Rubens da Cunha e Rogel Samuel: boas leituras em Blocos!

 

NATURAL NÃO NATURAL

 

Sartre dizia que “escrever não é viver, nem tampouco se afastar da vida para contemplar, num mundo em repouso, as essências platônicas e o arquétipo da beleza, nem deixar-se lacerar, como se se tratasse de espadas, por palavras desconhecidas, incompreendidas, vindas de trás de nós: é exercer um ofício. Um ofício que exige um aprendizado, um trabalho continuado, consciência profissional e senso de responsabilidade”. Esse pensamento de Sartre retira do ato de escrever, sobretudo literatura, qualquer glamourização romântica da inspiração, qualquer superioridade que alguns pensam haver no ato de escrever.

Claro, é preciso contextualizar o texto de Sartre, escrito logo após a Segunda Guerra, não fazia sentido para o filósofo um mundo em que o escritor fosse um sofredor romântico, ou um autoexilado existencial, ou um sujeito captador das belezas etéreas advindas da inspiração. O escritor tinha que ser ativo, participante, ou, nas palavras de Sartre, engajado. Sua escrita devia estar anexa ao tempo em que vivia e não num passado mítico, ou nas alturas metafísicas do sentimento, das coisas do espírito. O escritor não poderia se colocar acima ou afora da realidade cortante que perpassava o mundo naquela década, sempre tendo como foco a liberdade, pois, para o próprio Sartre, a literatura é o exercício da liberdade.

Tratar a escrita como ofício, como trabalho contínuo, talvez seja a melhor parte desse pensamento de Sartre, pois desmonta um pouco o mito do escritor inspirado, do escritor xamânico, recebedor do mistério da arte. Talvez isso funcione para alguns, mas mesmo esses possuem um esforço laborativo por trás.

Quando falamos em inspiração, nos colocamos, muitas vezes, dentro desse terreno pantanoso do talento, do “dom natural”, algo atribuído pela “natureza” do indivíduo que ele pode desenvolver ou não. Outro artista revolucionário, o dramaturgo Bertolt Brecht dizia que não há nada natural, pois a “natureza” serviu, e serve, para explicar e justificar uma série de atrocidades, sobretudo no que tange às etnias e às classes sociais: era natural que negros fossem escravizados, é natural que pobres sejam explorados pelo capitalismo, é natural que o mundo seja controlado por homens brancos e heterossexuais, enfim, a ideia de natureza justificou muita coisa perniciosa. E continua justificando, pois ao se deixar a coisa no campo do “é natural”, a possibilidade de mudar, de enfrentar o problema fica mais difícil.

Quando Sartre clama pelo senso de responsabilidade dos escritores, ele deseja, justamente, que a ideia natural de “inspiração” não atrapalhe a consciência do escritor, não o torne um ser suscetível a ideias vindas das musas, mas que ele atue sobre seu tempo, escreva com responsabilidade e empenho, que faça da sua escrita um instrumento real de transformação das insensibilidades, das injustiças, das coisas todas que atrapalham a vida humana e que não têm nada de natural.

Rubens da Cunha

Leia mais textos de Rubens da Cunha em: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/colunistas/rcunha/rcindex.htm

(imagem retirada do site: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/planeta-urgente/como-o-islamismo-ajuda-a-reconstruir-clima-do-passado/

 

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A paisagem além da vidraça

Depois de reler um livro antigo fiquei disponível para minhas leituras de Natal, meus poetas de Ano Novo: como tecer um texto novo sem consultá-los? Como não reler Fernando Pessoa?

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !

Depois de reler um livro antigo fiquei disponível para minhas leituras de Natal, meus poetas de antigos Natais:

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Natal festa em família dos “lares aconchegados”. Natal onde ressurgem os “sentimentos passados”, de infância, de criança, de união.

Pessoa é tão atual quanto o desfazer-se dos lares, dos laços familiares, a solidão pós-moderna. Pessoa fala por nós: a família é coisa distante, afastada, é um sentimento passado.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

Afinal o texto se opõe ao mundo: como a família lhe parece verdadeira, ou seja, como ela é real, como ela não se apaga. O sentimento profundo vem das profundezas do subconsciente, da mãe primordial inarredável, só em sonho presente nessa solidão natalina – “estou só e sonho saudade” – saudade só no solipsismo desse sopro desses “SS” – uma respiração do poema e seu suspiro profundo, materno: “coração oposto ao mundo” é o seu conflito e isolamento, o poeta não está “nos lares aconchegados”.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Mas a paisagem também lhe é desconhecida, apesar de “branca de graça”. “Branca de graça” soa nesses “AA” invernais, a paisagem é branca porque não há nada nela, porque afinal ela-mesma nem existe, e por isso é tão cheia de graça, tão pura, tão limpa, tão infantil, pois o lar não o teve nem nunca o terá.

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

                              Rogel Samuel

Leia mais textos de Rogel Samuel em: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/colunistas/rsamuel/rsindex.htm

Imagem retirada do site: http://tercodoshomensdecaico.blogspot.com.br/2011_12_01_archive.html

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  Falecimento de Gregório de Mattos (1695, Recife/PE)

Comentários

ROGEL SAMUEL disse…
obrigado, Amiga, por publicar este texto... já de Natal!

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