Minha não previsão para 2014 (Ivana Mihanovich)

 

Anos atrás, durante uma meditação, eu tive um insight a respeito dos anos que seguiam a partir de 2000.

As previsões clássicas costumam somar números contidos na data, aplicando, então, os atributos do arcano correspondente. Assim, um ano como 2010 foi visto, em geral, como um ano de número essencial 3 (2+0+1+0=3), o que corresponde à Imperatriz. Ou foi analisado como um ano de Sacerdotisa (2), Louco (0), Mago (1) e novamente Louco (0).

Evidente, esse é o tipo da coisa que se presta a qualquer devaneio, sem que seja possível uma comprovação, exceto, talvez, depois que o ano acaba, e nenhuma dessas formas jamais me convenceu ou atraiu. Simplesmente percebo ser impossível fazer previsões sobre aspectos mais triviais que sirvam igualmente aos bilhões de pessoas do planeta.
No meu insight o que eu enxerguei foi que a partir de 2000 iniciava-se uma etapa nova arquetípica (algo que afetaria a humanidade como um todo). E, para mim não havia cabimento em descartar o zero, já que, no meu tarô, ele é o Louco, nosso ser fundamental, o que chamo de nosso zero essencial. Portanto, na minha forma de compreender a coisa, ainda acatando o limite de 22 em conexão com os Arcanos Maiores, todos os anos a partir de 2000 tinham como seta inicial o 20, O Julgamento, sendo os dois números seguintes um arcano de orientação para o ano (considerando-se que estamos refletindo em cima de divisões não naturais, criadas pelo homem. Ainda assim, aprendi que todo ponto de partida pode ser válido, inclusive esse).

Dentro dessa minha visão, O Julgamento será, portanto, a essência subliminar de todos os anos até 2100, quando a essência passará a ser O Mundo (21) e minhas reflexões vão até 2022 (a partir de 2023 talvez use os Menores, ou talvez me sinta compelida a usar a soma mágica, mas é coisa que deixo para decidir quando esse momento chegar).

Basicamente, o 20 é o arcano do reflorescimento, da reunião de nossas partes desconexas num todo coerente, da ressurreição do ser original, de ouvir o chamado ou a "con-vocação". Acredito que seu atributo de "re-unir" é o que acelerou e fomentou a sensação de que somos todos um e
gerou, no chamado Terceiro Milênio, tantas novas formas associativas em prol do bem estar geral (o que também fez tantas formas destrutivas desses ideais também cresceram em força, mas isso faz parte do enigma terreno).

Os anos a partir de 2000, consequentemente, tem por sugestão básica o reencontro consigo mesmo e o renascimento e, portanto, apontam para o desapego de personas, profissões, relações e posturas que já não servem mais, ou que, na verdade, nunca serviram, exceto como fachada, conformismo ou submissão à ordem vigente.

A era 2000, então, tem como caminho ou vereda, o empurrar da vida em direção a assumirmos quem realmente somos, enquanto segundo arcano aponta a ferramenta para lidarmos com esse caminhar, durante aquele ano. Evidente, O Louco está sempre subjacente, trazendo tanto a loucura de sua sombra, como o anseio de liberdade e a espontaneidade de sua luz. Não por nada os anos 2000 estão tão malucos, virando coisas do avesso, deixando tanta gente perdida e, ao mesmo tempo, forçando ou levando tanta gente a sair fora do que não interessa mais, sejam casamentos, profissões ou lugares.

No caso de 2014, seguindo minha ideia, temos como ferramenta orientativa A Temperança (14). Esse arcano me diz que o passo certo, para que o próximo ano nos leve mais um degrau a caminho d'O Mundo, é a pausa, a autoproteção e a capacidade de alçar-nos acima do óbvio e enxergar tudo sob nova perspectiva; uma perspectiva, digamos, mais pacífica ou celestial.

Penso ser um ano em que devemos proteger melhor nossos espaços, familiares e amigos, criando relações e entretenimentos mais internos ou caseiros, que reforcem o porto seguro que os lares um dia foram. Acredito que é um tempo que alerta para desacelerarmos as agendas: menos tempo na rua e mais qualidade de vida dentro (de si mesmo, de casa, dos clãs, dos círculos fraternos etc). E menos pressa, porque a pressa, na verdade, nos distrai de olhar para dentro e, no fundo, pressa é apenas adicção; é o vício na adrenalina do coelho de Alice e, como ele, na verdade não nos leva a lugar algum (exceto, talvez, a cumprir ordens da Rainha e não desejos verdadeiramente nossos).

2014 é hora de pausar e olhar para dentro, mas com afeto e não com severidade. Olhar para si mesmo como um anjo da guarda olharia: com compreensão, mas sem indulgência. Com compaixão, mas sem leviandade. Hora de usar em proveito do crescimento pessoal o que uns (em geral aqueles viciados em pressa) chamam de pasmaceira, aprendendo algo interessante e compartilhando generosamente o que aprendemos.

2010 virou a Roda para que a gente entendesse que há coisas que não podemos controlar e isso nos fez somar mais uma peça ao nosso quebra-cabeças d'O Julgamento; 2011 nos relembrou a arte da diplomacia e nos ensinou a barganhar com os instintos, tornando nossa ressurreição d'O Julgamento menos explosiva; 2012 nos forçou a encarar as celas nas quais nós mesmos nos aprisionamos, expondo portas abertas pelas quais devemos passar, deixando grilhões do passado para trás, se realmente quisermos o reflorescimento potencial do arcano 20; 2013 nos fez lidar com a implacabilidade dos finais, com a estratégia na escassez e com a rigidez do corpo, relembrando-nos que a experiência terrena é uma interação entre mundo visível e invisível e que, para renascer, é preciso morrer para o que limita ou detém nosso florescimento pessoal genuíno.

O ano que vem, para mim, traz uma folga no âmbito pessoal. Se você for capaz de entender a bolha protetora d'A Temperança, em vez de reclamar da falta de agito; se a usar para melhorar a si mesmo e aos seus, o anjo da sua imagem trabalhará a seu favor e fará a vida fluir mais pacificamente.

No âmbito trivial geral ou mundial, desculpe, mas falando francamente, tudo parecerá igual. Desastres evidentemente ocorrerão, haverá guerra em algum lugar do mundo, uns ganharão muito dinheiro, enquanto outros sofrerão com a falta dele, alguém ganhará na mega sena e os bandidos continuarão a agir, enquanto que algumas pessoas iniciarão novos caminhos e relacionamentos, sendo que alguns deles serão ótimos e outros péssimos. Essa é uma previsão realista, pois apenas retrata o que obviamente sempre ocorre...rs.

Em 2014, olhe para dentro e para o seu entorno mais próximo. Olhe do alto e detecte onde pode criar mais espaços acolhedores e protetores; invoque a paz da Temperança. Desvende o enigma do Julgamento somado ao arcano 14, onde oferece-se a possibilidade de usarmos o que é pausa como movimento, um movimento evolutivo e enriquecedor. Na verdade, você verá que é um enigma interessante e profundamente iluminador.

Ivana Mihanovich (*)

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(*) Autora de  O Tarot Luminar

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