TUDO MELHORA TODO O TEMPO?





A vida não nos permite nenhuma outra alternativa do que caminhar sempre na linha reta do tempo. E, se o futuro a Deus pertence, o passado é nosso, um velho filme guardado nos porões da mente, podendo ser resgatado a qualquer momento.
Se o futuro é uma página em branco aguardando o seu desenho, o script do passado não pode ser modificado, a não ser pela imaginação. Todo esse processo se dá aqui e agora, no momento fugidio do presente.
Só nos resta, assim, caminhar para o futuro, para a frente, mesmo sabendo que lá, em alguma esquina do tempo, encontra-se o lance final, o umbral da transformação solitária. Para onde vamos? Sabe-se tanto quanto de onde e por que vinhemos!
Esse questionamento inútil é privilégio (ou sofrimento) que contempla apenas o ser humano. Divagamos, subjetivamos e sofremos por isso. Para que angústia diante do inevitável da vida?
Mesmo assim, é de bom alvitre pensar que tudo melhora todo o tempo. Se nos é dado o direito de criar mecanismos compensatórios, esse pode ser um deles. O acervo memorialista do indivíduo (e talvez de todo o coletivo humano) é sempre definido pelo que já se passou. Os bons momentos vividos e as realizações gratificantes insistem em se repetir. Por seu lado, as experiências negativas e traumatizantes criam em nossos inconscientes bloqueios defensivos e isolantes. Assim, instintivamente, tendemos a repetir o que achamos que pode ser certo e satisfatório sempre. Não entendemos, dialeticamente, que o que mantém a vida pode ser o mesmo que a ceifa. Do mesmo modo, a ameaça imaginada também pode ser a salvação. Ao nosso racionalismo, alimentado por séculos, não cabe entender isso.
O ideal seria alimentarmos a indiferença diante do que nos foge ao controle. Até porque talvez não exista controle algum sobre nada. A ideia do controle generalizado seria mais uma tentativa desesperada de sobrevivência do nosso ego (sem o corpo, ele não mais existe).
Talvez, como diria o poeta Bandeira, só nos reste relaxar e dançar um tango argentino. Chega de enganarmos a nós mesmos. Afinal, pior do que está ainda pode ficar. O somatório da experiência humana é que nos diz isso. Por que, então, insistir em nadar contra a corrente do tempo retilíneo?
Ou então colocar na vitrola aquela canção do Roberto. É preciso saber viver. Sem medos e sem ódios. Exercitar o olhar calmo dos mártires diante do inevitável.
Talvez entender que viver é praticar a capacidade de suportar a vida no que ela ainda não nos mostrou de pior. Resignar-se como o cordeiro a ser imolado.
Deixemos que os quatro fabulosos continuem a cantar “Is getting better all the time”!


Clóvis Campêlo

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