Vende-se o Natal por falta de Jesus

 

O título acima deveria ser o último verso de um poema (como um grand final para o final do Natal), que nunca saí fiz, talvez porque não haja muito a falar além disso, ou talvez porque o eco do borborinho das lojas cheias chegue até o decassilábico e atrapalhe. Parece que a cada ano as vendas natalinas acontecem mais cedo (este ano no final de outubro já havia promoções) e o compre compre-compre torna-se obrigatório, irresistível, catártico. Nem árvores mais se armam, porque elas já vêm armadas, para poupar tempo. Onde aqueles pares de mãos que se  juntavam pelo menos neste momento para enfeitá-las? Não sou saudosista, gosto muito de viver o meu tempo, mas sinto falta do convívio natalino, da participação individual e coletiva para a chegada da "noite feliz", e confesso que me irritam profundamente as liquidações, remarcações, ofertas a preços de bananas... e que bananas caras, meu Deus! Eu falei Meu Deus? Pois é, em geral só nos lembramos nesta época de Deus Filho para lamentarmos não poder comprar mais e mais e mais...

Os símbolos do Natal estão cada vez menos cristãos, e o Papai Noel é muito mais esperado do que Jesus — já vi perguntarem: cadê meu presente?, mas nunca ouvi: cadê o aniversariante?, ou: cadê meu presente que vou dar a ele? As ceias em geral ostentam, em vez de congregarem; e há quem nem festeje mais o Natal, sob a esfarrapada desculpa de que Natal é todo dia, embora comemore religiosamente (irresistível o duplo sentido) outras datas. Em qualquer sociedade contemporânea, querer escapar ileso de datas convencionais é enorme utopia, afinal até poupança aniversaria; além do mais, sempre nos lembramos de pagar nossas contas no dia certo, para não arcarmos com os juros — estou linkando o que escrevi uma vez no Yubliss sobre o que chamo de calendariofobia. Ou será que, para sermos diferentes, só esquecemos de algumas datas, justo as que podem nos trazer de volta o saudável ritual da celebração? Tenho a impressão de que estamos ficando tão descompromissados com nossas emoções que muitas vezes tememos que a alegria nos fragilize, nos contamine, ou nos corrompa...

Penso que nenhuma comemoração deveria ser uma dia comum. Natal não é um dia como outro qualquer. Pelo menos, não deveria ser, para quem, cristãmente, deseja um mundo mais pacífico, fraterno e amoroso. No entanto, a cada ano ele está mais banalizado, mais consumido, em todos os sentidos. O que persiste em nos lembrar o seu significado é ainda a Missa do Galo transmitida pela televisão, mas que também cada vez perde mais audiência para os mega shows musicais, apresentados no mesmo horário pelas emissoras concorrentes.

Publicado no blog do Yubliss (http://www.yubliss.com/blog/5993)

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