Rubens da Cunha e Novais Neto

 

 

A máscara

                 Pessoa vem de personae que é mascara em latin. Máscara vem do árabe sáhara,que é trapaça, burla, ou palhaço. Pessoa, personagem, máscara, palavras cujas origens se confundem num passado remoto e que, ainda hoje, andam grudadas. Somos todos máscaras. Somos todos personagens a cada instante. Tolos personagens feitos pelos discursos, ora mentirosos, ora propensos a uma sinceridade também fictícia. Somos todos máscara, esse objeto ancestral. Esse segundo rosto que inventamos para chamar a atenção dos deuses. Ainda hoje, em recônditos perdidos, velhos mascareiros entram em transe ao compor uma máscara. É como se fosse um ritual sagrado, um espaço de magia que se instaura entre o homem e a imagem que logo será seu rosto. É como se o rosto não fosse suficiente, como se a máscara natural que carregamos fosse muito frágil para dar conta do mistério: é preciso aumentar o rosto, enfeitá-lo, endurecê-lo com madeira, couro, tecido, ou outro material que vá além da carne.
                 No teatro a máscara exerce um papel grandioso. A máscara acompanha a milênios a história dos palcos: dos gregos aos personagens da Comedia dell'Arte, a máscara é um objeto cênico difícil, quase aterrorizante para os atores que tem que se esconder atrás delas e, ao mesmo tempo revelar-se, expor-se, pois que a máscara é poder, libera o poder que carregamos dentro. Não apenas o ator. Qualquer um que coloque uma máscara, que seja destituído de sua identidade principal ganha poder. Não é por acaso que a máscara acompanha bandidos e heróis. Os bandidos mascaram-se para que o crime seja efetuado sem identificação. Os heróis mascaram-se para que, no anonimato, a justiça seja feita e os louros não sigam para um homem ou mulher, mas para a máscara. É assim com o Máscara, o Zorro, o Batman, o Homem Aranha e dezenas de outros heróis da cultura pop. Heróis mascarados, heróis como o Super Homem que consegue mascarar-se com um óculos, justamente quando não quer ser um herói. Se o nariz vermelho do clown é a menor máscara do mundo e, ao ser colocado por um bom ator, a pessoa física desaparece, surgindo então um dos personagens mais fascinantes da arte, não é de surpreender que o óculos de Clark Kent tenha o mesmo poder de fazer desaparecer o homem mais poderoso do mundo, afinal é o poder transformador e hipnotizante da máscara.
                 A mesma máscara que entra no mundo do sexo, do fetiche, daquilo que não pode ser revelado à luz do dia, a máscara dos escuros do desejo, desejo acompanhado de dor, desejo do anonimato, da transformação do corpo em apenas corpo, pedaço incógnito de carne e amor. Somente a máscara tem esse poder, o de revelar escondendo, o de trazer à tona o que a razão insiste em manter nos baixos. A máscara desmascara qualquer um, põe a nu o que somos: de psicopata a bailarino, de amante a agressor, uma máscara sobre a máscara do que somos pode nos levar mais perto da verdade do somos.

Rubens da Cunha

 

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HOMEM

Não sou grande guerreiro
não tenho nervos de aço
o coração não é de leão
e a torcer dou o braço.
Que cabra-macho sou eu
se tanto temo assombração
não sou valente nem covarde
e não ando na contramão.

Não sou um cara-de-pau
não tenho palavra de rei
mas tenho vergonha na cara
e não há rastro onde pisei.

Não gosto de ser machista
e não sou homem sem agá
louvo ainda o feminismo
mas de galo sei cantar.

Minha vida não é um livro
mas quase sempre sou aberto
só não gosto das mudanças
se me ocultam o lugar certo.

                              Novais Neto

Do livro: Ave corrente, Ed. do autor, 1990, Salvador/BA

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