Cultura: como vender a ideia

 

Boas ideias e qualidade artística nem sempre são suficientes na hora de conseguir apoio financeiro

"No final das contas, o patrocinador também é protagonista no projeto", afirma Daniel Leão, produtor cultural e captador de recursos
Daniel Leão
Captador de Recursos

O que é preciso para se conseguir um bom patrocínio para projeto cultural?
A grande diferença hoje em processo de captação de recursos é conseguir envolver o investidor / doador e torná-lo também protagonista daquele projeto, benefício ou promoção cultural. É muito comum abordar empresários e pedir patrocínio sem essa compreensão, sem buscar compreender o que é o negócio dele, o que é sensível aos seus clientes, qual a cultura administrativa. É fundamental compreender cada uma as empresas para identificar o que pode ser sensível na hora da captação. Entender como envolver seus funcionários, em que aspectos o marketing pode, de fato, fazer diferença para ele. Ações diretas na empresa e durante o evento podem ser uma boa também.
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Quais os erros mais recorrentes cometidos pelos artistas?
Costumo ver vários... No momento anterior da captação tem principalmente a falta de diálogo com possíveis patrocinadores. O artista já tem o projeto pronto, não dialogou nem interagiu antes com possíveis patrocinadores nem com outras pessoas que poderiam sugerir incrementos de forma a facilitar o processo de captação. Acontece muito também do orçamento ser acanhado, o artista não soube especificar tudo corretamente ou principalmente esqueceu de contabilizar todos os impostos. Depois do projeto realizado vejo também um desleixo considerável com a prestação de contas. Este tópico deve ir além da apresentação de notas fiscais e recibos. Prestar contas do projeto é mostrar como a imagem do patrocinador foi associada, mostrar como foram atingidos todos os objetivos do projeto, especificar se todas as metas já foram cumpridas e caso-a-caso porque do não atingimento. É preciso perceber o pós projeto como uma parte da captação para as próximas edições, se não o patrocinador pode fechar as portas pra você no futuro.
O que as empresas procuram nos projetos? O que é vantajoso para elas?
Visibilidade da marca é o fundamental. Essa visibilidade deve extrapolar a logomarca no banner, no folder e a assessoria de imprensa, que, geralmente, é apresentada como um "plus" no projeto. Isso não é errado. Só é importante perceber que não é suficiente para dar visibilidade. O proponente deve abrir uma linha de diálogo e pensar junto com o patrocinador em potencial como a marca dele pode ser bem apresentada e associada ao investimento cultural. É importante pensar nos três públicos, os colaboradores, os fornecedores e os clientes do patrocinador, e pensar forma de envolvê-los caso a caso. Tudo que possa associar a marca dele como um agente promotor de cultura. No final das contas o patrocinador também é protagonista no projeto. Ele só não ajudou a concebê-lo, e até poderia. Seria vantajoso por exemplo um projeto de teatro realizar intervenções na empresa, com seus funcionários. Um festival fazer um evento interno para premiação e agradecimentos aos patrocinadores. A assessoria de imprensa do projeto pautar no caderno de economia sobre o investimento cultural feito por esta empresa. Existindo a possibilidade do patrocinador se posicionar, ele se convence de sua participação, a sua empresa se aproxima mais do projeto cultural e ele é de fato associado a cultura.
Projetos coletivos ou individuais, quais têm mais efeito junto às empresas que investem?
Projetos coletivos tem a chance de apresentar alcance maior de visibilidade. Projetos em rede tem a possibilidade de gerar mídias especificas como compilação da experiencia adquirida, documentação dos processos do projeto, etc. Essas mídias são para documentar os processos para a rede. Projetos coletivos também tem a chance de ampliar o publico atingido, então, nesse caso, vai ser preciso observar onde estão os clientes do patrocinador, para entender se valeria a pena para ele o investimento em um projeto com alcance maior do que ele atinge com seus produtos / serviços. Por isso é importante pensar no patrocinador junto com o projeto. Uma empresa de telefonia, por exemplo, poderia investir em um projeto de circulação nacional. Uma empresa de serviços, com alcance estadual, como companhia elétrica, poderia investir em projeto de circulação estadual, e assim por diante.
Como você avalia o cenário do Ceará quanto a este investimento privado em cultura. Existem muitas empresas que investem ou que tenham interesse em investir? O que falta?
A possibilidade de investimento em cultura e em outras áreas está muito associada à isenção fiscal. Para isenção de imposto federal, a empresa deve ser tributada no lucro real. Não são tantas empresas assim aqui no Ceará (não sei precisar a quantidade), diferente do eixo Rio-São Paulo. Para isenção estadual, temos possibilidades na mesma linha e quantidade de empresas. Diante do fato de não existirem tantas empresas com a possibilidade de investimento via isenção, fica a necessidade de pensarmos em que outras maneiras o investimento poderia ser feito, se dentro de verba de marketing, se apresentando formatos com maior retorno ao investidor, etc. Vejo também uma necessidade dos governos em se aproximarem mais dos investidores, seja discutindo as leis de incentivo, seja convencendo quanto ao processo de isenção ou realizando atividades de fomento ao tema da associação da marca empresarial a cultura.
Fábio Marques
Repórter

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1225242

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