O garoto que perdeu a sombra

 

Marquinhos era uma dessas crianças que não perdem a cabeça porque está grudada no pescoço, como gostava de dizer sua mãe.
Marquinhos perdia tudo: seu pião, seu doce, sua escova de dentes, sua mochila da escola, o dinheiro da pão, a chave do portão...

Naquele dia, ao sair da escola, foi com os amigos brincar de gigante. Era assim: eles ficavam de costas para o sol do final da tarde e viam quem tinha a maior sombra. Mas, diante de Marquinhos, não havia sombra nenhuma! Os amigos, entretidos com suas próprias sombras, ainda não haviam percebido nada, então Marquinhos tratou de correr para dentro da sala de aula, a procurar pela sombra perdida. Nada dentro da carteira, nada debaixo dos bancos, nada atrás da porta, nem tampouco dentro do armário da professora, que, irritada, tratou de expulsar dali o aluno retardatário.
Marquinhos vagou pelo pátio do recreio, olhou na quadra de esportes, até no parquinho dos alunos menores, sem sucesso.
O menino pensou em todos os lugares aonde havia ido desde de manhã.
Marquinhos lembrava-se de que havia agitado o boné da sombra pelos degraus da escada ao entrar no carro de papai... e se a sombra houvesse ficado no carro? Não havia como saber antes da noite, então começou a procurar na padaria, na quitanda, na farmácia, na banca de jornais, e até na floricultura, onde papai parara pela manhã e comprara um belo buquê de rosas para mamãe.
O menino entrou na padaria e olhou nas prateleiras de biscoitos, no balcão dos queijos, debaixo do balcão do caixa...havia muitas sombras por ali, mas não a sua.
Na quitanda foi mais complicado, o balconista achou que ele queira levar alguma fruta sem pagar, e ele não queria ser surpreendido sem sombra, e ficou se esgueirando pelos cantinhos escuros, deixando o português mais desconfiado e foi corrido para fora com ameaça de vassouradas.
A banca de jornal foi o local mais tranquilo para procurar, porque ali as pessoas normalmente estão lendo e não prestam atenção aos outros, e muito menos a suas sombras.
E na floricultura, ele esperou que sua sombra, resfriada pela umidade, se denunciasse por um espirro, o que não aconteceu.
Escondendo-se na sombra de outras pessoas, Marquinhos voltou para casa, pulando ao lado da professora, agachando-se para brincar com o cachorrinho da vizinha, e com isso, ficando na sombra dos outros.
E, entrando em casa continuou a procurar por aqui e por ali, na esperança de que a danadinha houvesse voltado para casa, até que o irmãozinho o surpreendeu, e perguntou:
– Posso ajudar?
– Não! – disse Marquinhos, enfiando-se debaixo da cama, só para ser imitado pelo irmão menor quase no mesmo instante.
– O que você está procurando?
– Eu? Nada...
– Eu venho seguindo você desde a esquina, e...
– Como é que você pode estar me seguindo desde a esquina se você não saiu de casa?
– Seguindo da janela, eu estava espiando... conta pra mim, vai, conta logo!
– Ai – suspirou Marquinhos – desta vez a encrenca é das grandes.
– O que é que você perdeu?
– Você nem vai acreditar. – e o menino suspirou, infeliz.
– A cabeça é que não foi, está bem grudada aí no seu pescoço. – riu o caçulinha.
– Foi a minha sombra – e o garoto suspirou de novo, confuso.
– Ah, isto eu quero ver! – e o menorzinho puxou o irmão para o claro, onde, para seu espanto, só mesmo o Marquinhos, e nada de sua sombra.
– Vai ver que sua sombra dormiu demais e ficou na sua cama.
– Eu saí com ela – disse Marquinhos, mas, por sim ou por não, foi olhar debaixo da cama.
Por sorte, a mãe estava no banho, então Marquinhos tinha algum tempo para procurar em paz, então, ele e o irmão começaram a vasculhar cada cantinho da casa: atrás do sofá, das cortinas, dentro da máquina de lavar, e, por fim, na biblioteca, onde, ao entrar, Marquinhos viu, com surpresa, a sua sombra na parede, debruçada sobre a escrivaninha de papai.
