Poesia, Selmo Vasconcelos. Prosa, José de Mattos

 

VENHA SAUDADE
         VENHA SAUDADE
                   VENHA SAUDADE
ME MOLHAR

                        

Selmo Vasconcellos

(Do livro: Resquícios Ponderados, João Scortecci, 1996, SP)

 

O FANTASMA DA MÁQUINA

Em meio a densa neblina o homem agita os braços para o par de faróis amarelos que se aproxima na penumbra. A máquina esbarrou obedecendo ao aceno; enquanto o guincho da fricção feria-lhe aos ouvidos – resfolegando rolos de fumaça.
O maquinista indagou-lhe com voz cavernosa sem virar-lhe o rosto coberto pelo capuz:
– Só ida?
– Só.
A locomotiva sapateou sobre os trilhos acomodando Blun ao banco com um solavanco; e a paisagem correu célere pela portinhola lateral, misturada ao nevoeiro que se tornava cada vez mais baço. O coração agitou-se comovido, e, a mão tremula apalpou o cantil no bolso interno do casaco; levando-o aos lábios e secando os respingos com o dorso da mão.
Mal porém viajou um quarto de horas, ouviu atrás de si um tropel reverberante de maneira terrível que irrompeu num lampejo estrondoso. Sentiu o calor do sangue no rosto e, logo em seguida uma perturbação violenta explodiu parecendo rasgar toda a existência ao seu redor; a treva rompeu todo ponto luminoso existente até então.
Sofreu vendo o corpo em decomposição enquanto a máquina atingia uma velocidade vertiginosa. sentiu-se como um homem bêbado e, cambaleando, lançou-se contra a portinhola e seu corpo projetou-se no abismo escuro. Nesse ínterim, abria a boca na ânsia de respirar, a febre tremia todos os músculos, os olhos ardiam e a náusea pôs fim a sua consciência.
Não se lembra quanto tempo permaneceu nesse estado. Julgou ter sido um tempo considerável, pois, quando recuperou os sentidos, o céu estava juncado de estrelas azuis, e o sol amarelo iluminava um mundo passível.
Girou sobre o próprio calcanhar fazendo um circulo, com as mãos em arco protegendo os olhos, a fim de contemplar planície de cor rochosa se estendia no infinito.
Parou em frente à sua casa – a única em seu raio de visão. Após refletir, empurrou a porta sem violência, viu-a espatifar-se, levantando uma enorme nuvem de poeira roxa.
“Parece estar abandonada há uns cem anos, ou mais”. Murmurou caminhando entre os escombros; ao passar pelo espelho ao seu flanco, parou e deu um passo atrás, assustando. Examinou atentamente sua aparência grotesca, e, apesar de sentir-se normal, seu aspecto era de uma palidez fantasmagórica e denotava ter envelhecido tanto quanto sua casa.

José de Mattos

 

Temática mensal halloween/magia: José de Mattos

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