Nascimento de Afonso Celso (1860, Ouro Preto/MG)
Nascimento de Octavio Paz (1914, Cidade do México/México)
Dia da Integração Nacional, Márcia Sanchez Luz
Literatura
Poesia
Temática flores: Ruy Espinheira Filho
Prosa

Estou sentada no mesmo lugar, ou seja, na minha cadeira de pensar que, na verdade, é uma poltrona. Sinto-me como se aguardasse algo que não sei do que se trata, mas que é importante. Estou certa de que o inusitado está por acontecer.
À frente uma extensa mesa, com uma jarra de porcelana ao centro, seis cadeiras vazias e uma paz diferente invadindo o lugar.
Por uma porta lateral, uma pessoa adentra, vestida de uma túnica acetinada, um capuz que esconde os cabelos e parte do rosto, não me permitindo, num relance, identificar o seu sexo.
Caminha alguns passos, surge a segunda, a terceira até o número fechar em seis, todas portando roupas semelhantes, porém exibindo nuances de azul do mais escuro ao mais leve. Tomaram seus assentos à mesa, sem titubeios, como se o lugar de cada uma estivesse previamente demarcado. Não se entreolharam e não abriram a boca.
O que se sentara na primeira cadeira à direita estendeu o braço e me entregou um objeto. Era um caleidoscópio . A cada movimento, imagens e lembranças pululavam em minha mente, como se brotassem de cada faceta. Lembrei-me de um semblante firme, traços definidos, um sorrir discreto. Senti a presença de um amor que foi devotado à esposa paralítica até o último dia de vida, aos filhos a quem orientou e disciplinou no bem. Homem avançado para sua época, inteligente, fez da medicina alternativa o método natural para tratar seus filhos e criá-los com saúde. Amoroso, sem ser efusivo, politizado, integralista por convicção, meu avô paterno me visitou naquele presente.
Em seguida, a segunda pessoa me entregou uma pirâmide, refletindo em cada face uma cor diferente: fixei-me nos reflexos que se enfeixavam rapidamente. Projetou em mim a imagem de um rosto sereno, olhar cândido e feliz de quem muito amou e se fez amar. Um coração que acolheu e amou a estranhos e lhes devolveu a dignidade como seres humanos. Senti de perto a velha paciência que suportou uma cadeira-cama de rodas, sem queixas e sem gemidos, outrora tão ativa e lúcida, minha avó paterna.
A terceira veio trazendo uma estrela. Entre um cintilar e outro, senti a presença de um espírito forte, guerreiro, sofredor, mas não vencido. Capaz de narrar um acontecimento passado em sua vida, com cores atuais, repetidas vezes, sem, porém se repetir. Entre as palavras, gargalhadas sacudiam-lhe o corpo pequeno, como se a vida não lhe tivera aberto tantas feridas. Ressaltou-se a força de sua paixão pelo esposo, meu avô materno, que atravessou e venceu o tempo e as tempestades da vida.
O quarto presente era um dado. Cada ponto negro, à medida que era manuseado, irradiava uma alegria, como a de viver sem igual, que ele carregou até que sua amada faleceu, indo-se ele pouco depois. Um solo de violão, como o que ele tocava, invadiu os ouvidos da alma. Vi seus dedos que feriam as cordas com paixão e destreza e ouvi sua voz que irrompia da abertura central do instrumento, como a oferecer à companheira, o seu melhor. Meu avô materno era leve de sentimentos e como uma pluma pousou no meu coração.
Os que se haviam manifestado até aquele momento mantinham-se silentes em seus respectivos lugares, como se orassem a Deus, naquele instante tão irreal, como o sonho jamais conseguiria ser.
Da quinta cadeira alguém se adiantou, portando uma bússola. A cada passo em minha direção, o ponteiro oscilava freneticamente entre os pólos, como se fossem desprender com o movimento, espargindo cores e perfumes, que se sucediam entre o adocicado, o amadeirado e o cítrico. Revi mais que um par de verdes olhos, mas um olhar esperto, especulativo, intenso, capaz de perceber além das evidências e perscrutar mistérios muito além das aparências. O perfume vinha do amor que ela nutriu pelos seus, pelo próximo e em prol dos mais fracos, o amor que ela muitas vezes dissimulou invadiu a todos naquele momento e nos sentimos melhor. Ao norte e ao sul, enxerguei folhas e flores em profusão, como as que ela amava e cuidava; oscilando entre o leste e oeste, senti o calor das chamas do conhecimento que ela buscou tardiamente nos livros e nos estudos, minha progenitora.
