Descrição de minha viagem de Lisboa para fora de Portugal

 

Saímos de Lisboa com mais um navio pequeno, que também pertencia ao nosso capitão, e aportamos primeiro a uma ilha, denominada Ilha de Madeira, que pertence a El-rei de Portugal, e onde moram portugueses. É grande produtora de vinho e de açúcar. Ali mesmo, numa cidade chamada Funchal, embarcamos mantimentos.

Depois disso, deixamos a ilha em demanda da Barbaria, para uma cidade chamada Cape de Gel, que pertence a um rei mouro, branco, a quem chamam Sherife. Esta cidade pertencia, outrora, a El-rei de Portugal; mas foi retomada pelo Sherife. Nela pensávamos encontrar os mencionados navios que negociam com os infiéis. Chegamos e achamos, perto de terra, muitos pescadores castelhanos, que nos informaram de que alguns navios estavam para chegar, e ao afastarmo-nos, saiu do porto um navio bem carregado. Perseguimo-lo, alcançando-o; porém a tripulação escapou nos botes. Divisamos então em terra um bote vazio que bem podia nos servir para abordar o navio aprisionado, e fomos buscá-lo.

Os mouros brancos chegaram então a cavalo, a protegerem o barco; mas não podiam aproximar-se por causa dos nossos canhões. Tomamos conta do navio e partimos com a nossa preza, que consistia em açúcar, amêndoas, tâmaras, couros de cabra e goma arábica, que levamos até a Ilha de Madeira, e mandamos o nosso navio menor a Lisboa, a informar a El-rei e receber instruções a respeito entre os proprietários. El-rei nos respondeu que deixássemos a preza na Ilha e continuássemos a viagem, enquanto Sua Majestade deliberava sobre o caso.

Assim o fizemos, e navegamos de novo, até o Cape de Gel, a ver se encontrávamos mais prezas. Porém foi em vão; fomos impedidos pelo vento, que, próximo da costa, nos era sempre contrário. À noite, véspera de Todos os Santos, uma tempestade nos levou da Barbaria para o lado do Brasil. Quando estávamos a 400 milhas da Barbaria grande, um cardume de peixes cercou o navio; apanhamos muitos com o anzol. Alguns, grandes, eram dos que os marinheiros chamavam Albakores. Outros, Bonitas, eram menores, e ainda outros chamavam Durados. Também havia muitos do tamanho do arenque, que tinham asas nos dois lados, como os morcegos, e eram muito perseguidos pelos grandes. Quando percebiam isso, saíam da água em grandes cardumes e voavam, cerca de duas braças acima da água; muitos caíam perto e outros longe a perder de vista; depois, caíam outra vez na água. Nós os achávamos freqüentemente, de manhã cedo, dentro do barco, caídos durante a noite, quando voavam. E são denominados na língua portuguesa – peixe voador.

Daí chegamos até a linha equinoxial onde reinava intenso calor, porque, ao meio dia, o sol estava exatamente a pino sobre as nossas cabeças. Durante algum tempo, de dia, não soprava vento algum; mas de noite, se desencadeavam, muitas vezes, fortes trovoadas, acompanhadas de chuva e vento, que passavam rápido. Entretanto tínhamos de velar constantemente, para que nos não surpreendessem, quando navegávamos a pano.

Mas, quando de novo soprou o vento, que se tornou temporal, durante alguns dias, e contrário a nós, julgamo-nos ameaçados de fome, se continuasse. Oramos a Deus, pedindo bom vento. Aconteceu então, uma noite, por ocasião de forte tempestade, que nos pôs em grande perigo, apareceram muitas luzes azuis no navio, como nunca mais tenho visto. Onde as vagas batiam no costado, lá estavam também as luzes. Os portugueses diziam que essas luzes eram sinal de bom tempo que Deus nos mandava, para nos consolar do perigo. Agradecíamos então a Deus, depois que desapareciam. Chamam-se Santelmo, ou Corpus Santon, estas luzes. Quando o dia raiou, o tempo se tornou bom, soprando vento favorável, de modo que vimos claramente que tais luzes são milagres de Deus.

Continuamos a viagem através do oceano, com bom vento. A 28 de janeiro houvemos vista de terra, vizinha de uma cabo chamado Sanct Augustin . A oito milhas daí, chegamos a um porto, denominado Prannenbucke (Pernambuco). Contavam-se oitenta e quatro dias que tínhamos estado no mar sem ter avistado a terra. Ali os portugueses tinham estabelecido uma colônia, chamada Marin. O governador desta colônia chamava-se Arto Koslio (Duarte Coelho), a quem entregamos os criminosos; e ali, descarregamos algumas mercadorias, que lá ficaram. Terminamos os nossos negócios neste porto, com o intuito de prosseguir viagem e tomar cargas.

Hans Staden
(1548)

Do livro: "Viagem ao Brasil", Capítulo II, Academia Brasileira de Letras, 1930, RJ.

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