Marquinhos correu para lá. Ele sentou-se ali até ocupar exatamente o espaço da sombra. Mexeu de leve a cabeça, e a sombra o acompanhou.
– Graças! Posso voltar para a sala.
Quando ele se levantou, porém, a sombra nem se mexeu. Ele tornou a sentar-se. E agora? Aberto sobre a escrivaninha, um livro fininho. Marquinhos olhou de relance para a página aberta:
‘Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito.'
– O que é isso? – perguntou o irmão mais novo, que ainda não sabia ler.
O menino olhou a capa do livro: Carta sobre a felicidade .
– Quem escreveu isso?
– Com o nome de Epicuro, deve ser grego. Um daqueles gregos de que o avô tanto gosta de falar.
– Eu adoro as histórias de grego. – o irmãozinho animou-se. – Aquele Ulisses sabido, que ouviu o canto das sereias, e enganou o gigante de um olho só... Você também gosta. Leva o livro com você.
Marquinhos achou a ideia boa. Pegou o livro, levantou-se, e a sombra levantou-se junto. Ele já estava se sentindo de novo normal, quando a sombra empacou, bem em frente a uma pilha de livros de matemática da mãe.
– E agora essa! – e o garoto falou com a sombra, sentindo-se um tanto quanto bobo – Bem, o que é que você quer, afinal? – para surpresa dele, a sombra apontou para a estante.
O irmãozinho riu.
– Pelo jeito, sua sombra é viciada em livros.
Marquinhos começou a folhear um por um, até perceber o que a sombra queria: um livrinho cheio de gravuras coloridas, jogos cheio de números, pequenas histórias sobre curiosidades matemáticas. O interesse de Marquinhos foi imediato.
– Ora, ora, até parece que a matemática pode ser divertida, como diz o papai.
Mamãe veio chamar os meninos, pois papai acabara de chegar em casa e o jantar estava pronto, e achou curioso que Marquinhos tivesse dois livros na mão, e que os dois meninos a toda hora olhassem o chão e as paredes.
– O que vocês estão procurando, afinal?
– A sombra do Marquinho – disse o irmãozinho.
- Essa ele não perde – disse a mãe – está bem grudada no corpo dele.
– Quem dera! – disse Marquinho, assustado. Toda vez que ele tentava se separar dos livros, a sombra empacava. O jeito foi sentar-se em cima dos livros pra jantar.
– No meu tempo de menino – disse o papai – a gente colocava a tabuada debaixo de travesseiro na véspera da prova, para aprender dormindo. E funcionava direitinho: se eu recitasse a tabuada trinta vezes, antes de colocar debaixo do travesseiro, era tiro e queda: decorava tudinho – e piscou o olho para os meninos. – mas nunca sentei em cima do livro pra jantar, não.
Marquinho acabou o jantar, abriu o livro do grego ao acaso, e, em voz alta, leu:
‘é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.'
Mamãe e papai, que eram ambos professores, se entreolharam. E acabaram por falar, quase ao mesmo tempo, o que fez a família inteira rir:
– Bem diz o ditado que ‘quem sai aos seus não degenera'.
– Você sabe o que traz felicidade, papai?
– Claro que sei! É estar em paz com minha família. Isto é felicidade: todos juntos, com saúde, lendo filosofia grega a procurando sombras nas paredes.
– Sombras, não, só a sombra do Marquinhos – começou o menorzinho, mas Marquinhos o interrompeu:
– A minha sombra gosta de ler. Ela hoje fugiu de mim e se escondeu na biblioteca.
É claro que a mamãe e o papai pensaram que o Marquinhos estava fantasiando.
O fato é que a sombra do menino lera muitos livros interessantes naquela tarde, e daquele dia em diante, Marquinhos começou a gostar de livros, e tornou-se um leitor voraz, e mais tarde, um homem muito sabido.

Sonia Regina Rocha Rodrigues

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