Os outros cinco se deram as mãos enquanto esperavam a oferenda do último mensageiro. Naquela penumbra, não identificara nenhum rosto; sob as luzes intensas, muito menos, mas nada disso interessava. Eis que se aproxima alguém empunhando uma lanterna. Os raios multicores pareciam bailar, como um facho que acompanha um bailarino. Percebi que era o brilho da honradez, da honestidade, da firmeza do caráter desse que foi exemplo de retidão que o acompanhou até o leito de morte. Vislumbrei gestos firmes, decididos, ouvi palavras como a indicar e corrigir passos e de compreensão. Meu coração de filha o reconheceu e reverenciou cada gesto que emanava de sua lembrança.
Quando quis dizer algo, se levantaram de repente e saíram cabisbaixos, conforme entraram e nada pude perguntar.
Uma voz gritou meu nome, ao mesmo tempo em que me sacudia para que eu acordasse. Meu filho chegara da rua e me encontrou dormindo naquela poltrona. Esfreguei os olhos para certificar-me onde estava, sem entender o que acontecera. A única novidade eram seis rosas da jarra de porcelana que perfumavam a sala que, segundo meu marido, alguém deixara na porta da sala, sem nenhuma mensagem e sem qualquer identificação. Foi um presente inesquecível para mim, neste dia...
Dora Tavares
Nota de falecimento: Millôr Fernandes (dia 27).
Morreu na noite dessa terça-feira, dia 27, no Rio de Janeiro, o escritor carioca Millôr Fernandes. Ele tinha 87 anos e teve falência múltipla de órgãos em sua casa.
Segundo o jornalista da Band Ricardo Boechat, que conversou com o filho de Millôr, Ivan Fernandes, o corpo do escritor permanecerá hoje em uma funerária e será velado nesta quinta-feira, dia 29, a partir das 10h, no cemitério Memorial do Carmo, no Caju, zona portuária da capital. Em seguida, às 15 h, o corpo será cremado.
Veja imagens da trajetória de Millôr Fernandes
Em 2011, o escritor foi internado duas vezes na Casa de Saúde São José, também no Rio, mas os motivos da internação não foram divulgados.
Em entrevista ao canal GloboNews na manhã de hoje, o jornalista Zuenir Ventura lamentou a morte do amigo. "É realmente uma perda. A perda de um gênio. É uma perda para o jornalismo, para o teatro, para a literatura, porque o Millôr fazia tudo", afirmou.
Talento multifacetado
Além de escritor, Millôr também foi desenhista, jornalista e dramaturgo de destaque.
Nascido em 27 de maio de 1924 - segundo sua certidão de nascimento, mas a família diverge sobre o registro da data correta - o escritor ficou órfão de pai um ano depois e aos dez anos perdeu a mãe. Com pouca idade, viu sua família se separar e cada irmão teve de ir morar com um parente.
"Morto meu pai. Nessa idade a orfandade passa impressentida. Mas a família - mãe com quatro filhos - cai de nível imediatamente", escreveu o jornalista na biografia apresentada por seu site oficial.
"Morta minha mãe. Sozinho no mundo tive a sensação da injustiça da vida e concluí que Deus em absoluto não existia. Mas o sentimento foi de paz, que durou para sempre, com relação à religião: a paz da descrença", acrescentou ainda sobre as perdas.
Aos 14 anos, entrou na carreira jornalística e aos 19, na revista "O Cruzeiro", que viu em seis anos sua tiragem subir de 11 mil para 750 mil exemplares, tornando-se uma grande influência na formação da opinião pública no Brasil.
Em 1957, aos 33 anos, expôs seus primeiros desenhos no Museu de Arte Moderna.
Millôr também for um dos criadores do jornal "O Pif-Paf" que, apesar de ter durado apenas oito edições, é considerado o ínicio da imprensa alternativa no Brasil. Colaborou ainda ativamente com "O Pasquim", publicação de forte oposição ao regime militar.
