Dia da Consciência Negra, por Adão Ventura e Maria Luiza Falcão


NEGRO FORRO
minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.
minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.

                Adão Ventura

POR UM SORVETE
Sexta-feira, 1º de novembro de 2013, dia de Todos os Santos. Caminhando na Av. Amazonas, centro de Belo Horizonte, decidi parar numa loja do Bob's e tomar um sorvete. A loja é a de número 800 (tem uma plaquinha na parede indicando). Na fila do caixa, vi um menino com uma pequena caixa na mão. Ele também me viu e, educadamente, perguntou se eu poderia comprar um sorvete para ele. Assenti e aguardei minha vez. Fiz questão de pegar o ticket e entregar na mão dele. Imaginei que seria bom para ele fazer seu próprio pedido no balcão de atendimento, afinal, de posse da notinha, ele era um cidadão, um cliente igual a todos que ali estavam. Paguei pelo meu sorvete e com meu ticket busquei atendimento. No balcão, algumas pessoas eram atendidas, outras como eu aguardavam. O menino estava lá. Embora chegando depois dele, fui logo atendida. O menino estendia a mão, pedia, mas... nada. Achei estranho aquilo e decidi ficar por perto observando. Para minha revolta e profunda decepção, o que imaginei de início estava mesmo acontecendo. O menino estava sendo flagrantemente discriminado por dois atendentes, uma moça e um rapaz. Aguardei ainda um pouco mais, mas vendo que tantas pessoas eram atendidas em detrimento do menino, não suportei. Fui até o balcão, pedi o ticket ao menino (ele tinha dois, pois havia conseguido mais um com outro cliente) e fiz o pedido. A moça viu que eu assumia o pedido pelo menino e, meio sem graça, tomou os tickets para me servir. O rapaz, muito grosseiramente perguntou se eu havia pago os sorvetes, ao que respondi afirmativamente. A moça entregou-me o sorvete, mas eu fiz questão de que ela entregasse os dois nas mãos do menino. Ele, mais uma vez gentil, me agradeceu e se foi. Entrei na loja e terminei meu próprio sorvete. Mas o pensamento e a revolta tiraram todo gosto, do sorvete e do lugar. Pensei em me queixar à gerência, mas não o fiz. Não por mim, mas pensei que aquele menino pudesse, em outra oportunidade, ser até expulso daquele lugar.
Aquele menino não era negro, não estava maltrapilho, nem sujo, tão pouco mal vestido. Dignamente portava uma pequena caixa com balas que certamente vendia nos pontos de ônibus da região. Um trabalhador, tal qual àqueles presunçosos jovens atendentes que, com seus uniformes e carteiras de trabalho assinadas, se julgaram tão superiores aquele pequeno trabalhador.
Que Todos os Santos guiem e abençoem os dignos trabalhadores deste país, e perdoem – se for possível – os que, mergulhados no egoísmo, desprezam seus semelhantes. Amém!


                                                                                    
                                                                                                    Maria Luiza Falcão

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