Um ano sem Chico Anísio

 

 

CHICO IMORTAL

           

Sobre o humorista Chico Anysio, cuja morte todos lamentamos, já se escreveu tudo. Ou quase tudo. Quero contar um episódio, até aqui inédito, do qual fiz parte, e que agora, em homenagem a sua memória, vou revelar.
            Nosso conhecimento era distante. Ou quase, pois nunca deixei de assistir aos seus shows, sempre de casa lotada. Lembro particularmente de um deles, no antigo Teatro da Lagoa, ao lado do Drive-in, que não sai da minha cabeça. Talvez nunca tenha rido tanto assim, na minha vida. A cena do pau-de-arara, viajando pela primeira vez de avião, é digna de qualquer antologia de humor universal. Da mesma forma que ele contou, com o seu vozeirão inconfundível, o episódio do atacante do América F.C. (na época, Chico ainda era torcedor do clube de Campos Sales), que perdeu um gol feito, debaixo do travessão, e foi homenageado com um palavrão que lembrava a sua mãezinha.
            Nos idos dos anos 90, recebi do diretor Maurício Sherman, um mito do rádio e da televisão do nosso país, um telefonema para conversarmos, o que sempre foi um prazer. Pensei que se tratasse de algo referente à Rádio Roquete Pinto, da qual ele era diretor, por minha indicação (aliás, a sua primeira secretária, na emissora, foi Marlene Mattos, que então começava a sua carreira de produtora ao lado da Xuxa). Marcamos um almoço e, sem muito rodeio, o diretor do inesquecível musical “Evita” foi direto ao ponto: “O Chico Anysio quer nos convidar para um chá, na casa dele. Não sei do que se trata.”
            Como sempre tive em mente que a “Escolinha do Professor Raimundo”, dada a sua imensa popularidade, poderia ser pretexto para um grande projeto de alfabetização de adultos, em que falhamos até hoje, vibrei com a oportunidade de propor ao Chico uma parceria. Isso ficou só na imaginação.
            Fomos recebidos pelo Chico na porta da sua residência, em São Conrado. Levou-nos para a sala confortável e serviu um chá, que me deixou desconfiado. Aí veio a notícia ou a sondagem, para ser mais preciso: “Arnaldo, você não acha que está na hora de ter um humorista na Academia Brasileira de Letras? Além do mais, escrevi diversos livros, todos com muito êxito. O que é preciso para realizar esse sonho?”
            Tomei fôlego, para dar a resposta adequada: “Chico, em primeiro lugar é preciso ter a vaga. Espero que você não esteja querendo a minha”. Ele riu da resposta e interrompeu o papo para nos apresentar a então esposa, a economista Zélia Cardoso de Mello, com quem depois teria dois filhos. Ela pediu licença e não ficou na sala, dirigindo-se aos aposentos.
            A conversa prosseguiu em clima ameno e contei para ele como as coisas se passavam (e eram difíceis) na Casa de Machado de Assis. Expliquei que a ABL apreciava o currículo do candidato, suas obras, mas principalmente considerava vital o convívio. Que ele aparecesse mais entre nós, para viabilizar a candidatura. Isso não aconteceu. Hoje, quando sentimos muito a sua morte, existe a certeza de que ele está ocupando lugar de destaque entre os imortais do céu.

 

Arnaldo Niskier

 

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