O escritor ainda traduziu várias peças de Shakespeare, tornando-se referência no meio teatral. Também colaborou em jornais como "O Globo" e "O Estado de S. Paulo", além da revista "Veja".
Na virada do século, lançou seu site oficial "Millôr Online". Mesmo com a avançada idade, foi sempre ligado a internet, às redes sociais, e possuía conta no Twitter com mais de 360 mil seguidores.
Frases:
Literatura
Poesia
Prosa
Site de Leila Míccolis
Nova coluna no Yubliss: "Uma coruja pousou em minha tese" -- se comentar, assine
Abaixo-assinado para criação de hospitais veterinários públicos, assine e divulgue
venham, poemas, líricos, idos, tidos
desusados
venham das gavetas das estantes do passado
venham a mim
todos
esquecidos não lidos poemas das bibliotecas
em milhares em milhões de seus versos
suas muitas vozes muitas rimas e
imagens
eu os amo, poemas perdidos
eu os amo
e poderia lê-los todos
se me dessem tempo de vida
todos
me esperam em fila nas bibliotecas velhas
nos seus esquifes-livros
finalmente fechados
quem os lerá?
quem saberá?
venham a mim, venham
de todas as partes
em todas as línguas
com todas as suas finas rimas
Rogel Samuel
Falecimento de Roland Barthes (1980, Paris/França)
Frases da semana
"A verdade existe. Só a mentira pode ser inventada" - George Braque
"Há momentos em que calar é mentir” - Miguel de Unamuno
Biblioteca Virtual Blocos
Espaço de divulgação de livros e jornais que recebemos pelo Correio
Literatura
Poesia
Temática mensal poetas/poesia: Rogel Samuel
A palavra palavra
Nada existe fora da linguagem. Usamos a linguagem para explicar, entender, descrever, sentir. De uma forma ou de outra tudo sempre acaba se tornando palavra. É nosso jeito de estar no mundo, de ser o mundo.
A palavra “palavra” vem do grego parabolé, transformada no latim em parábola. Aquela mesma tão comum aos cristãos, já que Jesus falou muito através delas. A palavra acompanha a humanidade desde sempre, são milhares em cada idioma, vão se perdendo, se transformando, nascendo e renascendo enquanto o idioma estiver vivo. Normalmente não damos muita atenção às palavras, não percebemos que elas são feitas de dois elementos: o significante e o significado. Este último é, obviamente, o que a palavra quer dizer, o que ela significa, já o significante é o seu som ou como ela é “desenhada” sobre o papel. É justamente nesse ponto que não prestamos muito atenção: na beleza ou na feiura das palavras distanciadas de seu significado. Por exemplo, “aspereza” não tem um significado muito interessante, mas sonoramente e graficamente é belíssima, totalmente equilibrada, tanto no som quanto na escrita. E assim acontece com milhares de palavras, basta abrir o dicionário e se deliciar com lesim, ordálio, rezingar, trelência, palavras cujos significados escondem-se pelo pouco uso, mas com significantes que podem nos lançar em lugares que só a imaginação pode levar. A poesia faz muito isso: retirar a palavra de seu lugar comum e lançá-la no mundo vasto da metáfora.
Mas palavras não são apenas essas unidades gráficas e sonoras que podem ser vistas isoladamente, poeticamente. É com a palavra que sustentamos sistemas, religiões, fanatismos, amores, democracias, justiças e injustiças. A palavra está na base das artes, não apenas da literatura, mas está também nos pequenos gestos: é com a palavra que ferimos, salvamos, afagamos ou ofendemos, amamos, perdemos e ganhamos. A palavra não é algo que a gente apossa, a palavra não nos pertence como um objeto ou uma escolha, nós somos palavras, nosso pensamento é palavra, nós não temos uma linguagem, nós somos uma linguagem. Até mesmo Deus é palavra, tanto como já anunciado nos belos versos do apóstolo João (1,1): “no começo a Palavra já existia: a palavra estava voltada para Deus, e a palavra era Deus,” quanto na crença ou descrença: argumentos contra ou favor da Sua existência acontecem pela palavra. Não há escapatória.
