Beauvoir, Maiakovsky, Barros, Frazão, Rodrigues, Meireles

 

Falecimento de Simone de Beauvoir (1986, Paris), depoimento de Lygia Fagundes Telles

 

Simone de Beauvoir

 

Falecimento de Vladimir Maiakovski (1930, Moscou)

Vladimir Maiakovski

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Dia da América e Panamericano, Nel Meireles

Temática ecológica: Sandra Lira Rodrigues

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Auto-Retrato Falado

Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco
              Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do chão,
              pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
              entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
              sinto como que desonrado e fujo para o
              Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não
me achei - pelo
              que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de
              gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer no moral, porque só
              faço coisas inúteis.

                   Manoel de Barros

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O Revólver dos Beatles

No ano de 1966 ganhei dos Beatles um revólver. As pessoas da casa nunca tinham visto uma arma tão estranha. Não era de aço, não tinha cano nem tambor. Mas como era certeira! Se o apontasse para o taxista ele não corria perigo. A senhora Eleonor Rigby (uma inglesa que morava no apartamento ao lado) não precisava esconder a carteira dentro do sutiã, o dorminhoco do segundo andar podia dormir tranqüilo, e aqui e acolá se estabelecia a ordem. Os marinheiros navegavam em submarinos amarelos, as moças diziam o que queriam dizer, e os dias sempre amanheciam ensolarados.
Embora não tivesse calibre nem balas, o revólver que ganhei dos Beatles era mais poderoso do que qualquer canhão. Dos seus tiros os pássaros não fugiam e ao som do tiroteio qualquer passarinho podia cantar. O revólver não tinha dono. E por mais que o Dr. Robert (o americano do oitavo andar) afirmasse que ele era só seu, a verdade é que não era só dele. Era nosso e de quem o quisesse na sua vida. E como se quis! Mas como do amanhã ninguém sabe, chegou o dia que o colocaram de lado. Trocaram-no por um tal revólver de um certo Dr. Colt. Um homem sisudo, amargo que nem fel. Dizem que sofria dos males da bílis e das alucinações das enxaquecas.
Não sei se por causa do amargor dos tempos ou de uma sociohepatite endêmica, as pessoas guardaram o revólver dos Beatles nas gavetas e encaixaram o do Dr. Colt nas cartucheiras. Os marinheiros pintaram de cinza o submarino amarelo; a senhora Eleonor Rigby mandou colocar três trancas na porta; o taxista que a servia deu de ter medo dela e dos outros passageiros; o dorminhoco passou a sofrer de insônia; John Lennon foi abatido na porta de casa e a polícia e os bandidos se espalharam por aqui e acolá.
Durante todos esses anos preservei na vitrola o revólver que ganhei dos Beatles. Vez por outra o empunho... quando os tempos estão sombrios e o mundo precisa dar uma chance à PAZ .

Marcia Frazão

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