimes, petições, abri um jornal. A notícia do prêmio me chamou a atenção, apesar de não me lembrar mais de minha participação no concurso. O redator anunciava os nomes dos ganhadores e os títulos das obras premiadas nas diversas categorias. Havia a foto de um homem que eu desconhecia e uma legenda: "fulano de tal, vencedor na categoria romance, com o livro A Última Noite de Helena". Tomei um susto. Ora essa, alguém havia escrito um romance sob o mesmo título do meu. Não acreditei em coincidências. Como sou sempre pessimista, aventei a hipótese da troca dos títulos dos livros. O ganhador seria mesmo aquele homem da foto. O equívoco teria sido cometido apenas em relação ao título do romance. Alguém teria levado à redação do jornal a relação dos títulos concorrentes. No dia seguinte tive direito a foto, aliás em maior espaço do que o ocupado pelo outro, e a falar do engano cometido e de minha vida de escritor.
A segunda parte da história é menos cômica: de posse do cheque, fui ao banco. O caixa pediu minha cédula de identidade e berrou: "este nome não confere com o nome constante do cheque." No cheque haviam escrito "Nilto Maciel". O "Fernando" havia sido suprimido. Não recebi o dinheiro, depois de passar duas horas na fila. Recebi-o, sim, dias depois.
Segunda história: participei do "Concurso Graciliano Ramos de Romance (1992-1993)", promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com o livro Os Luzeiros do Mundo. A notícia me chegou por telefone. Porém fui chamado por uma vizinha, para onde haviam ligado. Deram-me parabéns; aguardasse comunicação por escrito. O prêmio consistia em algum dinheiro e na edição do romance. Aguardei a comunicação por alguns dias. Depois esperei o cheque. Passaram-se dias, semanas. Decidi mandar cartas e telefonar. Aquelas não foram respondidas. Ao telefone o outro, a outra nunca sabiam de nada. "Isso deve ser com o doutor sicrano; aguarde um minuto, por favor." Passavam-se minutos e mais minutos. "Ele mandou dizer que é para o senhor aguardar o cheque aí em Brasília." Gastei uma fortuna com telefonemas. E finalmente o cheque bateu à minha porta. A edição do romance, no entanto, até hoje não se fez realidade.
Terceira história: em 1996 participei do "Prêmio Cruz e Sousa de Literatura", promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina. Enviei o romance A Rosa Gótica. O prêmio consistia em algum dinheiro e na edição do livro. Fiquei sabedor da premiação por um telegrama passado pelo poeta Iaponan Soares. Gato escaldado, peguei um avião e fui a Florianópolis. Levava comigo também uma procuração passada pelo poeta Anderson Braga Horta, ganhador do prêmio de dramaturgia. Apresentei o documento a uma funcionária, que guardou segredo disso. Na solenidade de entrega dos prêmios, o primeiro a ser chamado foi exatamente o Anderson. Dirigi-me à mesa, o governador me apertou a mão, fui aplaudido pelo pequeno público e voltei à cadeira. Mal me sentava, o orador anunciou o prêmio de romance. Ainda com o cheque do Anderson à mão, me encaminhei à mesa. Houve estupefação geral. Como explicar aquilo? Eu era Anderson ou Nilto? Iaponan tratou de me socorrer, aos gritos: "Este é o Nilto mesmo, eu garanto." O livro ainda não foi editado.
Quarta história: também em 1996 participei do "VI Prêmio Literário Cidade de Fortaleza", promovido pela Fundação Cultural da capital cearense. Enviei o conto "Apontamentos para um ensaio". A notícia da premiação me foi dada pelo poeta Diogo Fontenelle. Viajei a Fortaleza em janeiro de 1997. Falaram-me da esmagadora vitória eleitoral do prefeito situacionista, dos enormes gastos com a campanha eleitoral e, logicamente, da falta de recursos financeiros para saldar compromissos assumidos pelo antecessor. Portanto, não havia dinheiro para o pagamento dos prêmios literários. Fui procurado por inúmeros jornalistas e instado a fazer de público a cobrança da dívida prefeitoral. Às vésperas (dois meses depois) de regressar a Brasília, exatamente duas horas antes da partida do avião, recebi o tão esperado cheque. O livro, que reuniria meu conto e os nove que se seguiram ao meu em ordem de classificação, ainda espera por editor.
Apesar dessas agruras, sou um dos milhares de escritores que acreditam em concursos literários, não dão ouvidos ao azar e têm certeza de que suas obras nunca irão para o lixo. E sabem não ser nada fácil ganhar prêmios literários. Ganhar, receber e ver cumpridos os regulamentos. Sobretudo o artigo que diz: "o prêmio consiste em ... e na publicação da obra vencedora."
Agora peço, ao leitor paciente, permissão para me retirar. Preciso ler direitinho um regulamento de concurso literário que me chegou hoje.
Brasília, 12 de setembro de 1997.

Nilto Maciel

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