Estamos tão imiscuídos com a linguagem que esquecemos muitas vezes de olhá-la com um pouco mais de carinho, de perceber sua força mas também a sua fragilidade, de perceber seus meandros, seus caminhos e descaminhos. Muitas vezes usamos a expressão: “faltam-me palavras”, não acredito que possam faltar palavras, talvez falte memória, leitura, poder de concisão ou descrição, mas palavras nunca faltarão. Pode haver um número finito delas no mundo, se contarmos as palavras de cada idioma na terra, uma hora vai acabar, mas o que nunca acabará é a capacidade humana de inventar, de criar, de desdobrar cada palavra em outras. Enquanto tivermos essa habilidade nos manteremos mais do que seres humanos, seres palavras...
Bruxelas, 26 de agosto de 1856
Caro filho e irmãos do meu coração,
O mês de agosto, que (sabem vocês) é tão funesto à minha felicidade, pela tríplice perda que imprimiu em minha existência, começou este ano mais triste e doloroso do que nunca. O coração confrangido, o espírito sempre abtido pela dilacerante recordação da morte da melhor das mães, eu via aproximar-se o primeiro aniversário do dia que a roubou à minha ternura.
Vocês haviam pensado que Paris exerceria em mim sua costumeira magia. Pois bem, revi-a com indiferença; tornou-se-me monótona e quase insuportável, à medida que o triste aniversário se avizinhava. O abalo cruel que sacudiu todo o meu ser moral mantém-me ainda incapaz de apreciar, como outrora, a vida intelectual de que se frui nesta Atenas moderna.
Era-me necessário percorrer novos países, nele haurir novas impressões, sob um horizonte mais amplo, em atmosfera mais livre e, conseqüentemente, mais consentâneas com minhas preferências. Importava-me, enfim, ver uma terra-tipo, cujo aspecto sério e respeitável se impusesse a meu espírito pela riqueza de sua natureza, pelo passado grandioso e pelos costumes ainda patriarcais de seu povo. Vocês vêem naturalmente que me decidi pela velha e poética Germânia, a digna pátria de Leibniz e Kant.
Propondo-me realizar uma perigrinação ao túmulo de venerável amigo, o sábio e bom Duvernoy, preferi entrar na Alemanha pela Bélgica e sair por Kehl, para ir de Estrasburgo a Montbéliard, onde ele quis ser enterrado e onde sua virtuosa viúva me espera para, após minha viagem à Alemanha, retornar comigo a Paris. Sinto que as emoções dessa visita lutuosa, misturadas às que este triste mês me fez experimentar, me teriam incapacitado de ir além.
Pelas oito horas da manhã, anteontem, 24 de agosto, fechei minha correspondência do Havre para vocês e, entregando a casa à ciada, tomei, com minha filha, uma carruagem que nos conduziu à estrada de ferro do Norte, verdadeira Babilônia de viajantes indo e vindo de todas as direções da França e do exterior.
Enquanto eu pagava os bilhetes e cuidava da bagagem, estavas lá, diante de mim, ó filho dileto, tu que te encarregavas outrora dessas tarefas, quando eu tinha a felicidade de viajar com mais dois filhos. Agora, minha diligência substituía a tua, que me envaidecia tanto, quando te contemplava desembaraçado, sério e altivo como um jovem do Norte. Desta tua atividade eu esperava sempre melhores dias para tua mãe...
O sinal de partida arrancou-me de meus pensamentos. Apresso-me em tomar nossos lugares e, um instante depois, o trem voava sobre os trilhos, deixando apenas o tempo suficiente para contemplar as paisagens que se sucediam, ainda sem interesse, sob nossos olhos.
Já haviam desaparecido atrpas de nós Amiens, depois Arras, com suas reminiscências históricas, a primeira exibe seus canais, fábricas e linda catedral, a segunda evoca o fantasma ainda vivo de Robespierre. Em Valenciennes, paramos mais demoradamente para jantar e ver melhor a velha cidade em que Clóvis III e Carlos Magno realizaram, em 603 e 771, assembléias gerais.
