O CASO DA VELHINHA E OUTROS CASOS




Quando C. entrou aquela velhinha veio junto com ele. 

Podia ter mais de 80 anos e não parecia moradora de rua. Chovia e fazia frio naquela noite.

– Preciso descansar um pouco, disse ela. Atravessou o jardim e sentou-se na porta do prédio.
A velhinha disse que morava em Rio das Pedras, o que significa do outro lado da cidade.
C. entrou em casa e preparou um grande sanduíche para ela. A vizinha foi fazer um café.
Como a velhinha tremia de frio, alguém mandou uma grossa japona para vesti-la. O surfista do andar de cima trouxe um cobertor pesado. Agasalharam-na.
Mas o síndico chegou e disse que ele não podia ficar ali, na porta do prédio. O segurança da rua veio e recomendou, mal-humorado:
– Chamem a polícia. Digam que ela está agressiva!
Chamaram a polícia, que chegou portando rifles AR15 e coletes à prova de bala.
– Vieram me prender? – gritou, já nervosa, a velhinha.
Os policiais nada puderam fazer, se renderam e se mandaram.
– Ela não consegue nem se levantar, disse um policial.
O pessoal do prédio chamou o Corpo de Bombeiro, que veio e recomendou uma ambulância que, com a delicadeza das paramédicas, finalmente levaram a velhinha numa maca.
Mas aquilo durou a noite toda.
Já eram 2 da madrugada e eu não consegui mais dormir, vendo a minha covardia e lembrando-me de como tudo era diferente na década de 60, quando fazíamos coisas hoje consideradas loucuras.
Em Copacabana, alguém colocou um mendigo para dormir na sala no meio da noite. No dia seguinte, saiu para trabalhar e o mendigo foi junto tomar o café da manhã na esquina.
Dormiu na sala mais duas vezes e depois sumiu.
No Bar Bofetada, em Ipanema, como estava só, jantei com meninos de rua que mandei sentarem-se na minha mesa.
E por aí vai. Todo mundo fazia essas coisas.
Que mundo diferente era aquele?
Porque ninguém tinha medo de ninguém?
Hoje, uma velhinha...

Rogel Samuel

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