Homenagens a Ariano Suassuna: José Nêumanne e Clovis Campelo

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Ariano Vilar Suassuna (Parahyba - atual João Pessoa, 16 de junho de 1927 — Recife, 23 de julho de 2014) foi um dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta brasileiro.

Idealizador do Movimento Armorial e autor de obras como Auto da Compadecida e O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, foi um preeminente defensor da cultura do Nordeste do Brasil.

Foi secretário de Cultura de Pernambuco (1994-1998) e secretário de Assessoria do governador Eduardo Campos até abril de 2014.




O palhaço que foi aula e espetáculo

Certa vez, Ariano Suassuna foi ao Palácio da Redenção, sede do governo da Paraíba, na Praça João Pessoa, no centro da capital, batizada com o nome do maior inimigo de seu pai, João Suassuna. Lá foi barrado à entrada por um guarda instruído para não permitir que alguém adentrasse o recinto sem gravata. De camisa, calça e paletó de linho, como de hábito, o autor de O auto da compadecida, peça em que se baseou o filme de maior bilheteria do cinema brasileiro, retrucou:
— "Olhe, a primeira vez que entrei neste palácio aqui foi nu, viste?"
E era verdade: isso se deu em 27 de junho de 1927 num quarto do prédio decadente e saído do ventre da mãe, Rita de Cássia Vilar Suassuna. O pai, João, era presidente do Estado, como se dizia na República Velha. E ali começou a saga de um professor de aparência sisuda que, ao longo do tempo, de tanta comédia que escreveu para o palco, se tornaria o maior palhaço do Brasil, embora nunca tenha sido humorista profissional. Se o cearense Chico Anysio extraía personagens da observação da vida e os tornava reais, Ariano os punha no palco e, depois, brincava com a troça deles recorrendo à graça na cátedra universitária, nos gabinetes da burocracia e numa cadeira na Academia Brasileira de Letras. E, quando tudo isso apenas se esboçava no menino que berrava nu na sede do poder estadual, se desenrolava a tragédia política nacional, em cujo epicentro o palhaço octogenário também desempenhou seu papel.
João Suassuna, chefe do clã sertanejo de Catolé do Rocha, tinha sido substituído na presidência da Paraíba por João Pessoa, sobrinho do ex-presidente Epitácio, oligarca da várzea do Paraíba do Norte, e destinado a se tornar o estopim da Revolução de 30, que sepultaria a Primeira República para, depois de um interregno de arremedo institucional, mergulhar nas trevas do Estado Novo. João Pessoa, candidato a vice na chapa presidencial do gaúcho Getúlio Vargas, derrotada, foi assassinado a tiros pelo advogado João Dantas, aparentado e devotado dos Suassuna e do coronel Zé Pereira, de Princesa Isabel, que havia enfrentado a bala o poder paraibano, armado pelo federal, presidido por Washington Luís, que se preparava para empossar seu candidato eleito Júlio Prestes quando os políticos mineiros e as tropas gaúchas amarraram suas montarias no obelisco do centro do Rio, mandando o presidente deposto para o exílio. Acusado de manter ligações com os mandantes da morte do herói revolucionário, o pai de Ariano foi baleado e morto no centro do Rio em 1930. Corriqueiro seria vingar o patriarca assassinado, mas dona Ritinha nunca permitiu que a vingança levasse a prole a alguma loucura. Criado em Taperoá, terra da mãe, e, depois pelo resto da vida em Recife, o filho nascido no palácio sempre devotou ódio ao inimigo-mor do pai, recusando-se a chamar a antiga Filipéia de Nossa Senhora das Neves de João Pessoa e preferindo sempre designar a capital pelo nome do Estado, como era useiro fazer antes da Revolução de 30.
Ariano vingou-se em versos. Em 2000, selecionei um poema dele na antologia Os cem melhores poetas do século. Ariano protestou:
— "Não sou poeta, poetas são os personagens dos meus romances".
Como negar, contudo, que era do estro do autor o magnífico soneto (modalidade em que era mestre) em que saudou o pai? “Aqui morava um rei quando eu menino”.  / Vestia ouro e castanho no gibão, / Pedra da Sorte sobre meu Destino, / Pulsava junto ao meu, seu coração”.
A poesia, aliás, nele tudo originou. Em sua comédia teatral mais popular, O auto da compadecida, fundiu três folhetos de cordel, gênero poético popular por excelência. João Grilo e Chicó, os protagonistas, personificam a força do “amarelo”, que enfrenta valentões com sagacidade e graça. E tudo em Ariano tinha graça. Seu livro Introdução à estética, manual de ensino de teoria literária, é um show de erudição com pitadas de humor que rivalizam com as melhores anedotas de outra comédia dele, O santo e a porca .
Na última vez em que o vi no Centro Cultural Maria Antônia, da USP, em Higienópolis, fez uma palestra intitulada "O humor – de Aristóteles a Bergson". Nunca uma plateia, formada por professorinhas de escola pública no interior de São Paulo, imaginou que pudesse rir tanto das peripécias do preceptor de Alexandre da Macedônia e do filósofo francês da virada do século 19 para o 20 com aspecto de agente funerário captado pelos pioneiros da fotografia em preto e branco.
É imenso o acervo deixado pelo intelectual que tornou Paraíba e Pernambuco, inimigos em 1930, um Estado só. Mas tudo pode ser resumido numa Aula-espetáculo, título do documentário de Vladimir Carvalho, que se tornou seu cavalo-de-batalha nos últimos anos. Mais do que dramaturgo, romancista (do genial A pedra do reino), professor, acadêmico secretário estadual da cultura ou mesmo o humorista em que se transformou já velho, Ariano foi, ao mesmo tempo, uma aula viva estupenda e um permanente espetáculo folgazão de inteligência, vida, senso de humor e savoir-faire.