O percurso de Paris a Valenciennes pareceu-me monótono e triste, certamente por causa da disposição de espírito em que me encontrava. A imagem adorada da minha mãe seguia-me na mesma velocidade em que eu rapidamente percorria novos países, em qualquer parte do mundo, ou no silêncio do meu apartamento. Em Paris, ajoelhada diante de seu retrato, rezara durantes alguns instantes, e meus últimos pensamentos haviam sido dirigidos a ela e a vocês. A prece foi íntima e ardorosa. Senti no coração que minha mãe aprovava a viagem. Quando desci em Valenciennes, sua sombra me indicou a catedral e me precedeu lá.
Depois de ter ezado por ela, fomos ver o hôtel de ville, as fortificações e a cidade construída por Vauban. A cidade é muito triste, e o mau tempo contribuiu ainda mais para torná-la assim a meus olhos.
Na direção da fronteira belga, o campo mudou um pouco de aspecto e começou a me agradar mais. A pouca distância de Blanc-Misseron, última estação francesa, e setenta e duas léguas de Paris, atravessamos o limite que separa do solo francês o território belga.
Chegando a uiévrain, primeira estação belga, submetemo-nos às corriqueiras formalidades aduaneiras. A fisionomia do interior das casas começa aqui a mostrar-se diversa: o poêle substitui, geralmente, à cheminée da França, e um ar de limpeza reina por toda a parte.
Como na Inglaterra e em Portugal, experimentei emoções novas, tocando o solo de outro país que não a França; vocês sabem, eu sempre preferi esta nação a qualquer outra depois da nossa.
Mudamos de viatura para tomar um trem belga, cujos lugares de primeira classe são tão bonitos e cômodos como os da França. As cidades, burgos, aldeias, paisagens, toda essa natureza mais ou menos bela, desdobrando-se rapidamente ante meus olhos, lembrava-me os rápidos momentos de minha felicidade, que infelizmente se esvaíram, pobre de mim! apenas eu começava a apreciá-los.
Contemplando essas cenas variadas das paisagens que percorria, esforçava-me por mergulhar o espírito no seu passado histórico, a fim de desviar a tristeza que me roía mais vivamente o coração, nesse 25 de agosto.
Alí esta Boussu, vila louçã, com o castelo que serviu de estada ao jovem Luís XIV, em 1655, quando comandou o cerco de Saint-Ghislain, que caiu em seu poder; aqui, Jemmapes, vaidosa de suas ricas hulheiras, a lembrar a célebre batalha que os franceses, comandados pelo General Dumouriez, ganharam contra o exército austríaco; por toda parte, à minha direita e à esquerda, sucedem-se paisagens interessantes, desenrolando-me uma página dos tempos passados. [...]
Hoje, caros amigos, escrevo-lhes de Bruxelas, onde desembarquei com minha filha, pelas cinco horas, no cais do Sul. Uma pequena viatura, denominada aqui "vigilante", levou-nos ao Hotel da Rússia, onde nos encontramos instalados em belo e confortável quarto.
Passou, portanto, o vinte e cinco de agosto! Sinto agora que, deixando-nos atordoar pelo silvo gritante do vapor em grande rapidez e pelos pequenos embaraços da bagagem, desendo aqui e ali, nas diversas estações, para percorrer às pressas uma cidade ou uma aldeia diferente, podemos desafiar melhor esta legião de tristes lembranças, fundeadas mais cruelmente em nosso coração, no aniversário da morte de meu ente adorado!...
Sinto-me fatigada, e muito! Mas essa lassidão me é salutar. É às custas do físico que o moral talvez ressuscite. O corpo ficou inerte durante muito tempo, durante os combates do espírito e os pensamentos do coração! Agora é preciso que ele se agite, e muito, para ver se poderá restaurar esses dois poderes tão profundamente abalados em mim. Terei sucesso? Vê-lo-emos. Pelo menos vocês tomarão conhecimento dos esforços de minha vontade, para conservar uma existência que lhes é cara. [...]
Mas é a propósito de Bruxelas que agora quero entreter vocês. Não pudemos julgar esta cidade, com base na parte que percorremos do embocadouro até aqui: este trecho é pouco limpo, ocupado pelo comércio da cidade baixa. Assim, se tivéssemos continuado nossa caminhada passando de um cais a outro, não teríamos conhecido o que há de mais belo e notável em Bruxelas, esta cidade, galantemente ataviada em torno de graciosos bulevares e belos edifícios, é edificada, em parte, sobre uma colina elevada e, em parte, em uma rica campina, atravessada pelos vários braços do Sena, rio pequeno em comparação com os nossos. [...]
