ACASO E PROBABILIDADES

 

Há pessoas que acreditam na fatalidade: cada um tem seu dia, sua hora de morrer. É uma maneira de ver o mundo. O acaso fica de fora. Alguém organiza nossa vida e morte, ninguém tem responsabilidade nisto.Tudo está pré determinado.
Mas há pessoas que, diferentemente, pensam nas probabilidades. Se o asfalto está molhado, se pessoa entra mal numa curva, se o outro carro ultrapassou onde não devia, se motorista tomou alcool, se está estressado ou enxerga mal, se é de noite ou, se passou um cachorro na estrada, se o automóvel não foi alinhado ou tem os pneus carecas, enfim, tudo isto aumenta a probabilidade de acidentes.
Estou convencido que nenhum acidente é fruto de fatalidade, mas de um conjunto de fatores que se agregam de repente. E as quase trezentas mortes na boite Kiss em Santa Maria, no Rio Grande do Sul são uma prova disto.
Qual o elemento aglutinador da tragédia? Onde o acaso entra nisto?
Se por acaso o rapaz da banda não tivesse soltado aquele rojão, nada disto teria acontecido. Todos os outro erros: uma porta só, isopor inflamável, alvará vencido, superlotação, falta de iluminação, seguranças, tudo isto não seria suficiente para detonar a tragédia.
Possivelmente o rapaz que soltou o rojão ja soltou rojões em outros shows e nada aconteceu. Aquela boite deve ter tido superlotação em outras oportunidades, e nem por isto. Os donos da casa noturna, descobre-se agora, tinham ficha criminal e seguiam sua vida normal.
Toda tragédia parte de uma série de transgressões, que se aglutinam em torno de um elemento disparador, que potencializa o desastre. O acaso é essa espécie de reagente químico que precipita a transformação do sistema.
Viver é a arte de controlar ou diminuir os acasos em nossa vida.

Affonso Romano de Sant’Anna

                                                                                    (Radio Metrópole, 31.01.2013)

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