Ilusão de ótica

casalcomdificuldades

Zapeando na inutilidade televisiva de um domingo me deparo com um quadro sobre ilusão de ótica. Estavam explicando como o cérebro nos engana em algumas situações. Eram desenhos geométricos que pareciam estar tortos, mas estavam retos, ou que alteravam de cor, mesmo tendo apenas uma cor. Tudo cientificamente comprovado. Se todas as nossas ilusões de óticas fossem cientificamente comprovadas estaríamos feitos, mas não é assim, o pior é que muitas das nossas ilusões de óticas viram verdades estabelecidas, e como tais muito perigosas...

Os preconceitos são o melhor exemplo disso. Estabelecemos nosso parecer sobre alguém a partir de uma característica ou a uma condição que em nada definem quem a pessoa é. O preconceito é uma coisa estranhíssima, aos olhos de quem sente (e todos sentem em maior ou menor grau) é uma verdade inquestionável: a cor da pele diz quem o sujeito é, da mesma forma que sua condição sexual, sua origem, sua nacionalidade, sua linguagem, sua quantidade de gordura ou sua estatura. A ilusão de ótica do preconceito estabelece a casca como verdade, o fora como cerne, a aparência como determinante da ética, da generosidade e da honestidade de alguém, enfim, o preconceito rechaça a pessoa pela sua superficialidade, não pela sua interioridade, algo que só conseguiremos decidir se é bom ou ruim depois de um primeiro contato.

Por outro lado, surgiu nos tempos atuais uma outra ilusão de ótica: o politicamente correto. Ilusão de ótica porque o que era um instrumento para coibir abusos virou, em muitos casos, um instrumento para coibir apenas. As coisas não podem ser mais ditas de forma direta, não podem ser chamadas pelo nome, há um escamoteio, uma superficialização de tudo. O politicamente correto é um preconceito invertido, com medo de parecermos preconceituosos novamente julgamos pela casca, novamente acreditamos que o fora é o cerne, que o que define uma pessoa é a sua superficialidade, então não podemos chamar alguém de gordo, porque gordo é defeito, e isso vale para o baixo, o gay, o negro, o vesgo, o aleijado, etc, etc... Se afastamos alguém porque temos algum tipo de preconceito, o politicamente correto nos força a nos aproximar de alguém, não por aquilo que ela é, mas por que temos medo de parecermos preconceituosos, muitas vezes o politicamente correto é um ato egoísta, que em nada ajuda o outro, mas só contribui para mantermos nossa aura de bom mocismo. Algumas situações beiram o esdrúxulo, como o caso da censura a Monteiro Lobato.

Não vejo muita saída, caso contrário um ditado como “a primeira impressão é a que fica” não viveria tanto tempo entre nós. Mas que impressão é essa, baseado em que? em nossos preconceitos, claro. Naquilo que estabelecemos como verdade. De uma forma ou outra somos feitos assim, o problema fica quando essa impressão vira uma ditadura pela rejeição a tudo que é diferente, ou vira uma outra ditadura, aquela em que somos obrigados a encobrir com eufemismos toda e qualquer diferença. Geralmente as pessoas estão mais dentro do que podem alcançar os olhos falhos do preconceito e do politicamente correto.

Rubens da Cunha

Comentários

Anônimo disse…
muito da hora eu tive um dia enteiro para estudar isso e é super legal
Anônimo disse…
iai colé cumé q vai pô mano eu e as mina fizemo o trabaio mior da sala istudando isso dai VALEU.

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