A limpeza das ruas e do exterior das casas logo me deu uma imagem positiva, principalmente logo que percorremos uma parte da cidade alta: as ruas são regulares, ornadas de ricas lojas, lindas casas e belos hotéis. As praças públicas e os passeios cheios de gente, algumas pessoas exibindo muito luxo e elegância, compõem a fisionomia de uma verdadeira capital da Europa.
Empregamos uma parte do dia visitando os museus de Pintura e História Natural, bem como o Palácio da Justiça. Os primeiros encontram-se no Palácio das Belas-Artes, mais geralmente conhecido pelo nome de "Museu". stá situado ao lado de um Palácio utilizado nas exposições dos produtos de indústria nacional. Nesse momento, há uma muito importante.
O vestíbulo por onde se entra no Palácio das Belas-Artes tem a forma de rotunda. Notável estátua de Hércules acha-se colocada ao pé da grande escada. Os gabinetes de Física e as ricas coleções de História Natural são de grande importância, assim como os quadros e as esculturas. [...].
O Palácio da indústria engloba rica coleção de modelos de toda espécie, máquinas e instrumentos. Um dos lados é ocupado pela biblioteca real que possui (disseram-me) 200.000 volumes impressos e quase outro tanto de manuscritos; estes últimos sofreram, como todas as coisas da Europa, as mudanças dos vencedores, desde o Marechal de Saxe e Dumouriez, até Napoleão I, que restituiu uma parte.
O Hôtel de Ville atraiu bem mais nossa atenção. É um velho edifício que oferece, ainda, apesar das devastações sofridas, uma parte de sua antiga magnificência. Entre as salas suntuosas, a graciosa mulher que no-las mostrava destacou aquela onde os antigos estados de Brabante tinham suas assembléias. Distingue-se pela riqueza e lembranças históricas. Mostraram-nos as chaves douradas, apresentadas a Napoleão quando de sua entrada em Bruxelas, cuja visão suscitará em todo viajante filosófo idéias sérias sobre o nada da grandeza humana. [...]
Nísia Floresta Brasileira Augusta
Do livro: Escritoras Brasileiras do Século XIX, vol. 1, 2ª ed., org. Zahidé Lupinacci Muzart, Editora Mulheres, 2000, EDUNISC/SC
24/03/2012 - 00:00 | Enviado por: Lucyanne Mano
"Traz-nos o telégrafo a notícia de que faleceu em Amiens o conhecido romancista Julio Verne. Quem há dentre nós que não deva ao imaginoso escritor muitas horas de sonhos e maravilhas?
Trazendo no espírito o amor do desconhecido e das aventuras arrejadas, todavia limitou-se a efetua-las, dentro das paredes do seu gabinetes, na calma e no isolamento dos sonhadores".
Julio Verne nasceu na cidade francesa de Nantes. Iniciou estudos de Direito em Paris, mas desistiu de ser advogado para escrever peças teatrais. Apesar de ter produzido algumas obras como Amizade Perdida(1850), como dramaturgo, o sucesso só chegaria treze anos depois. A publicação de Cinco Semanas num Balão (1863) seria o início de seu êxito como romancista de aventuras. A obra, primeira da série Voyages Extraordinaires, apresentava o relato de uma viagem aérea sobre regiões desconhecidas da África Central. Nos anos seguintes, lançaria Viagem ao Centro da Terra (1864), Da Terra à Lua (1865) e Vinte Mil Léguas Submarinas (1870). O apogeu viria com A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873), obra considerada a mais importante de sua carreira.
Além de habitar o imaginário infanto-juvenil de várias gerações, a literatura de Julio Verne é até hoje amplamente revisitada no cinema, no teatro e na televisão.