José Nêumanne Pinto



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Seu Ariano

E lá se foi seu Ariano. O mês de julho, fica assim marcado por mais uma morte literária. Um autor que soube fazer a junção da cultura erudita com a tradição oral da cultura popular. Juntou tudo, colocou no liquidificador da imaginação e criou, entre outras coisas, o Movimento Armorial.
Lançada em 1970, segundo definição do próprio Ariano no Jornal da Semana de 20 de maio de 1975, a arte armorial seria aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico da literatura de cordel, com a música de viola, rabeca ou pífano que a acompanha, e com a iconografia das xilogravuras que ilustram as suas capas.
Alguns podem até questionar que esta teria sido mais uma apropriação indébito da arte do povo por um autor pequeno burguês, muito embora tenha resultado em obras fantásticas e de grande identificação como o imaginário do homem nordestino da classe média.
Outros, podem até classificá-lo como xenófobo, haja vista a sua aversão pelo “modernismo” influenciado por culturas alienígenas. Quem não se lembra, por exemplo, do questionamento que teria feito a Chico Science sobre a adoção de tal nome: “Por que não Chico Ciência?”. Quem não se lembra, por exemplo, que sempre desconsiderou a Bossa Nova como um movimento musical autenticamente brasileiro, acusando-a de descaracterizar a MPB sob a influência do jazz? Quem não se lembra, por exemplo, da aversão que nutria pelo Movimento Tropicalista dos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, por achar que avacalhava a cultura brasileira expondo os seus ridículos e contradições?
Poucos se lembram, porém, de que a tradição cultural popular nordestina está enraizada na cultura portuguesa medieval, transplantada para cá por nossos invasores e colonizadores. Nesse sentido, mestre Ariano “apenas” recusava-se a aceitar as influências modernizadoras da nossa cultura, reconhecendo como autêntico somente o que se manteve inalterado ou pouco modificado pela passagem do tempo.
Poucos se lembram também que embora professasse ultimamente o credo socialista, resultante da aproximação que teve com o ex-governador Miguel Arraes, do qual foi vizinho no bairro de Casa Forte, nos anos 70, anos de chumbo da ditadura militar, foi secretário de cultura no governo biônico do prefeito Antônio Farias, entre 1975 e 1978, além de sócio fundador do Conselho Federal de Cultura, em 1967, indicado pelo reitor Murilo Guimarães da UFPE.
A aproximação com o ex-governador Miguel Arraes no início dos anos 90, aliás, levou-o a ocupar o cargo de Secretário Estadual de Cultura.
De agnóstico à cristão, de integrante do governo militar da ditadura ao credo socialista, assim foi Ariano Suassuna. Subindo o Morro da Conceição para homenagear a Santa ou dando as suas aulas-espetáculos nas universidades brasileiras, marcou presença na vida cultural brasileira dos séculos XX e XXI.

Clóvis Campêlo











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