KATMANDHU É “JÓIA RARA” DA GLOBO

 

 

Como todos tenho assistido aos primeiros capítulos de “Jóia rara”, na esperança de compreender por que Katmandhu e o budismo vão aparecer ali.

E como é uma estória de época, talvez se torne interessante quando aparecer.

Estive três vezes em Katmandhu.

Foram temporadas relativamente longas, cer45ca de cinco meses e meio no total.

E até gostaria de contar, pois não estava lá como turista. Vi, vivi e sofri muita coisa.

A novela, até agora, não diz para onde vai. E a introdução musical me parece fraca.

Na juventude, eu morava em quartos alugados e comia no Calabouço, no restaurante da UME, União Municipal dos Estudantes, que ficava nas imediações do Aeroporto Santos Dumont, eu sonhava viajar. Como no verso de Bandeira.

O Aterro estava sendo feito.

Do meu quarto, no Maracanã, dava para um beco e uma casa abandonada.

Dali eu só tinha a visão daquele muro velho e, à esquerda, uma árvore antiga. Aquela rua Eurico Rabelo.

Como eu precisava de mesa, comprei um “bureau” usado, antigo, de madeira preta, que pertencera a um ministério. Era gigantesco.

O Maracanã ficava em frente.

Nos grandes jogos cada gol soava como uma onda que se elevasse saída de um vulcão furioso.

Era possível entrar no Maracanã vazio, ir até o gramado, olhar do centro para a periferia, para aquelas galerias monstruosas e vazias, descritas por Clarice Lispector num belo conto.

Foi quando passei a explorar o Rio, de ponta a ponta.

Nos dias livres tomava um ônibus e visitava Caxias, Meriti, São Gonçalo etc.

Chegava no fim da linha, e pegava o ônibus de volta.

Desenvolvi o espírito de viajante.

Mais tarde percorri o Nordeste, o Sul, e depois parti para o mundo, Katmandhu, Sydney, Paris...

Fiz 17 viagens ao exterior.

Esse meu espírito de aventura. Que perdi, depois de velho.

Para ir a Katmandhu, hoje, há voos diretos.

Quando estive lá pela primeira vez não, gastava três dias.

O antigo rei - depois assassinado – ainda vivia. Dizem que ele era casado com uma antiga cantora de cabaré.

Tinha pouco poder, mas controlava o Exército.

Isso era 1992/3.

Quando voltei, o Partido Comunista assumira o parlamento.

Na administração comunista a cidade ficou um pouco mais limpa.

Mesmo assim, Katmandhu era uma latrina. O lixo se acumulava nas ruas, ou era queimado por populares.

Apesar de ficar num vale nos Himalayas, a poeira se levanta cheia de calamitosas doenças, com muita fumaça e a água era poluída (só se escovavam os dentes com água mineral).

Eu gostava de ir no período de Losar, que é o ano novo tibetano.

Boudanath, cujo cartaz tenho na minha frente enquanto escrevo, nessa época ficava uma festa.

Bouda é um bairro-cidade tibetano ao redor da lendária Estupa de Jerukansor, que aparece em O Pequeno Buda.

Jerukansor significa mais ou menos: 'tudo o que você pedir será atendido'.

Quando lá fui pela primeira vez, comecei hospedando-me no Stupa Hotel.

Os gerentes do Hotel me olhavam com muita desconfiança, diziam que eu era um traficante, porque eu disse que vinha da América do Sul. E parecia rico.

Até ali a viagem tinha sido um desastre.

Em Amsterdã me impuseram pesada multa por excesso de bagagem (levava uma pequena biblioteca para amigo tibetano – o monge Lobsang Tenpa).

Em Nova Delhi passei a noite quase no exterior do Aeroporto, cercado de mendigos: as autoridades locais disseram que eu não poderia permanecer dentro, já que só viajaria no dia seguinte (fui culpado, deveria ter mentido no desembarque, dizendo que estava em trânsito).

Tentei ir ao sanitário com minhas três eruditas malas sem o conhecido carrinho (que ali não havia) e descobri que o ambiente estava completamente molhado de urina. Depois confiei a bagagem a duas jovens americanas.

No dia seguinte, em Katmandhu, subi a montanha, ao  monastério de Kopan,  para entregar a preciosa carga, deixando o táxi esperando e almocei com o lama, passei a tarde ali e em outros sítios históricos, voltando à noite no mesmo táxi.

Por isso ganhei o apelido de 'o colombiano'.

Eles me chamavam de 'o colombiano rico'.

Mas um dia inteiro de táxi não saía mais do que 10 dólares...

Os primeiros dias em KTM são terríveis.

Os demais, melhores.

Depois você se apaixona por aquela cidade e não quer mais sair.

Tudo acontece.

Desde as elevações espirituais até as delícias gastronômicas e as outras.

Vi tudo, fiz de tudo, fiquei quase três meses naquele ano de 93.

O mais interessante foi uma festa de casamento.

Ao lado da Lótus Guest House uma casa rica de família nepalesa oferecendo ruidosa festa de casamento.

Como não ia mesmo conseguir dormir naquela noite, resolvi ir ver do lado de fora.

Os donos da casa me viram e me convidaram para entrar.

É considerado auspicioso você oferecer alegria, muita comida e bebida a muitos convidados importantes, durante o casamento.

Significa que o casal vai ser rico e feliz.

Todos estavam de paletó e gravata, eu de pijama (mas achavam que era o traje de meu país de origem).

Muita gente.

Muita bebida e comida.

Muita dança masculina.

As damas sentadas ao redor, aplaudindo e rindo.

Os maridos, completamente embriagados, dançavam entre si, em requebros de quadris e das mãos, como exóticas dançarinas de cabaré.

Em KTM não se vê um casal na rua: as moças e os rapazes andam separados.

Os rapazes aparecem em pares abraçados.

Mas mulher não dança em público.

E não anda de calça comprida. Isso é uma ofensa!

A Glória Maria da Globo não foi informada que deveria usar saia.

Não voltarei a KTM, estou muito velho para isso.

Mas espero rever a cidade na TV, na novela.

 

                                                                          Rogel Samuel

Comentários

ROGEL SAMUEL disse…
tenho saudade de Kathmandu, mas tenho mais saudade de minha mocidade, quando eu fazia essas aventuras... Obrigado por publicar minha crônica.

Postagens mais visitadas deste blog

Dia de Reis, desmonte da árvore, romã...

Outono!