Despertar

 

Com o tempo começou a não gostar de homem, de mulher, de velho, de criança, de qualquer gênero humano. Os homens e as mulheres pareciam em sua maioria materialistas, egoístas e superficiais. Os velhos lhe pareciam sempre muito carentes e prepotentes (as pessoas não ficam melhores por ficarem mais velhas, ficam apenas mais velhas, provavelmente um pouco piores). As crianças o irritavam, saltavam, faziam barulho, eram egoístas, sem paciência. Nada nem ninguém prestava. Até que um certo dia percebeu a pessoa no banheiro. Uma pessoa calada que lhe fitava todas as manhãs quando ia escovar os dentes, aquela pessoa no espelho era como tinha que ser, séria, calada, silenciosa, limpa, como as pessoas deveriam ser e não eram. Ele se acostumou com o ar sisudo, como o olhar com pouco brilho, pensava ele:" - Ele deve estar preocupado, tem cara de ser trabalhador..." falou ele com admiração ao cenho franzido do homem que o encarava seriamente. Essa era a única pessoa que prestava. Até que um dia, como de costume, pela manhã foi encontrar com a pessoa silenciosa no banheiro, olhou seriamente como sempre fazia todas as manhãs, porém, quando abriu a torneira do lavatório para escovar os dentes foi surpreendido por um grande jato de água que estourou no teto e se esparramou por tudo, molhando todo o homem. Ele ficou furioso, bravo, irritado, iria se atrasar para o trabalho, estava todo molhado, sentiu a raiva invadindo seu corpo, nem sabia raiva de quem ou de o que, apenas raiva, por as coisas terem saído do lugar. Foi quando ele olhou para o espelho e viu que o homem sério do outro lado estava se matando de rir dele todo ensopado. Ria tão alto e tão gostoso que ele se contagiou. Começou a rir e sentiu o prazer da água fria refrescando a pele naquela manhã quente de verão. Foi naquele exato momento que ele se apaixonou pelo mundo.

Ana Laura Kosby

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Outono!

LITERATURA DE CORDEL: A MEMÓRIA DO SERTÃO EM FOLHETOS