A volta ao mundo em 80 dias
Em A Volta ao Mundo em 80 Dias, encontramos, ao mesmo tempo, muito da breve experiência de Verne como marinheiro e como corretor de Bolsa. No ano de 1872, Phileas Fogg, membro do Reform Club de Londres, homem metódico e singular, propõe uma aposta comprometendo-se a dar a volta ao mundo em 80 dias. Tarefa quase impossível para a época, dá início a viagem, acompanhado de um fiel subordinado. Seguido por um detective da polícia, que o considera um ladrão, o protagonista vive mil e uma aventuras até chegar pontualmente ao seu destino, vencendo a aposta.
Chico Anysio, 80 anos, estava internado desde o dia 22 de dezembro, após uma infecção no aparelho digestivo. Posteriormente diagnosticado também com pneumonia, em 14 de janeiro foi submetido a uma laparotomia exploradora, e durante o procedimento, retirou-se um segmento do intestino delgado para exames. Desde então, permaneceu em tratamento até falecer nesta sexta-feira, 23 de março de 2012, em decorrência de falência múltipla de órgãos, chegando ao fim a luta do humorista pela vida.
Casado seis vezes, Chico deixa viúva a empresária Malga de Paula, oito filhos, uma filha e nove netos.
O cearense de Maranguape Francisco Anísio de Oliveira Paula Filho nasceu no dia 12 de abril de 1931. Na família, todo mundo o chamava de Oliveirinha. Por causa do pai. Coube ao seu talento consagrá-lo simplesmente como Chico Anysio.
Caçula por sete anos (até a chegada de Zelito), dizia nunca ter tido nenhum privilégio especial por isso. Era levado, e conforme as regras da época, apanhou muito. Mas nada que o desanimasse. Ainda na infância, quando mudou com a família para o Rio de Janeiro, Chico já ensaiava os primeiros passos da promissora carreira que trilharia ao longo da vida. Naqueles tempos em que a meninada soltava balão, pipa e jogava botão, ele ia além... Imitava pessoas do convívio cotidiano com boa dose de humor. Escrevia pequenas peças, distribuía os papéis dos personagens entre os irmãos e reunia parentes e vizinhos para dar o espetáculo.
Na adolescência, conseguiu a primeira oportunidade artística: aos 16 anos, foi empregado numa rádio, como humorista e comentarista esportivo. Mas foi na televisão, a partir de 1968, que se popularizou a frente de programas de humor em que escreveu e interpretou seus próprios personagens - ao todo mais de 200 tipos cômicos.
Para cada um deles, criados ao longo dos anos, inspirados, principalmente, na realidade sócio-econômica brasileira da época e sob um olhar irreverente e contestador, Chico deu vida própria, destacando particularidades através da maquiagem, do figurino, da voz, dos trejeitos da interpretação, e de bordões que sempre caíram no gosto popular: João Batista? Salomé!, É mentira, Terta?, Aff, tô morta!, Bento Carneiro, o vampiro brasileiro,Calada!, Jovem é outro papo, Tenho horror a pobre! "Quero que pobre se exploda!", "Falou… Aííí, ó…! Bateu pra tu?", Roberval… Tayyylorrr…, Sou! Mas… quem não é?, Podem correr a sacolinha…, E o salário, ó...
Era uma vez uma Escolinha do Professor Raimundo
Primeiro da série de personagens criados por Chico, ainda nos tempos da rádio, o Professor Raimundo foi o personagem mais querido, e sem dúvida, o que mais reverberou a generosidade aflorada, que sempre o norteou. Quantos colegas de trabalho não foram revelados novos talentos, e principalmente, quantos Chico não ajudou a não cair no ostracismo, ao ganhar um papel para contracenar na Escolinha?
Embora, considerando-se um ator de televisão, Chico também se aventurou pela pintura, literatura, teatro e música. Quer na coleção de quadros que desenhou, nos inúmeros livros que publicou, nos espetáculos que dirigiu ou nas composições que musicou, é incontestável a certeza de que Chico recebeu uma missão e a cumpriu da melhor maneira possível.
23/03/2012 - 15:24 | Enviado por: Lucyanne Mano -
Eu tive um vizinho original.
Era magro, comprido, poeta e tísico, tudo em grande dose. Poeta da velha idolatria das brisas, tísico do terceiro grau.
