Magra nostalgia

 

       

  Tendo em vista os recentes reencontros parisienses com amigas e amigos brasileiros. Tendo em visto o teor - e a repetição - de certo tema nas matérias das revistas semanais, que tardam mas chegam, acabo de chegar à seguinte conclusão: não há mais gordos no Brasil.
          A gente bem que tenta ser um ser complexo, fugir dos estereótipos, enriquecer a alma. Mas tem um fundozinho simples em nós. Ainda bem. E pode ser meia dúzia a soma de tudo aquilo que o exilado deseja reencontrar nessa vida.
          O jeito da mulher brasileira sempre fez parte de minha meia dúzia. Há mulheres bonitas em toda parte, é óbvio, basta olhar. As escandinavas são escandalosamente presentes. As italianas têm pernas que jamais acabam. E foi uma russa que vi ganhar o concurso de beleza no hotel de Creta. Chama-va Anatva, e parecia não ter defeitos.
          A francesa tem o seu estilo: a maquiagem, o cabelo curto, a língua fazendo seus bicos, o ar de quem sabe. Mas não a francesa na praia. A francesa na praia perde o estilo. Nada se salva. Na parte de cima, o topless dá os seios mesmo. Sem sugestão, sem erotismo, espécie de pornografia dura e crua nas praias duras de pedra. Se nada em cima, muito em baixo. E a parte de baixo do biquíni é um calção enorme que apaga os indícios da transição coxa com bunda. Em cima enfim o excesso de realidade não deixa imaginar. Em baixo é a falta que impede. Na praia francesa, resta ler. Nada pode ser mais trágico.
          Vontade, é claro, de rever o passeio no verão de uma brasileira. A bem do estereótipo, do dia-a-dia, bem da praia. Quase nada e quase tudo. Tudo, enfim.
          Mas o desejo é também um leque e tenho um xodó pelas cheinhas. As gordinhas. As gordinhas sensuais de simpáticas, que se lixam para a forma polida. Que chegam com o riso gordo, a piada aberta, a história em si, o mundo apenas. O corpo passa na tarde. O mundo fica nelas. E nisso as acompanham os gordos, e o mundo seria um tédio sem eles. Sem nós. Como uma imensa praia reta, sem fim.
          Querida X veio à Paris há quatro meses. Estava malhada como sempre foi. Outono ia adiantado. Não botou biquíni, é claro, mas o vestido torneando o seu corpo não nos enganou. Mas querida Y era daquelas limite, nem gorda, nem magra, no ponto. Veio há três meses, fora do ponto. Está magra, esquelética, um espeto mas não um espeto, porque reformada em cada ponto: silicone em baixo e em cima. E tem querida Z, que acaba de vir me visitar, e foi mais além. Da obesidade chegou na magreza, e continuou seus retalhos. Fez lifting, lipo, coisa que o nome nem sei.
          Seguido uma revista fala disso tudo. Parece que os homens estão no mesmo barco, e o barco ruma na direção do corpo perfeito. As imagens me aliviam por um lado, trazendo aquela mulher da meia dúzia de minha nostalgia. E que tenho a certeza de reencontrar, no Leblon ou em Capão.
          Tira-me o sono é essa sensação de que não passará disso. Não virá o riso gordo. A despreocupação da tarde. A tarde dourada não de sol, mas belisquetes. O pastelzinho engordurado comido pela gente e pelo outro. O outro tão barrigudinho como a gente, como se a vida fosse isso e não aquilo.
          Medo de reencontrar o Brasil sem nenhum gordinho. O Brasil sem graça. Como uma praia reta e infinita, afogada no esforço sem nenhuma pausa para um croquetinho ou uma gorda anedota.

Celso Gutfreind

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