Quem o visse, à rua, enfiado no velho croisé como num tubo, espirrando para baixo as mirradas canelas, para cima, um pescoço de garça, nodoso e interminável, frágil apoio da cabecinha viva e inquieta, projetada para a frente, com o longo cavaignac de poucos cabelos e os olhos fúlgidos arregalados, quem o encontrasse hesitaria em tomá-lo por um oficial de justiça, por causa do olhar extraordinário, e ver-se-ia reduzido a não formar opinião sobre aquele estranho transeunte, malvestido, delgado, célere, como se tivesse medo de chamar atenção, fugitivo, quase fantástico.
O nosso poeta tinha uma filha moça, digna filha! Alta como o pai, como ele magra, alvíssima, talvez tuberculosa, provavelmente poetisa. Representava os restos de uns amores do poeta que deram em casamento, de um casamento que dera em droga.
Vivia das esperanças fugazes de uma cadeira de professora pública que lhe prometiam, havia anos, e que lhe não davam nunca. Além disso, tocava piano.
Tocava piano não exprime bem. A donzela, repetia, várias vezes ao dia, repisava, remola, uma certa e determinada música, invariável, pertinaz, uma espécie de balada, lânguida, desafinada, medonha!
O piano era um memorável tacho, de não sei que fabricante, diabólico. Produzia sons novos, inauditos, fenomenais, que davam idéia de fabuloso armazém de ferros velhos em revolução, harmonias assombrosas, não sonhadas por Wagner. Por um efeito incrível de contágio, parece que a enfermidade dos donos se comunicara ao piano. Eu era capaz de jurar que aquele piano estava tísico, tão perfeitamente ético como o magro vizinho. Havia notas tossidas, havia escalas escarradas... Ninguém imagina!
Deste monte de horrores, o pianista tinha a habilidade de extrair a sua música, a tal peça eterna e desesperadora.
Era um prodígio desafinado de doçuras, enxame de moscas sonoras zumbindo na clave de fá sobre pieguices requebradas e sentidas da clave de sol, como sobre compotas. Via-se na música da filha, o gênio do pai. Estava presente todo o alfenim da magra sentimentalidade dos vates da antiga escola. Era uma melodia a pingar melado; a enjoar de doçura.
O poeta adorava essa música. Alimentava o seu estro na beterraba e na cana daquele açúcar. Fecundada por essa inspiração de confeitaria, o referido estro dava à luz estrofes idiliais, onde o leite e o mel corriam pelos regatos e as cordilheiras eram legítimos pães de açúcar alinhados como na Serra dos Órgãos.
Estas obras-primas de lirismo lacrimejante e apaixonado apareciam, como sonâmbulas, a bracejar desvairadas, pelas colunas ineditoriais das folhas.
Não se calcula o sacrifício que se impunha o trovador para exalar em público, por glória de seu nome, os suspiros de sua alma a seis vinténs a linha.
Um belo dia o piano calou-se. Mau agouro! E o poeta não saía à rua...
Quando já a vizinhança se dava parabéns, pelo feliz desaparecimento do tal piano e da tal música, eis que de novo ressurge a melodia!
Desta vez, custava-se a ouvir. As janelas fechadas da casinha do poeta cobriam a música com o abafador de uma espessa surdina.
Nunca me pareceram tão profundamente irritantes aqueles sons. Possuíam, então, uma ternura estranha, pungente, revoltante! As notas não cantavam mais nem suspiravam - estertoravam. Era como uma série arquejante de derradeiros suspiros, ao longe. Uma agonia longínqua e interminável.
Fazia raiva aquilo! Terrível conspiração daquela pianista com aquele piano, daquela música com aquelas vidraças descidas... para me darem cabo dos nervos naquele dia!
Felizmente, a agonia acabou. A música subiu, num crescendo de círio expirante e morreu de chofre, como se lhe houvessem faltado as cordas do piano.
..................................................................
No dia seguinte, me explicaram o significativo da casa fechada e do reaparecimento da música. Adoecera e morrera o poeta lírico. Adivinhando a morte, mandara a filha ao piano tocar a melodia querida.
E adormecera o grande sono, ninado por aquela música, a dulçurosa irmã do seu estro.
Lirismo e tísica, escreveu o médico na certidão de óbito.
Raul Pompéia